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Mães e filhos

Mães são as mais afetadas pelo isolamento, indica pesquisa

Dados mostram que mães se dedicam mais aos cuidados e estudos dos filhos - Getty Images/iStockphoto
Dados mostram que mães se dedicam mais aos cuidados e estudos dos filhos Imagem: Getty Images/iStockphoto

De Universa

03/05/2020 12h07

Durante o confinamento provocado pelo coronavírus, mães no Reino Unido têm pelo menos 50% a mais de cuidados com as crianças, além de gastar cerca de 10% a 30% mais tempo do que os pais com os filhos que estão estudando em casa, segundo dados analisados pelo "Observer".

E não importa se uma mulher trabalha em casa, fora dela ou não trabalha: a pesquisa revela que ela normalmente gasta pelo menos uma hora e meia a mais em cuidados e educação domiciliar todos os dias, em comparação com o homem nas mesmas circunstâncias, atenta reportagem do "The Guardian".

A pesquisa, realizada por economistas das universidades de Cambridge, Oxford e Zurique entre 9 e 14 de abril, indica que uma mulher que está em casa —trabalhando ou não formalmente —é afetada por essa divisão de gênero.

Divisão de gênero maior entre quem ganha mais

Mães empregadas e desempregadas normalmente gastam cerca de seis horas cuidando de crianças e estudando em casa todos os dias úteis. Por outro lado, o pai em casa gasta apenas um pouco mais de quatro horas em cuidados e educação escolar em casa todos os dias úteis, independentemente de seu emprego.

A divisão de gênero é ainda maior em famílias de alta renda. Uma mãe que ganha mais de 80 mil libras por ano (cerca de 45 mil reais por mês) e trabalha em casa normalmente faz 3,3 horas de educação em casa e 3,8 horas de assistência por dia —mais de sete horas no total.

Um pai que ganha a mesma coisa gasta apenas 2,1 horas em casa educando seus filhos e 2,3 horas em cuidados todos os dias úteis —menos de 4,5 horas no total.

"Quanto maior a renda familiar, mais tempo as mulheres passam a estudar em casa com os filhos do que os homens. As pessoas vêm com explicações —como as mulheres são melhores em cuidar de seus filhos devido à evolução—, mas se isso fosse verdade, não deveria se aplicar à educação em casa. No entanto, também vemos essas diferenças aqui", atenta Christopher Rauh, economista da Universidade de Cambridge.

A divisão de gênero mais acentuada entre os pais menos remunerados é, porém, em torno dos cuidados infantis. Aquelas que ganham de 0 a 20 mil libras (até cerca de 11 mil reais por mês) estão realizando 3,9 horas de cuidados por dia. Por outro lado, os homens mais mal pagos realizam apenas 2,4 horas de atenção às crianças por dia.

Em outras palavras, uma mulher que ganha mais de 80 mil libras e trabalha em casa normalmente gasta 60% mais tempo (1,4 horas extras) em cuidados infantis todos os dias úteis do que o homem comum que ganha entre 0 e 20 mil libras por ano.

Malabarismos para trabalhar e cuidar da casa

Mary-Ann Stephenson, diretora do Grupo de Orçamento para Mulheres, acha que o motivo pode ser porque as mulheres estão mais acostumadas a fazer malabarismos para cuidar de crianças e trabalhar do que homens. "Pode ser que, em caso de emergência, a mulher assuma mais trabalhos de assistência à infância", diz ela.

As crianças também podem estar mais inclinadas a ir para as mães do que para os pais, Mary-Ann continua. Da mesma forma, se o pai receber mais, pode ser visto como mais importante que ele não perca o emprego.

A plataforma "Atom Learning", para estudos em casa, informou à reportagem que, desde o início do lockdown, mais de três quartos dos pais que registraram seus filhos para aulas on-line gratuitas eram do sexo feminino.

Contribuição das mulheres fora de casa diminui

Ao mesmo tempo, há evidências de que a contribuição das mulheres fora de casa está diminuindo. Houve uma queda no número de trabalhos acadêmicos de autoria individual enviados por mulheres, enquanto as inscrições de acadêmicos do sexo masculino aumentaram.

Da mesma forma, na Philosophy Foundation, a maioria do trabalho da organização está sendo realizada agora por homens. "Isso ocorre porque a maioria de nossas filósofas está tendo que se concentrar em cuidar de crianças e educação em casa", diz a co-CEO Emma Worley.

O Working Families, que administra um serviço de aconselhamento jurídico para pais e responsáveis, registrou um aumento de seis vezes nas consultas desde o início do lockdown, 80% vindas de mulheres. Segundo a instituição informou à reportagem, as mães estão sendo penalizadas e não recebem apoio para trabalhar em casa porque têm filhos. E elas também estão tendo que tirar uma licença sem vencimento ou serem demitidas.

Preocupação com a saúde mental

Há preocupações sobre o impacto de tudo isso na saúde mental das mulheres. Uma pesquisa do King's College London mostra que, desde o início do lockdown, 57% das mulheres dizem estar se sentindo mais ansiosas e deprimidas, em comparação com apenas 40% dos homens. Mais mulheres do que homens também relatam que dormem menos e comem menos do que o normal.

Sam Smethers, executivo-chefe da Fawcett Society, uma instituição de caridade no Reino Unido que faz campanha pelos direitos das mulheres e pela igualdade de gênero, conclui:

"Isso mostra que as suposições padrão sobre quem cuida de crianças fundamentalmente não mudaram. O padrão é para as mulheres. Ainda existe uma expectativa de que as mulheres ajustem seus empregos ao cuidado, enquanto o emprego de um homem virá primeiro".

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