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Locutor faz comentários homofóbicos ao vivo em rádio de Santa Catarina

Hygino Vasconcellos

Colaboração para Universa, em Porto Alegre

07/05/2020 15h15

Um locutor fez comentários homofóbicos durante um programa ao vivo no começo da tarde de terça-feira (5) em uma rádio de Orleans, a 112 quilômetros de distância de Florianópolis. Carlos Augusto Almeida estava apresentando notícias policiais quando começou a falar sobre uma briga entre duas mulheres, iniciada quando uma delas quis furar a fila da Caixa Econômica Federal (CEF) da cidade.

"E tinha uma bichona lá também, um boiólico. E o boiólico tava (sic) querendo dar o tobe. Diz que dava o tobe para quem desse o lugar para ele passar na frente. Que coisa de louco. Tem de tudo", comentou o apresentador.

Em seguida, ele respondeu a uma pergunta, como se fosse de um ouvinte, questionando se havia novos casos, em uma referência ao coronavírus. "É, é mais um caso na cidade de Orleans. É mais um caso gay na cidade. É uma barbaridade, viadagem à solta na cidade. É uns porcos filho da mãe, é uma barbaridade, como é que pode, né? Eita coisa danada", disse o apresentador, que trabalha desde 2017 na rádio.

Os comentários foram feitos no programa "Boletim Policial", que vai ao ar às 12h na Rádio Cultura FM. A atração é transmitida também no Facebook do apresentador, visível apenas para amigos próximos, ao qual o UOL teve acesso, e que hoje seguia postada na rede social. Na página da rádio, o vídeo não aparecia na linha do tempo.

Procurado pelo UOL, o diretor da rádio Gelson Luiz Padilha disse que não sabia se o vídeo chegou a ser incluído na página ou, caso tenha sido publicado, foi retirado depois.

Padilha classificou os comentários como um "deslize". "Depois de tomar conhecimento, pedi que ele se retratasse. Ele fez uma retratação completa hoje ao vivo. A rádio não tem tendência de discriminar ninguém", explica. Segundo o diretor, Almeida costuma fazer brincadeiras durante o programa, mas, desta vez ele "exagerou".

O apresentador disse hoje no programa que "em hipótese alguma" tentou ofender alguém, porém ao se justificar acabou usando o termo "denegrir" que é racista. "Em hipótese alguma, eu tentei ofender ou denegrir a imagem de qualquer pessoa seja do sexo A, B ou C. O que eu quero aqui neste momento é pedir escusas às pessoas que sentiram-se ofendidas ontem pelo procedimento que realizou no ar em falar de um fato...Não é da minha índole vir aqui e tentar ofender moralmente as pessoas. Em hipótese alguma", disse.

"Comentários completamente homofóbicos", diz ativista

O coordenador técnico do grupo SOMOS (Comunicação, Saúde e Sexualidade), Gabriel Galli, criticou a fala do apresentador. "Os comentários do locutor são completamente homofóbicos e do pior tipo: aqueles que fingem fazer piadas para esconder o preconceito", explicou.

Sem citar nomes, Galli lembrou de outros casos ocorridos neste ano. "Não chega a surpreender porque infelizmente no último ano temos visto muitos apresentadores de veículos de comunicação sensacionalistas se sentindo autorizados a reforçar comentários homofóbicos inclusive em rede nacional. Há um sentimento de pré-autorização, já que políticos repetem esse tipo de fala preconceituosa e a Justiça não tem sido efetiva na responsabilização", avaliou.

O ativista salientou que, no ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou como crime a homofobia e que casos do gênero devem ser denunciados. "A atitude do locutor é criminosa nessa perspectiva", apontou Galli.

Além disso, o coordenador técnico da Somos demonstrou preocupação dos comentários terem sido feitos em uma rádio comunitária. "Rádio e televisão são concessões públicas e nossa legislação define que o principal objetivo delas é a educação e a informação. As rádios comunitárias, em específico, deveriam se dedicar a promover a integração da comunidade e não a divulgar comentários preconceituosos e criminosos contra populações extremamente vulnerabilizadas socialmente, como é a LGBT, que é vítima de centenas de assassinatos todos os anos. Na minha avaliação, seria o caso de se analisar a perda da concessão do veículo", disse.

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