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Rainha de bateria, ela produz hidroxicloroquina e viu nº de pedidos saltar

Executiva, Renata Spallicci também é rainha de bateria e musa fitness  - Reprodução
Executiva, Renata Spallicci também é rainha de bateria e musa fitness Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

29/04/2020 04h00

Renata Spallicci se despediu do público no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, três dias antes do primeiro caso do novo coronavírus ser confirmado no Brasil, em 21 de fevereiro. Tirou o salto, comemorou como rainha de bateria na quadra da Barroca Zona Sul e foi para casa descansar. Não imaginava que o enredo mudaria drasticamente nas próximas semanas e que uma palavra formada por 17 letras cairia na boca do povo: hidroxicloroquina.

Além de rainha de bateria, Renata é produtora de conteúdo, musa fitness, atleta halterofilista, palestrante e executiva de uma grande farmacêutica do país, a Apsen. A empresa onde trabalha produz justamente um remédio a base de hidroxicloroquina para doenças crônicas e malária -produto que foi visto como com potencial de cura da Covid-19. A venda é feita para farmácias, hospitais e o Sistema Único de Saúde.

Depois que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez uma defesa apaixonada do medicamento a seus seguidores, não demorou para a hidroxicloroquina desaparecer das farmácias. A Anvisa reforçou que a venda é exclusiva a pacientes com receita médica e Renata precisou reforçar o uso dos trajes sociais de escritório.

Segundo ela, 100 mil pacientes crônicos mensais usam hidroxicloroquina produzida pela marca. Com a corrida pelo produto, os pedidos feitos à fábrica extrapolaram em um mês os números previstos para todo o ano. A Apsen tem feito turnos extras aos fins de semana para atender à nova demanda. "O aumento na procura beira ao infinito", diz Renata.

Renata Spallicci passou por todas as áreas da empresa da família antes de tornar-se diretora executiva da farmacêutica criada pelo avô - Eduardo Carvalho/Divulgação - Eduardo Carvalho/Divulgação
Renata Spallicci passou por todas as áreas da empresa da família antes de tornar-se diretora executiva da farmacêutica criada pelo avô
Imagem: Eduardo Carvalho/Divulgação

A mulher maravilha

Há 17 anos, Renata é a única diretora executiva entre cinco executivos da farmacêutica criada há 50 anos pela família Spallicci em Santo Amaro, zona sul da capital paulista. É neta do fundador. Alguns dos 1.500 funcionários da empresa já lhe deram um quadro em que a patroa era retratada como a Mulher Maravilha devido à musculatura avantajada.

Os dias da semana da executiva são divididos por membros superiores e inferiores. Para torneios de halterofilismo, já empurrou 400 quilos com a perna e mais de 100 quilos sobre as costas. Antes de competições de halterofilismo, é comum passar cerca de 24 horas sem ingerir líquidos, por exemplo.

A alimentação e até mesmo líquidos, como água, são calculados para evitar qualquer inchaço ou descontrole nas medidas. Veias saltam pelos braços rijos.

A busca por seu corpo ideal surgiu ainda na escola, quando era vítima de bullying devido à aparência. Como amostra de força, inspirou-se em fisiculturistas que via na televisão. Anos mais tarde, em 2018, Renata representou o Brasil em uma competição de beleza fisiculturista em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ficou entre as cinco primeiras colocadas em três categorias.

A executiva

Como diretora de assuntos corporativos, cuida de auditorias internas, planeja estratégias de marketing e orienta a contato da empresa com a sociedade. Hoje, estima atender a 95% dos brasileiros que fazem uso regular da hidroxicloroquina. O faturamento previsto para este ano deve crescer, mas ela não revela números. Em 2019, foi de R$ 848 milhões.

O administrativo entrou em esquema de home office. Quando pode, pois às vezes vai sozinha ao escritório, trabalha em casa com seu noivo, dois cachorros, um sagui e cinco gatos. Quatro dos felinos pertencem a uma ração que os torna gigantes. "Quem os vê pode achar que são um mini jaguar, mas eles têm um temperamento muito bom", brinca.

A disputa pela hidroxicloroquina

"A gente teve uma lição de casa enorme para estruturar um atendimento com o Ministério da Saúde e Anvisa. Aumentamos nosso estoque e atendimento, já que nosso SAC foi bombardeado por ligações. Nossa preocupação era com pacientes crônicos", conta.

O Ministério da Saúde e a Anvisa impediram a compra indiscriminada de hidroxicloroquina sem receituário nas farmácias. Só pacientes em estado grave de saúde e hospitalizados com Covid-19 podem ser submetidos à cloroquina ou hidroxicloroquina, além dos que já faziam uso regular do medicamento, sob acompanhamento médico.

As divergências sobre recomendações para o medicamento foram um dos elementos de desgaste da relação do então ministro Luis Henrique Mandetta com Bolsonaro. "Quero fazer um pedido à população: não usem esse medicamento fora do ambiente hospitalar. Esse medicamento tem muitos efeitos colaterais que podem prejudicar a saúde", explicou o então ministro no início de abril.

Estudos estão em andamento para avaliar a eficácia da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus, e o seu uso em pacientes graves e sob supervisão médica está liberado no tratamento de Covid-19.

A empresa doou amostras de hidroxicloroquina para testá-la em 200 pacientes em estado grave nos hospitais que fazem parte dos estudos em São Paulo. O Ministério da Saúde e o das Relações Exteriores negociam a importação de matéria-prima da Índia, que travou as entregas devido ao isolamento no país.

Uma concorrente, segundo ela, teria doado um estoque de matéria-prima que estava parado. "Em 17 anos, nunca vi uma boa ação desse tipo."

Histórico de atleta e sem medo

O histórico de atleta não impede Renata de ter o medo novo vírus. Para não perder o ritmo de treino, fez um abaixo-assinado para reabrir a academia do prédio onde trabalha, mas com restrições como manter distância, máximo de quatro usuários por vez e higienização de aparelhos.

"Eu estou constantemente me cuidando. Sabe que tenho visto muitos atletas, como eu, sem histórico de doença, que ficaram debilitados devido à doença", diz.

Se usaria o medicamento produzido pela empresa onde trabalha? "A decisão ficaria na mão, com certeza, dos meus médicos." A decisão que cabe a ela já está tomada: estará novamente na avenida em 2021.

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