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Bruxas adiam convenção e descartam magia contra Covid-19: "Fiquem em casa"

A vila de Paranapiacaba é palco da tradicional Convenção das Bruxas e Magos; pela primeira vez desde 2003, evento é adiado - Marcelo Brammer/Brazil Photo Press/Folhapress
A vila de Paranapiacaba é palco da tradicional Convenção das Bruxas e Magos; pela primeira vez desde 2003, evento é adiado Imagem: Marcelo Brammer/Brazil Photo Press/Folhapress

Marcos Candido

De Universa

23/04/2020 04h00Atualizada em 23/04/2020 18h21

Em 1993, Tânia Gori, 50, deixou o trabalho como contadora para abrir uma loja onde vendia gnomos de jardim em Santo André, na Grande São Paulo. O negócio até que ia bem, mas os astros sinalizaram que a energia emanada por Tânia era incompatível com o que chamou de "emprego normal". Na época, ela já sabia: era uma bruxa.

Foi então que, enquanto bruxa, decidiu que teria pupilos e os ensinaria sobre a energia dos cristais, a composição de poções e a interpretação das forças da Mãe Natureza. Assim inaugurou a Universidade Escola de Bruxa, no dia 31 de outubro de 1996, um espaço para ensinar sobre astrologia e ferramentas esotéricas. Deu certo.

Em 2003, Tânia, alunos e funcionários decidiram celebrar um encontro de bruxas. O local escolhido foi Paranapiacaba, uma antiga vila com arquitetura e trens ingleses abandonados do século 19, em Santo André, onde a Serra do Mar impõe uma neblina que, para alguns, pode ser macabra. Nem leitura dos astros, do tarô e dos banhos de ervas celebrados no evento, porém, foram páreos para o poder microscópico e biológico do novo coronavírus.

Tânia Gori: uma vela ou abóbora vão bem - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Tânia Gori, fundadora de evento que reúne "seres místicos", recomenda ficar em casa; rituais são transmitidos na internet
Imagem: Arquivo Pessoal

Pela primeira vez, neste ano a Convenção de Bruxas e Magos em Paranapiacaba foi adiada. O evento tradicional de maio é conhecido pelas apresentações, palestras e debates com bruxas, esotéricos de toda a sorte e ufólogos. Há grupos mais peculiares como os vampiros, xamanistas, adeptos de tradições celtas e quem se veste e se denomina como um elfo de verdade. As caravanas que iam até Paranapiacaba foram canceladas.

No ano passado, 18 mil pessoas foram ao evento. Em 2020, havia a expectativa de um crescimento de 20% no número de novos inscritos, mas aí veio a pandemia. A nova data está marcada para acontecer entre 31 de outubro e 2 de novembro. Até lá, Tânia indica seguir os desígnios de uma força nada sobrenatural: a OMS (Organização Mundial da Saúde).

"Fiquem em casa. É o que estou falando [a meus alunos]: fiquem em casa, para se resguardar e reforçar o sistema imunológico contra o vírus. Lave as mãos, tome sol na varanda para ter vitamina D, e coma laranja para ter vitamina C", diz. Os rituais e cursos foram concentrados na transmissões online, onde atende os mais de 800 alunos matriculados na escola.

Na plataforma da bruxa há desde formações curtas, com 3 horas de duração, como "A magia dos gatos" (R$ 44), a um curso de 128 horas sobre bruxaria natural (R$ 2.645). No total, são 150 cursos disponíveis em formato EAD. Agora rituais também são transmitidos online.

Quem é a bruxa

Tânia tem uma voz aguda e pausada, o que a deixa parecida com uma professora de algum colégio secular. Os conselhos da bruxa mesclam as aventuras narradas pelo escritor britânico J.R.R Tolkien, povoadas por elementos místicos como fadas e elfos, às conversas cada vez mais comuns no dia a dia sobre signos. O evento criado por Tânia, não à toa, carrega a mesma mistura e tem uma explicação sincrética para ocorrer em maio e em Paranapiacaba.

Segundo ela, maio é o mês das noivas e das mães. É um mês de acolhimento, carinho e amor de acordo com o budismo. Já Paranapiacaba carrega as forças dos séculos passados.

Acontece, porém, que 2020 é um ano regido pelo Sol, de acordo com a astrologia, o que complica as coisas. "A gente teve a surpresa de ser regido pelo Sol neste ano. Ao mesmo tempo que aquece, o sol pode ser intenso demais e trazer coisas boas e ruins para gente", diz.

Evento reuniu 18 mil pessoas no ano passado. Distrito de Paranapiacaba foi escolhido por abrigar "energia dos antepassados" - Reprodução - Reprodução
Evento reuniu 18 mil pessoas no ano passado. Distrito de Paranapiacaba foi escolhido por abrigar "energia dos antepassados"
Imagem: Reprodução

A bruxaria, diz, é uma ferramenta para explicar a influência da natureza e extrair elementos naturais para melhorar nossa vida. Por exemplo, uma bruxa cria poções de verdade para "purificar" e buscar paz interior, o que na prática nada mais é do que chás de ervas. Os minérios também costumam absorver e transmitir energia da Terra a quem os carrega, indica.

Os rituais são alinhados com as fases da Lua, com posicionamento dos astros que flutuam na galáxia, com a bênção dos quatro elementos da natureza ou tudo isso junto. "É uma filosofia de vida para encarar situações com uma visão diferente das pessoas que não entendem as energias. Eu não tenho poder de voar de vassoura ou transformar alguém em sapo", frisa.

Dicas da bruxa

Se por um lado a reclusão em casa, o risco de contaminação e o adiamento de grandes planos causam ansiedade, Tânia oferece algumas magias para manter-se sã durante a pandemia.

A primeira é evitar o medo ("que enfraquece o sistema imunológico"), avaliar os benefícios ao meio ambiente ("A Terra voltou a respirar, os rios estão mais limpos, nos mares aparecem tartarugas e o ar está menos poluído") e tomar banhos com sálvia e manjericão. "A pessoa que está com banho tomado não vai entrar em desespero", recomenda.

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