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Idosa, asmática e hipertensa, ela teve Covid: "Fiz instrução pra pós-morte"

Cida com a neta Melissa, a filha Luciana e o genro Daniel - Arquivo Pessoal
Cida com a neta Melissa, a filha Luciana e o genro Daniel Imagem: Arquivo Pessoal

Luiza Souto

De Universa

28/04/2020 04h00

Maria Aparecida de Fátima Borges, a Cida, de 65 anos, é asmática e hipertensa. No início de março, precisou ficar internada durante 21 dias por complicações de uma infecção na perna, e acabou contraindo pneumonia. Foi levada à UTI, onde permaneceu por quatro dias. Mas nada disso a preocupou tanto quanto o teste positivo para coronavírus.

Três dias após a equipe médica do Hospital Santa Helena, em Santo André (SP), lhe dar alta, a aposentada sentiu a boca amarga, náuseas, fraqueza e um pouco de falta de ar, conforme detalha a Universa, mas acreditou ser efeito do período de internação.

Cida mora em São Caetano do Sul com a filha, a neta de 4 anos e o genro, e toda a família manteve os cuidados redobrados para não se contaminar com o vírus. Por isso, conta, não desconfiou que pudesse testar positivo. Até vir uma crise muito forte de falta de ar, no início de abril.

"A sensação era a de que havia um bloco de concreto sobre o meu peito que impedia meus pulmões de se encherem de ar. É uma situação desesperadora até para mim, que fui asmática a vida inteira", a paulistana descreve.

No pronto-socorro, realizou exame de tomografia e fez os testes necessários para constatar a doença. Com o resultado positivo, foram mais 15 dias de internação. Nesse período, seu irmão também adoeceu, mas está bem. O pior momento, conta ela, foi saber da possibilidade de ser intubada devido às consequências, inclusive a possibilidade de um AVC.

"Em vários momentos não achei que fosse sair viva do hospital. Deixei instruções para minha filha sobre como proceder após a minha morte em relação às minhas finanças e objetos pessoais. Não me despedia oficialmente, mas cada vez que era permitido que ela me visitasse no hospital, eu considerava como a última", relembra.

Mandava recados para meu genro e minha neta. Senti verdadeiramente a morte de perto

A esperança de uma cura, ela relata, chegou quando conseguiu permanecer dois dias seguidos sem o suporte externo de oxigênio. E, ao receber alta, no dia 19 de abril, foi como um renascimento, nas suas palavras.

"Da morte não tenho medo. Penso ser uma etapa natural da vida. Porém, todos os meus valores foram revistos. Hoje, o que importa é estar com a minha família, com as pessoas que eu amo e não deixar nada para depois, pois, de um minuto para outro, podemos não estar mais aqui", diz.

A equipe médica celebrou a alta de Cida (à direita, de preto):

Curada, ela diz entender a extrema necessidade de isolamento social, mas faz uma ressalva: "Também entendo o desespero de quem precisa voltar a trabalhar, pois os brasileiros não estão preparados para ficar um período tão longo sem rendimentos. Entendo o desespero dos empresários, dos empregados, dos autônomos. Não consigo julgar quem defende uma ou outra medida, pois ambos estão desesperados dentro de suas próprias razões".

Aposentada, Maria administra um negócio da família e já voltou a trabalhar — de casa, claro. Mas ainda sente limitações respiratórias. Ela conta que ficou com fibrose pulmonar e precisa fazer acompanhamento com pneumologista e fisioterapeutas.

"Aos poucos a vida está voltando ao normal, mas nunca mais será como antes."

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