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Mães e filhos

Puerpério na pandemia: mães relatam rede de apoio reduzida e solidão

Giselle recebeu a visita dos pais só uma vez - Arquivo pessoal
Giselle recebeu a visita dos pais só uma vez Imagem: Arquivo pessoal

Manuela Aquino

Colaboração para Universa

24/04/2020 04h00Atualizada em 24/04/2020 11h15

O período pós-parto traz turbilhão de emoções e transformações por muito motivos. Nessa fase, chamada de puerpério, mulheres tem uma queda dos hormônios estrógeno e progesterona e uma alta na prolactina, hormônio da amamentação. O combo traz mudanças físicas e psicológicas.

"Na parte emocional, pode ocorrer desde um cansaço a uma sensação de angústia e tristeza, o que podemos chamar de 'baby blues' e, em casos mais graves, até de depressão pós-parto" diz Jacqueline Mazzaro, psicóloga e terapeuta de família, da clínica Flora Mater, de Araruama (RJ) e que participa de um programa de orientação para gestantes na instituição Graaal (Grupo Acolhedor Aniceto André Luiz).

Diante das transformações que a maternidade traz, é muito comum, nessa fase, mulheres receberem ajuda presencial. A chamada rede de apoio conta, geralmente, com mães, sogras, madrinha ou ajudas pagas como babás e técnicas de enfermagem, por exemplo. Mas em tempos de pandemia e distanciamento social essas ajudas foram reduzidas.

Como lidar com todo esse combo de situações inesperadas num momento tão delicado? Conversamos com mães que estão se virando e mudando os planos que tinham para as primeiras semanas pós-nascimento de seus bebê.

Como mães com recém-nascido enfrentam a mudança de rotina do isolamento

Mudança no esquema
Caio tem menos de dois meses de vida, nasceu um pouco antes da quarentena. Ele é filho da Dea Aguiar, 33 anos, estudante de gestão hospitalar, de Curitiba, e irmão de Maria Luiza, de 9 anos, e Sofia, de 6. Até seu nascimento e pouco depois disso, seus pais tinham um esquema montado: durante a semana, o Lucas levaria as filhas para a escola e Dea ficaria uma parte do dia sozinha com o recém-nascido.

dea aguiar - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Dea não está podendo contar com a ajuda dos pais, que são do grupo de risco da COVID-19
Imagem: Arquivo pessoal

O avô materno buscaria na escola e haveria a casa dos avós para suporte. Mas isso durou somente uma semana, já que a quarentena foi decretada. "Eu estava começando a ver como seria minha vida com três filhos e tudo mudou de uma hora para a outra. Meu pai é idoso e minha mãe é grupo de risco. Eles moram perto e poderiam me ajudar a qualquer momento, sem eles está sendo muito difícil", fala. O marido da Dea, que é ilustrador e professor, está dividindo as tarefas da casa e cuidado com os filhos mas quando ele precisa trabalhar online, dar aula ou fazer reunião, ela tem que ficar de olho nos três. "Eu me sinto culpada às vezes de não poder dar mais atenção para o Caio", diz Dea, que também relata estar se sentindo exausta e com sinais de depressão, tanto que está sendo monitorada via internet por sua terapeuta para que o caso não avance. "Eu tive uma gravidez de risco por conta do meu IMC, não tive parto normal como desejava e sofri violência obstétrica, então o antes já não foi um período fácil. Precisava de um cenário mais calmo para colocar minha cabeça no lugar", conta.

Estar atenta aos sinais nesta fase é ainda mais necessário pois o momento atual traz ingredientes extras, como o isolamento e a angústia sobre o futuro. As mulheres que acabaram de parir ou estão com filhos pequenos, devem ficar atentas à sua saúde mental e procurar ajuda, mesmo que, no momento, virtual. " É importante notar quando não nos sentimos bem, uma insônia frequente, uma tristeza profunda, insatisfação com o rumo que a sua vida está tomando. É preciso permitir-se conhecer as causas emocionais relacionadas às nossas dores e doenças isso vai nos possibilitar melhorar a nossa saúde, e a nossa forma de enxergar a vida", fala Jacqueline. Para a psicóloga, a terapia online funciona e é é uma facilitadora inclusive neste momento e há casos mais complexos podem necessitar de um tratamento presencial.

Sem atenção esperada
Quando percebeu, no dia 28 de março, que estava perdendo líquido,a coordenadora pedagógica Vanessa Ferreira de Oliveira Mota, 33 anos, de Campinas (SP), se dirigiu ao hospital em que iria parir seu filho João Baruc. A ideia inicial era fazer parto normal, mas pela dilatação ela teria pelos menos mais 12 horas ali. Decidiu fazer a cesária por conta do tempo que ficaria exposta no hospital. Segundo ela, o protocolo da maternidade, que é pública, seria ir e voltar de casa para conferir como estava o andamento. "Acabei me conformando em ter que fazer cesária. E recebi alta antecipada por conta da equipe que estava menor. No quarto, onde geralmente as enfermeiras mostram como dar banho, trocar e dão orientações sobre amamentação tudo foi de maneira bem afobada", conta.

Vanessa e João - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanessa recebeu alta antecipada da maternidade, a equipe estava reduzida por conta do coronavírus
Imagem: Arquivo pessoal

Em casa, ela e o marido, Clayton, que continua trabalhando pois é autônomo e "se não trabalhar não ganha", estão fazendo a divisão de turnos para ficar com o bebê e cuidar da casa. Prevenida, durante suas férias de janeiro e no Carnaval, ela fez uma maratona e fez comida congelada suficiente para dois meses, o que tem salvado esta questão. Vanessa não contava com ajuda dos pais, mas tinha planejado dividir este momento com suas amigas que foram mães na mesma época, principalmente uma de suas mais próximas, que a havia convidado para passar uns dias em sua casa e dividir este momento mais solitário. "Como ela mora na cidade vizinha com a mãe e até então está com está com acompanhamento da mãe e meu marido tem contato com pessoas da rua, achei melhor ficar por aqui não recebê-la", fala. Única visita que Vanessa planeja para os próximos dias é de uma consultora de amamentação, já que seu filho mama muitas vezes ao dia mas está perdendo peso. "Ela foi indicada pela pediatra e preciso desta ajuda, é pela saúde do meu filho, preciso saber se é a pegada ou se estou com pouco leite, não tem jeito", diz.

Avó por perto só depois de 15 dias
Ficar sem a visita da mãe nem passou pela cabeça da pesquisadora da Universidade de Yale, Camila Gripp, de 37 anos, mora em Nova York desde 2009 quando se mudou para fazer um mestrado. O isolamento começou quando ela estava com 38 semanas de gestação e sua mãe estava com a viagem planejada de Belo Horizonte para a casa da filha e só conseguiu chegar depois de alguns voos cancelados. "Ela ficou quinze dias sem ver a gente, em isolamento. Não pode me acompanhar no hospital pois só estava permitido uma pessoa junto e agora ela fica comigo mas não pode sair de casa", conta Camila.

O marido de Camila, Jason, é advogado e voltou ao escritório três dias depois do nascimento de Isadora, hoje com pouco mais de vinte dias. Segundo Camila, nesta época de incerteza, a escolha do casal foi em continuar o trabalho para não ter surpresas financeiras. "Esse isolamento é enlouquecedor. Não poder sair para dar uma volta, para que ela durma no carrinho em movimento, tomar um ar fresco. Está muito difícil não ter contato físico com as pessoas que a gente ama. A família daqui, muito próxima, ainda não conheceu minha filha", fala.

Tensão pelo marido sair para trabalhar
Ter um bebê prematuro com a Covid-19 rondando é algo que nenhuma mãe gostaria de pensar mas foi o que aconteceu com a arquiteta mineira Giselle Madeira, 37 anos. A data prevista para o nascimento de sua filha Charlotte a era para 28 de abril, mas ela nasceu na madrugada de 12 para 13 de março, exatamente quando as notícias sobre uma possível quarentena começaram a pipocar. Ela precisou ficar internada na UTI, pois o hospital não libera antes das 35 semanas e ela nasceu com 33. Como era um bebê muito frágil precisava ficar em observação até ganhar peso. "Eu fiquei dois dias no hospital e voltei para casa. Achei melhor. Fiquei tranquila com a estada dela lá, mais do que em casa. Se acontecesse algo, estaria com acompanhamento", fala.

Charlotte e  a mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Giselle se preocupa que o marido, que segue trabalhando normalmente, possa se infectar
Imagem: Arquivo pessoal

Em casa, com a filha prematura, ela conta com ajuda de uma empregada doméstica que vai todos os dias e segue as precauções, como trocar de roupa quando chega. "A gente resolveu continuar com essa ajuda. O que me preocupa é que meu marido está saindo para trabalhar. Isso me dá muito medo, de ele pegar e eu pegar sendo que somos os dois que tomamos conta dela", conta Giselle, que recebeu a visita dos pais apenas uma vez, logo após o nascimento da filha: "Sinto muita solidão, parece que os dias são eternos."

As conexões via FaceTime e WhastApp são diárias com parentes e amigos e, por enquanto, esta será a realidade de muitas famílias, com ou sem criança recém-nascida. "O apoio, o carinho dos amigos e familiares, para amenizar a ausência e a saudade, terão que ser feitos online, não tem outra maneira no momento. Por mais angustiante que seja, o que importa agora é a vida e não o lamento. E não deixar de registrar os momentos do desenvolvimento do bebê, pois será nos pequenos detalhes que a mãe vai encontrar momentos de alegria", diz a psicóloga Jacqueline.

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