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Como repensar a carreira em tempos de crise? Especialistas apontam caminhos

No futuro, trabalharemos em casa e valorizaremos as conexões pessoais - Marvin Meyer/Unsplash
No futuro, trabalharemos em casa e valorizaremos as conexões pessoais Imagem: Marvin Meyer/Unsplash

De Universa

01/05/2020 04h00Atualizada em 27/05/2020 11h43

São muitas as preocupações dos brasileiros desde que a pandemia do novo coronavírus se instalou no país, mudando radicalmente a rotina e as perspectivas de todos. Se a prioridade inicial era preservar vidas, hoje, pouco mais de um mês após um cotidiano moldado a partir das limitações do isolamento, empresas, serviços e profissionais vivem outra grande aflição: como manter empregos e serviços que foram inviabilizados no novo cenário ou se reinventar para ficar de acordo com o que será esperado quando a normalidade for reestabelecida?

"Há algumas questões anteriores ao fim do isolamento. Primeiro, é preciso pensar no que podemos fazer durante este período, o que temos a aprender ou entender. E, então, que normalidade é essa que se espera depois", reflete Ligia Zotini, pesquisadora e especialista em transformação digital e futurismo, da Voicers, uma startup de educação digital focada em inovações e tendências. "Costumo dizer que o futuro vem em camadas. E desde 2012, quando passamos a contar com o recurso da internet móvel sem a necessidade de estar preso a uma mesa para nos conectar, já experimentamos uma primeira onda relevante de mudanças nos negócios e na forma de trabalhar", explica ela.

O trabalho remoto veio para ficar

Jens Kalaene/picture alliance via Getty Images
Imagem: Jens Kalaene/picture alliance via Getty Images

Seja por questões de confiança ou empecilhos legais trabalhistas, antes da Covid-19 ainda eram poucas as corporações que apostavam fortemente no home office. Conforme pesquisa realizada pela Catho em janeiro deste ano, mais de 70% dos profissionais enxergavam ganho de produtividade no trabalho em casa, embora somente para 25% deles esta era uma prática presente no dia a dia corporativo. O que pode refletir de certa forma, os hábitos dos próprios trabalhadores.

Embaixadora da Singularity University no Brasil, Nathalie Trutmann trouxe para o país há cerca de cinco anos, a escola Hyper Island. Fundada na Suécia, a Hyper se especializou em cursos de liderança para lidar com o desconforto de não saber o que fazer ou, trocando em miúdos, aulas para situações extremas e imprevistas como uma pandemia. "Logo de cara, decidi que não teria escritório no Brasil. Minhas entregas eram sempre no cliente, então não precisava de um local fixo. Isso causou estranheza tanto para as empresas quanto para a equipe que formei, que não entendia que não precisávamos estar o tempo todo em um local reunidos para produzir", lembra ela.

Agora, o trabalho remoto veio para ficar. Não é algo novo, mas uma mudança que precisava acontecer e foi agora acelerada.

Tatiana Libbos, diretora de recursos humanos da Alcon, multinacional de dispositivos médicos para saúde ocular, compartilha da mesma opinião. Há vinte anos trabalhando com recrutamento, seleção e gestão de talentos, ela considera que o momento já modificou crenças e paradigmas. "Não haverá mais lugar para líderes que necessitem de controle extremo, por exemplo, com funcionários trabalhando à sua vista para se certificar de que estão produzindo", afirma. Com aproximadamente 400 funcionários no país, a Alcon colocou 100% das áreas em home office assim que o isolamento foi instituído, oferecendo notebooks aos funcionários que ainda não tinham e desenvolvendo uma solução de acesso a protocolos de segurança da informação para computadores pessoais.

No Linkedin, maior rede mundial de conexões profissionais, onde cerca de 675 milhões de usuários e 50 milhões de empresas estão conectados, os números de interação e buscas nas últimas semanas mostram que é fato a preocupação em se adequar ao novo cenário e modelo de relações profissionais pós pandemia. Segundo levantamento feito com exclusividade para Universa, líderes e profissionais mais seniores estão focados em aprender mais sobre trabalho remoto - 44% já estão avaliando como estabelecer políticas mais permanentes de home office e outros 45% consideram esta mudança definitiva também para eventos e conferências virtuais.

A era dos profissionais híbridos

Jens BÃŒttner/picture alliance via Getty Images
Imagem: Jens BÃŒttner/picture alliance via Getty Images

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) apontou que o Brasil deve encerrar o ano com uma taxa de desemprego média de 17,8%. O índice, bem acima dos 11% registrados no ano anterior, refletirá inevitavelmente na massa de rendimentos do trabalho, que pode cair cerca de 14,4% em 2020. E o orçamento apertado também fará parte do dia a dia das corporações.

Para Nathalie Trutmann, não há saída que não seja trabalhar em ecossistemas e parcerias, nos grandes ou pequenos negócios. Se antes, por exemplo, uma companhia podia se dar ao luxo de contratar consultorias para validar ideias, agora não será mais possível terceirizar responsabilidades. Neste caso, menos dinheiro significa mais colaboração e flexibilização. "E isso também se reflete nos perfis profissionais que serão mais valiosos: aqueles corajosos para encarar mudanças e testar o novo" completa Tatiana Libbos. Serão valorizados, ainda, aqueles que conseguirem unir habilidades técnicas com capacidade de trabalhar em equipe, abertos a pontos de vistas diferentes.

Quem vai se diferenciar é o profissional híbrido, aquele que une conhecimento e aceitação das ferramentas digital ao seu potencial criativo."

A relevância das habilidades emocionais, as chamadas soft skills, será imensa, apontam as especialistas. Se antigamente demonstrar uma network forte era uma vantagem, agora o que contará é a habilidade em movimentar suas conexões e gerar soluções e ideias de forma colaborativa. "Vai se diferenciar quem for capaz de alavancar inteligência coletiva", diz Nathalie.

Fator humano de volta à equação

Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images
Imagem: Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images

"Acho impossível viver uma situação extrema completamente inesperada e não sair modificado, sobretudo como ser humano". A afirmação é da executiva Deborah Telesio, vice-presidente para da Elekta, multinacional sueca, com base em uma experiência pessoal. Há quinze anos, Deborah mergulhava no mar da Indonésia quando um tsunami atingiu o país deixando cerca de 230 mil mortos. Sobreviveu por um milagre, como ela mesma classifica. Sozinha, de biquíni e sem notícias da amiga que a acompanhava na viagem, passou três dias vagando pela cidade como indigente, até encontrar a companheira e apoio para retornar ao Brasil. O episódio não deixou saudades, mas lições. A autoconfiança e a convicção de que, mesmo em um contexto tão adverso, as coisas ficariam bem, ainda hoje fazem diferença em sua rotina como executiva. "Mas a minha grande transformação foi na atitude e no cuidado com pessoas. Era alguém muito apressada, focada na carreira" lembra.

Hoje, sou uma ouvinte melhor, que valoriza mais o que as pessoas têm a dizer, incluindo no ambiente profissional

Parece haver um consenso de que, após o cenário extremo e a experiência de ter de equilibrar atividades pessoais e de trabalho em casa, muitos não separarem mais empresa e vida pessoal. "Isso era algo era muito característico do modelo industrial. E o que estamos vivendo hoje é justamente um mundo que não roda mais na velocidade do relógio fabril", atesta Ligia. Como Lígia, Nathalie e Tatiana concordam que o fator humano será valorizado de forma mais genuína. E empresas e profissionais precisarão operar num modo mais verdadeiro e solidário. Portanto, é recomendado investir em habilidades emocionais.

E se nada mudar

Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images
Imagem: Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images

Especialistas e profissionais de recursos humanos ainda não arriscam afirmar que algumas funções possam não mais existir. "Quando olhamos para dados, observamos que 60% dos trabalhos ainda não foram inventados. Mas o que vemos é a entrada de novas tecnologias que podem diminuir a necessidade de determinado profissional. Como já está acontecendo com a telemedicina", pontua Ligia Zotini.

"Por isso, no lugar de desaparecimento de funções, prefiro usar os termos abundância e escassez. Alguns postos de trabalho e perfis profissionais serão mais demandados, enquanto outros, provavelmente mais operacionais, serão escassos", completa a pesquisadora. "É a bola de cristal que gostaríamos de ter. Certamente vivemos uma quebra de paradigmas, mas não é possível determinar agora o se tudo muda ou se, por outro lado, podemos voltar a muito do que era antes", pondera Nathalie.

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