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Ela ia retirar o útero, mas coronavírus adiou cirurgia: "Sinto muita dor"

Joseane aguarda desde agosto a retirada do útero e correção de uma hérnia abdominal - Arquivo pessoal
Joseane aguarda desde agosto a retirada do útero e correção de uma hérnia abdominal Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

06/05/2020 04h00

A técnica em enfermagem Joseane Moreira Araújo dos Santos, 36 anos, foi internada no último dia 9 de março para retirar o útero — a cirurgia é chamada de histerectomia — e corrigir uma hérnia abdominal. Mas somente na noite do dia 10 a moradora de Salvador (BA) soube que não haveria mais cirurgia. Segundo ela, a pandemia provocada pelo novo coronavírus foi um dos motivos para o cancelamento.

Jô, como gosta de ser chamada, esperava pelo procedimento desde agosto, quando marcou a data. Ela conta que uma das médicas da equipe que realizaria as duas cirurgias, no hospital Santo Antônio, em Salvador (BA), informou, num primeiro momento, que houve uma intercorrência no centro cirúrgico, expressão usada para definir um imprevisto.

Mas, depois de Jô insistir para entender os reais motivos do cancelamento e questionar por que teve que esperar quase 24 horas em jejum num quarto do hospital, a mesma profissional teria afirmado que a equipe queria ouvir uma segunda opinião de um outro ginecologista, para saber se realmente ela precisava realizar a histerectomia.

"Quando ouvi isso, me deu vontade de chorar. Tenho útero miomatoso (com diversos miomas), e ele está com inflamação crônica e um cisto. A minha ginecologista, que recomendou a cirurgia, disse que há indício de câncer. Fiz tratamento, tentamos de tudo, mas não melhorei, e a dor é insuportável. Fora a dor da hérnia. Estou me locomovendo com auxílio de andador, e passo a maior parte do tempo deitada. Também não tenho dinheiro para comprar remédios", Jô conta.

No mesmo dia em que a cirurgia foi cancelada, a técnica em enfermagem se consultou com um ginecologista do hospital, e retornou com novos exames de imagem na semana seguinte. Segundo ela, o profissional que pediu esses novos exames confirmou que ela precisava, de fato, da cirurgia. Foi então marcada uma nova data para os dois procedimentos, em 22 de abril.

No dia combinado, Jô disse que ouviu dos médicos que, por causa da pandemia provocada pelo coronavírus, as cirurgias eletivas, aquelas consideradas não graves, foram canceladas por tempo indeterminado. E ficou desesperada.

Fora que me trataram com ignorância, alguns profissionais gritaram comigo. Estou com dores e vômito e vendo vários pacientes passarem pela mesma situação. Sinto que meu caso está se agravando

Quase todas as cirurgias eletivas no país foram suspensas

A pandemia provocou mesmo o cancelamento de vários procedimentos no país, desde tratamentos até transplantes de órgãos.

Reportagem da Folha de 27 de abril mostrou que os movimentos dos hospitais caíram até 90% por causa das cirurgias eletivas que foram suspensas. Ao veículo, a FBH (Federação Brasileira dos Hospitais), entidade que reúne 4 mil hospitais no país, a maioria pequenos e médios, disse que o impacto é tão severo que muitas das instituições não teriam fôlego para fechar o mês de abril. Cerca de 70% delas se dedicam apenas a atendimentos eletivos.

Por e-mail enviado a Universa, a entidade manifestou preocupação frente aos impactos econômicos gerados por esses cancelamentos e com a assistência de pacientes que estão na fila para realizar essas cirurgias. Essas preocupações, informa a nota, foram manifestadas por meio de ofício encaminhado à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e também durante audiência pública, realizada na última quarta-feira (29), pela Comissão Externa de prevenção ao Coronavírus, da Câmara dos Deputados.

A Universa, a assessoria de imprensa do hospital Santo Antônio confirmou que num primeiro momento cancelou a cirurgia de Jô porque houve a necessidade de investigação mais apurada de uma endometriose. Mas que, por determinação da Sesab (Secretaria da Saúde do Estado da Bahia), suspendeu, temporariamente, a realização de cirurgias eletivas.

A unidade informa ainda que não integra a rede de referência para atendimento a pacientes portadores de Covid-19.

O que orienta o Ministério da Saúde

Em nota enviada à reportagem, a Sesab confirmou que os procedimentos eletivos nas unidades estaduais, com exceção dos oncológicos, estão mesmo suspensos temporariamente. E ressalta que todos os pacientes que estão com cirurgias agendadas estão sendo informados dessa suspensão.

Num texto publicado em seu site, em 19 de abril, a Sesab informou que devido ao aumento do número de casos diagnosticados de coronavírus no Hospital Santo Antônio, a pasta, juntamente com a Osid (Obras Sociais Irmã Dulce), que administra a unidade, transferiu, provisoriamente, 200 pacientes internados, entre idosos e infectados, e que o número de leitos no local seria reduzido em 50%.

A nota do Ministério da Saúde enviada à redação endossa o pedido de adiamento de cirurgias eletivas, com o objetivo de otimizar o uso de recursos e minimizar a circulação de pessoas em ambiente hospitalar.

Em seu texto, a pasta atenta que a avaliação do risco-benefício de se realizar o procedimento eletivo deve ser definida pela equipe médica, "em alinhamento com as diretivas vigentes adotadas pelo estabelecimento, de acordo com as recomendações das Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, as quais têm autonomia para definir as estratégias mais adequadas de atendimento à população de sua área de abrangência, a partir das características da rede de saúde disponível no território".

A nota finaliza frisando que essa avaliação deve levar em consideração o risco-benefício coletivo, e não o individual.

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