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Letícia Colin: "Amamentar é superação e travessia complexa para mulheres"

Letícia Colin - Divulgação
Letícia Colin Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

01/05/2020 04h00

Isolada em casa com Uri, seu filho de cinco meses, o parceiro Michel Melamed, e a mãe, Analdina, a atriz Letícia Colin segue uma rotina parecida com a de muita gente: longe do trabalho, divide alguns traços de seu dia a dia no Instagram — no seu caso, para 3,4 milhões de seguidores. É na rede social que Letícia resolveu compartilhar um relato, por exemplo, sobre um aspecto da amamentação de que pouca gente fala: as dificuldades que podem surgir nesta fase da maternidade, como o mamilo aparecer machucado por conta da pega do bebê.

"Amamentação é a parte mais desafiadora, desde o primeiro dia. Tive alguns momentos de prazer, mas a maioria é de desconforto", revelou.

No ar com a reprise da novela "Novo Mundo", em que interpreta a imperatriz Dona Leopoldina, nesta entrevista para Universa Letícia reflete sobre o confinamento que estamos vivendo — mecanismo fundamental para diminuir a contágio por coronavírus—, o posicionamento de Jair Bolsonaro em relação ao gerenciamento das crises causadas pela pandemia, a oportunidade de estar isolada com a família.

A atriz conta sobre o apoio que teve de sua amiga Tata Werneck durante a gravidez e também fala sobre parto, puerpério e de como se inspira em outras mulheres.

O que é mais desafiador em estar 24 horas por dia com Uri, de cinco meses?

A amamentação é a parte mais desafiadora, desde o primeiro dia. Tive alguns momentos de prazer, mas a maioria foi de desconforto. Porque, ao mesmo tempo que é uma manifestação do nosso corpo, um elo da mãe com o bebê, ainda não entrou na rotina de um jeito agradável.

Eu me esforço, porque estou em casa, tenho leite e não quero abrir mão desse benefício para a saúde dele. Mas sinto muita dor. E não imaginava que seria tão desafiador: é desconfortável a pega do bebê, o intumescimento dos mamilos, e a dor nos ombros e nas costas. Sei que para muitas outras mulheres é uma travessia complexa.

Há a questão física, a emocional e a psicológica de atender àquela demanda do bebê. No meu caso, também uso mamadeira e complementação da fórmula, além de bomba para tirar o leite, que me ajuda a aliviar a dor, e a armazenar também. Até porque, às vezes você está cansada e precisa de alguém para dar a mamadeira para ele.

Estava de licença-maternidade e agora, de quarentena. Posso dizer que a amamentação é uma superação diária.

Neste momento, o Michel é um companheiro incansável. Aliás, nós formamos um trio imbatível, a gente se dá bem, se ajuda, se consola, se incentiva, se diverte.

Sua mãe, Analdina, está na casa com vocês. Ela foi para ajudá-los com Uri? Foi para isolá-la também por ela ser do grupo de risco?

Minha mãe está aqui desde a reta final da gestação, para me ajudar, mas também curtir comigo esses momentos de luz e sombra que são procriar, parir, produzir leite. Ela é minha parceira, então tudo de importante que eu viver, ela vai estar. Tenho prazer de conversar com ela, porque é mãe de quatro filhos, já tem bisnetos, é uma mulher que admiro.

Imagine uma mulher, professora, que saiu de uma cidade pequena no Mato Grosso do sul e fez a vida dela. Queria que ela estivesse perto de mim, energeticamente, dando amparo emocional e concreto.

Assim que o coronavírus começou a se intensificar na Itália, ela veio para visitar e acabou ficando. Também sabia que para ela seria desafiador e perigoso esse momento, para pedir supermercado, pagar contas; ela não tem traquejo nenhum com internet, apesar de ser muito agitada.

Aqui, ela tem sido mãe de todos nós. Ela tem 71 anos e o Uri, cinco meses. E passam por isso juntos.

Sente que a solidão do puerpério aumentou pelo fato de estar em isolamento social?

Letícia Colin e Uri, filho - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Letícia conta que Uri é um bebê "risonho, iluminado"; atriz está em isolamento com filho, companheiro e a mãe, Analdina
Imagem: Reprodução/Instagram

A rotina dos cuidadores de um bebê já muda radicalmente, é despendido um volume de atenção e amor por aquela criança que se traduz na intensidade de tudo: de cansaço, de sensibilidade, e do fato de ser emocionante testemunhar a vida dessa forma. Ter um bebê risonho, iluminado, como é o Uri, é muito comovente; tudo que é 'muito', deixa desnorteado. É bom, e é uma coisa que te desestabiliza.

Na prática, tudo e todo mundo mudou. O espaço da casa, nossas roupas, móveis, o tempo do banho cai, a rotina do que come ou não; eu adoro café, mas tomo pouco agora porque estou amamentando, por exemplo.

Mas, tenho me sentido preenchida de muitas coisas, do amor que recebo e que dou para ele e da mulher que está se renovando dentro de mim; o que tem me ocupado bastante. Também tenho um casamento com esse parceiro que me ampara. Eu sempre tive esse entendimento de que somos individuais. A gente tem amparo, barragens para nos ajudar a correr como rio, mas só a gente é o rio.

Por eu já ter enfrentado a depressão em alguns períodos da minha vida, por ser atriz e bem sensível, eu já me debati com a dor da solidão muitas vezes. Para mim, ela também é a possibilidade de sentir a espiritualidade.

Sempre convivi com essa ideia, mas eu ter encarado a depressão, ser budista, fazer yoga e ter tido um filho me deu a noção de que alguma coisa me fez ter mais coragem de aceitar essa solidão.

Além disso, tenho o apoio de amigas e acompanho muita gente falando coisas legais nas redes sociais, sobre feminismo e sobre a 'maravilhosidade' de ser mulher [Letícia indica perfis como de Alexandra Gurgel, Dríade Aguiar, Duda Salabert, Mariah de Moraes, Renata Souza, Nanda Costa e Lilia Schwarcz].

Como foi seu parto? Acha que é preciso falar mais sobre os tipos de parto possíveis para as mulheres?

O que é fundamental é que a mulher tenha máximo de opções possível sobre o parto, sobre as ocorrências e recursos que ela pode ter: desde respiração e massagem até anestesia. A mulher é dona do parto dela. E vai tomar a melhor decisão. A gente conquistou esse direito de fazer cesárea porque as mulheres não queriam sentir dor.

Eu fiz parto normal, tive uma dilatação impecável, não fiquei horas no trabalho de parto. Mas tomei anestesia com 6 ou 7 cm de dilatação, porque já estava em um processo em que fiquei com medo de desmaiar de dor.

Eu acredito que a mulher deve ser informada, acolhida e encorajada para parto normal; a recuperação é mais rápida, não passa pelo corte [cirúrgico]. Mas a cesárea pode salvar vidas, porque antes as mulheres e os filhos que eram mais desamparados morriam.

Mas o parto não tem que estar a serviço do médico, das clínicas e dos hospitais ou do tempo dele, tem que estar lado da mulher. Não é para gerar mais rapidez, mais sala de parto vazias e mais lucros. O pensamento tem que ser amoroso, fisiológico, humanista e feminino, e não mercadológico.

A Tata Werneck [que deu à luz Clara Maria no final de outubro] brincou nas redes sociais que foi ótimo "combinar a gravidez" com você [Uri nasceu em novembro]. Qual foi a importância disso para você?

Tata é um ser humano generoso, amoroso, é uma amizade que sei que é para vida toda. A gente se uniu no momento das gestações, o que por si só já é uma coisa emblemática, mas ela é uma das pessoas em quem eu confio para desabafar, para pedir ajuda, dar risada, com quem me mostro frágil. A gente divide nossos momentos, ela estava na nossa casa muito presente antes do isolamento. A gente se dá força e comemora juntas o desenvolvimento dos nossos filhos.

Você está de volta à TV na reprise de "Novo Mundo" com o papel da Imperatriz Leopoldina. Como ela impactou na sua carreira?

Leopoldina - Globo/Marília Cabral - Globo/Marília Cabral
A atriz como Leopoldina em "Novo Mundo"; a novela está sendo reprisada pela TV Globo por conta da pandemia de coronavírus
Imagem: Globo/Marília Cabral

Ela me transformou como artista, porque foi um desfio grandioso de fazer uma figura histórica e real. Então, fui atrás desses rastros, cartas principalmente, para me aproximar dela e porque era a oportunidade de fazer algo que eu adoro, que é aprender a História do Brasil, algo que nunca se fez tão urgente.

Eu me tornei melhor brasileira e cidadã por conhecer Leopoldina e saber mais sobre o que estava acontecendo no século 19 no Rio de Janeiro e no nosso país.

Qual foi a importância de interpretar essa figura feminina da história brasileira para você?

Como atriz, por vezes também sou agraciada com esses trabalhos em que a gente pode pensar o país como um povo, uma sociedade. E descobrir essas figuras femininas: a Leopoldina tinha suas atitudes subjugadas à Monarquia, que é o lado sombrio da mulher antigamente, em que tinha que obedecer e colocar seu desejo em último lugar. Sofria com isso, e só desabafava as tristezas em cartas privadas, 'invisíveis'.

Ao mesmo tempo, ela amava arte, cultura, ciências, literatura, era uma mulher iluminista, gostava de mineralogia, trouxe cientistas para o Brasil e viabilizou um processo de pesquisa da fauna e da flora brasileira, a que D. Pedro II deu continuidade.

Era culta e sofisticada. Muito sonhadora, imaginava que casar com um Dom Pedro I, jovem como ela, era uma sorte. Então, a promessa do casamento e da vida em um país dos trópicos era muito excitante. Mas ela foi muito infeliz no casamento e muito sozinha, mesmo porque era comum que as princesas nunca mais vissem a família.

Qual é sua avaliação sobre os posicionamentos de políticos no meio desta pandemia?

Letícia Colin - Divulgação - Divulgação
"Eu acho surreal um representante não ser a favor da vida humana", diz a atriz
Imagem: Divulgação

Antes era criminoso qualquer político não se manifestar a favor da vida. Agora é execrável. Eu acho surreal um representante não ser a favor da vida humana, não há nada mais importante e fundamental, principalmente dos mais vulneráveis, dos mais expostos.

É abominável qualquer representante, como nosso presidente, que não se coloque a favor da vida: ou é uma pessoa que está deslocada da realidade ou, de fato, não se importa e tem um comportamento de querer aniquilar o ser humano.

É muito revoltante ser representada por esse presidente. Como que ele está falando em nome de um país, e assim, também falando em meu nome, e se mostrando contra a vida?

Muitas pessoas públicas têm falado que a pandemia serve como um momento de reflexão. Como você tem visto essa questão, pessoalmente?

Temos que ser obsessivos e vigilantes com as medidas fundamentais - que quem não está executando, é muito irresponsável — como uso da máscara, isolamento social, higiene pessoal. Mas o que está acontecendo é uma tragédia, então, para tentar sair desse momento de crise e diminuir os danos, a gente precisa tentar cuidar da gente e de quem a gente ama.

Nestes tempos, nossa ferramenta também é a informação. Confiar na Ciência, na OMS, nos líderes que a gente tem a sensação de que têm valores humanistas e na mídia, que também tem feito um jornalismo emocionante de se ver.

Além disso, cuidar do emocional e do psicológico, porque se for só sofrimento, a gente sucumbe. Estou há 40 dias em casa, então tenho que aproveitar para frutificar o que é possível dentro da situação trágica. O que estamos vivendo na carne só tínhamos visto em filmes e livros - e eu sei que estou vivendo isso de maneira privilegiada, porque tenho estrutura.

A nossa tentativa é vislumbrar que existe um 'depois', para ajudar a enfrentar o estresse, a ansiedade, a angústia. Perceber que há um aumento de doações, de dinheiro, de cestas básicas no meio da pandemia, também é uma parte de luz que alegra nosso coração.

Eu tenho filho que acabou de nascer, então eu preciso acreditar que isso vai passar e que vamos melhorar.

Quais são seus projetos no trabalho para depois do isolamento?

Eu quero ver o lançamento de uma série belíssima que fizemos no ano passado que se chama "Onde está meu coração" [série original da Globoplay], que é sobre dependência química. Ela foi feita com muito afeto, dirigida sob a ótica de uma mulher, Luísa Lima, e escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, com texto muito coeso.

Faço a Amanda, uma personagem muito humana, brilhante, uma médica destemida e apaixonada pelos pacientes, assim como os intensivistas e os socorristas que temos visto nos noticiários. Eles falam arrasados sobre as perdas e as mortes e ela é assim. Diante dessa vulnerabilidade da vida, com que os médicos se confrontam, a Amanda se sensibiliza e um dos caminhos que vê para conseguir lidar com isso é o vício no crack. É muito atual e urgente falar disso, porque a gente precisa amadurecer nosso debate sobre políticas públicas de drogas. Não sei quando será lançada a série, mas é um trabalho que está para fazer.

E era para eu estar rodando agora um filme com a diretora Julia Rezende, com quem já fiz "Ponte Aérea", sobre relações, amor, relacionamento aberto, mas ele está suspenso. Enquanto isso, estar perto do meu filho, o máximo que for possível, porque a companhia dele é a melhor coisa da vida.

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