Homeschooling na quarentena: relatos de quem tem educado os filhos em casa

Juliana Tiraboschi
Colaboração para Universa
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Auxiliar os filhos a estudar em casa pode sobrecarregar ainda mais pais e mães em quarentena

A quarentena por conta da pandemia do coronavírus começou há pouco menos de um mês. Muitas famílias já estão adaptadas à nova rotina de equilibrar home office com tarefas domésticas e ainda ajudar as crianças nas atividades escolares, para aquelas que estudam em instituições que decidiram não entrar em férias mas passar exercícios e lições para os alunos resolverem em casa.

Homescholing é um termo usado para descrever a educação domiciliar, que é quando o conteúdo educacional é lecionado pelos pais ou outros responsáveis pela criança, sem que ela esteja matriculada em uma escola. A prática não é proibida explicitamente no Brasil, mas a Lei de Diretrizes e Bases Educacionais (LDB) estabelece como obrigação que os pais ou responsáveis efetuem a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 (quatro) anos de idade. Mas a expressão tem sido usada informalmente no contexto atual para falar dessa situação de educação a distância que estamos vivendo: pais e mães tendo que atuar como "professores" de seus filhos, com o intermédio e apoio das instituições de ensino.

Algumas instituições optaram por adiantar as férias neste mês de abril. Na rede pública de ensino as aulas estão suspensas em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Desses estados, 11 estão em período de recesso escolar. Diversas escolas particulares pelo país também anteciparam as férias do meio do ano. Mas outras instituições continuam funcionando, com o ensino à distância, que conta como horas letivas oficiais.

Para Claudio Oliveira, orientador educacional do Colégio Humboldt, em São Paulo, ninguém estava esperando passar por essa situação e as escolas ainda estão testando formatos de aulas online e atividades à distância. Por isso, é muito importante neste momento manter a comunicação aberta com a instituição de ensino. "Se a criança não está dando conta de fazer as atividades, isso tem que ser notificado à escola", diz.

Esse acompanhamento pode ser feito por e-mail, mensagens em aplicativos ou chamadas em vídeo, dependendo de como a escola se organizar. E, se essa assistência não estiver acontecendo, os pais podem e devem cobrar mais apoio da instituição de ensino. Ou seja, a escola não pode apenas enviar o material e deixar que as famílias se virem como puderem.

Uma dica de Claudio é aproveitar essa oportunidade para ver como os filhos se comportam em relação à rotina de ensino, se sabem se organizar ou têm dificuldade nesse aspecto. Se perceber que a criança não está fazendo todas as atividades, pergunte a ela o motivo. Avalie se ela está com algum problema de entendimento da matéria ou se há um excesso de tarefas.

E, para aqueles pais que estão arrancando os cabelos, achando que o ano está perdido, acalmem-se. "A escola tem responsabilidade sobre o ensino do aluno e deve encontrar estratégias para fazer esse processo dar certo", acredita. E, mais uma vez, se achar que a instituição não está cumprindo com essa responsabilidade, você tem o direito de cobrar por mais organização. Por outro lado, a cobrança de que a escola prepare aulas à distância não significa encher o aluno de atividades que ocupem o dia inteiro dele. Dá para ter um pouco de flexibilidade neste momento delicado que vivemos.

Varanda virou sala de aula

A publicitária Ana Flora Singer, 37 anos, que já está com a família em quarentena há quase um mês, encontrou uma maneira lúdica de entreter o filho Theo, de 5 anos e meio, sem interromper totalmente as atividades pedagógicas do garoto. Ela transformou a varanda do apartamento onde a família mora, em Barueri (São Paulo), na "coronaschool", uma espécie de escolinha improvisada onde ela faz brincadeiras educativas com o filho.

Ana Flora Singer Jacobucci
A publicitária Ana Flora Singer Jacobucci montou uma sala de aula para o filho Theo, cinco anos, na varanda de casa

Ana Flora conta que investiu R$ 150 em materiais de papelaria, como tintas, pinceis, giz etc, e adapta as atividades que vêm da escola para transformá-las em brincadeiras. "Não sou pedagoga, então achei que seria estressante tentar manter a rotina da escola sem conhecer a metodologia de ensino", diz. "O meu jeito de ensinar pode ser diferente do das professoras, e tenho a preocupação de não confundir a cabeça dele".

A publicitária, que também é mãe de uma bebê de quatro meses, disse que montou uma "operação de guerra" para a quarentena. Guardou os enfeites da casa que juntam pó e separou roupas práticas e de secagem rápida para diminuir o trabalho com a lavagem. E também dividiu as tarefas com o marido, que está trabalhando em casa. Ele cozinha o almoço todos os dias, enquanto ela arruma a casa. Aos sábados, ambos se revezam na faxina mais pesada. Assim, sobra algum tempo para as atividades com Theo.

Theo ainda está na pré-escola, ou seja, o nível de exigência pedagógica nessa fase é mais leve. Mas algumas escolas vêm mandando um volume intenso de atividades mesmo para essa faixa etária.

Pressão da comparação e excesso de atividades

A perita judicial Rita de Cassia Delgado Rosendo Mendonça, 36 anos, de São Bernardo do Campo (SP), se define como uma "mãe surtada". A escola de sua filha Lívia, 5 anos, que também está na pré-escola, tem enviado um volume tão grande de atividades que um dia ela abriu sua caixa de e-mails e viu que havia mais mensagens para a criança do que para ela própria.

Outra dificuldade é que as aulas em casa têm exigido toda uma estrutura com um bom computador, impressora e scanner. "Nem todo mundo tem esse equipamento à disposição", diz. Além disso, as aulas online da filha não são sempre no mesmo horário, o que dificulta a organização. Sem contar que nem sempre esse sistema a distância funciona para crianças. "Metade da aula foi aquela bagunça", diz Rita. E os pequenos ainda não conseguem controlar os comandos de microfone e câmera do computador, o que requer que um dos pais fique junto o tempo todo.

A filha mais nova de Rita, Letícia, de dois anos, que estuda em outra escola, também recebeu, no início da quarentena, diversas atividades para fazer em casa, como massinha caseira, roda de música e histórias. "Todas as atividades devem ser monitoradas por um adulto. Estou trabalhando em casa mas, com as crianças e as atividades do dia a dia, é impossível manter horários normais para trabalhar", diz. A perita diz que dependia 100% da escola para conseguir realizar suas atividades, e que a família está com dificuldades de reorganizar toda a rotina. Seu marido é policial militar e, por isso, não é todo dia em que está em casa, por conta dos plantões.

Para Rita, outra coisa que atrapalha é a comparação com outras famílias. "Nos grupos de WhatsApp eu vejo que às vezes os outros já estão em plena atividade de manhã, enquanto as minhas filhas estão dormindo e eu ainda não as acordei para conseguir fazer minhas coisas", diz.

Quanto mais velhas as crianças, mais complexas as lições

Com as crianças maiores, há vantagens e desvantagens. A principal desvantagem é que as disciplinas e atividades ficam mais complexas. A maior vantagem é que, quanto mais velhos, mais autônomos os alunos são. Ou, pelo menos, deveriam ser.

É o caso de Isabelle, de 9 anos (quinto ano), de São Paulo, que tem feito suas atividades sozinha. Sua mãe, a psicóloga Larissa Toledo, 37 anos, diz que a menina teve alguns percalços, no início, para aprender a lidar com o aplicativo da escola por meio do qual as tarefas são enviadas. Larissa conta que ela mesma teve um pouco de dificuldades para entender a nova tecnologia. "Mas agora minha filha já sabe quando chegam as tarefas e o que tem que fazer. Às vezes ela tem alguma dúvida e vem me perguntar, mas depois segue fazendo sozinha", diz. Na semana que vem a estudante vai começar a ter aulas online ao vivo, com horários determinados.

Acervo Pessoal
Além de aulas teóricas, o fisioterapeuta Claudio Martins tem dado aulas de judô para os filhos Lara, de 8 anos, e Henrique, 5,

O fisioterapeuta Claudio Martins, 42 anos, de São Paulo, também conseguiu estabelecer uma rotina relativamente tranquila com os filhos Lara, 8, do quarto ano, e Henrique, 5, que está no último ano do ensino infantil. Ele conta que a primeira semana de quarentena, a do dia 16 de março, foi um tanto conturbada. "Foi tudo muito repentino". Mas, a partir da segunda semana, a família conseguiu se adaptar.

Como Claudio teve de fechar sua clínica de fisioterapia, ele se tornou o responsável principal pela organização do cronograma semanal de estudos dos filhos, que é enviado pelo aplicativo que a instituição já usava antes da quarentena e por meio de vídeos publicados no YouTube.

O fisioterapeuta divide seu tempo para acompanhar as atividades das duas crianças. Depois do café da manhã cada uma vai para a sua mesa de estudos. Aliás, essa é uma das dicas dos especialistas consultados nessa reportagem - designar um lugar fixo e sossegado para o momento das tarefas. Enquanto Henrique, o mais novo, assiste a vídeos educativos enviados pela escola, Claudio acompanha a mais velha, Lara, nas suas lições.

Claudio tem conduzido a rotina com flexibilidade e dá as suas dicas. "Eu mapeio as atividades e, às vezes, mudo a ordem das disciplinas", diz. Por exemplo, ele costuma começar o dia com as tarefas mais difíceis, enquanto a garota ainda não está cansada de estudar. Mas, se Lara está mais sonolenta, aí ele passa uma lição de uma disciplina com a qual ela tem mais facilidade. Assim ela "acorda" e fica mais animada para o restante do dia.

Outro conselho do fisioterapeuta é aproveitar os assuntos que mais despertam o interesse das crianças para expandir esse conhecimento para além da escola, até para preencher mais os dias de quarentena. Lara teve aulas sobre Santos Dumont e sobre a coleção de histórias "As Mil e uma Noites", e o pai trouxe outras conversas e conteúdos relacionados a esses temas, como filmes.

Mas tem dias em que as crianças não estão tão concentradas, muito menos os adultos. "Afinal, estou com a clínica fechada, preocupado com a situação", diz Claudio. Nesses dias, a pedida é fazer mais pausas, brincar com os cachorros, jogar as lições para mais tarde ou para o dia seguinte ou fazer alguma atividade física, como futebol no corredor ou aula de judô no quarto. "Prefiro deixar para outro momento e fazermos bem-feito. É melhor do que fazer de qualquer jeito e eles não aprenderem o conteúdo direito", afirma.

Homescholing não funciona para todo mundo

Mas nem sempre a coisa flui tão tranquilamente como nas casas de Claudio e Larissa. Assim como Rita, a vendedora Denise *, de São Paulo, também está se sentindo sobrecarregada com as tarefas de Giulia, de 9 anos (quarto ano). Ela conta que a filha já tem dificuldades em manter uma rotina de estudos em casa normalmente, com as lições de casa. Agora, com o ensino à distância e uma rotina de aulas online das 8h às 15h30, a situação está mais complicada. "Esse horário é puxado, as crianças não aguentam ficar na frente do computador por tanto tempo. Vejo que a professora tem que ficar chamando a atenção delas", diz.

Segundo Denise, Giulia resiste em assistir às aulas online e fazer as lições. "É uma briga todos os dias", diz. Ela conta que tirou a TV e o tablet para ajudar a filha a se concentrar nas aulas virtuais. "Mas as lições estão todas atrasadas, por mais que a gente deixe organizado para ela", diz Denise, que tem outra filha, de um ano de idade. "A gente vê que ela sabe a matéria, mas inventa mil desculpas para não fazer as atividades", afirma.

De fato, o esquema não funciona para todo mundo. A advogada Ana Paula Mackevicius, 40 anos, é contra a educação a distância para crianças. Ela mesma já passou pela experiência de fazer um curso de pós-graduação a distância e teve um aproveitamento "quase zero". "Acho que requer muita disciplina e uma responsabilidade que as crianças não têm. Então nós, pais e mães, acabamos tenho que organizar isso", diz. Mãe de Victor, 10 (quinto ano), e Caio, 8 (terceiro ano), Ana Paula acredita que, nas aulas online, os alunos ficam mais dispersos e os professores não conseguem ter um controle de quem está prestando atenção da mesma maneira que na sala de aula. "Acredito que essa educação vai ficar falha", diz.

Para a advogada, que mora em Santos (SP), a dificuldade é maior em disciplinas cujas técnicas de ensino mudaram ao longo do tempo, como a matemática. "Meus filhos aprendem essa matéria de uma maneira diferente da que eu aprendi. Virão matérias novas e vou ter que fazer aula junto para ver como a professora está ensinando, para ensinar da mesma maneira", diz. Ana Paula ressalta que não é contra o ensino à distância porque vai acabar sobrando para ela ter que estudar com os filhos. "É que acho que eles não vão absorver o conteúdo pela tela do computador durante três ou quatro horas por dia". Além disso, a advogada acredita que o aspecto social da escola é fundamental. "Escola também é relação com os amigos, resolução de conflitos e desenvolvimento de segurança emocional. É muito mais do que o que se aprende nos livros", diz. Ela pretende conversar com a direção sobre como a escola vai prosseguir e, dependendo do resultado, cogita trancar a matrícula dos filhos.

A roteirista Deborah Brandt, 40 anos, também acredita que a prioridade neste momento de quarentena é outra, e optou por simplesmente não executar as atividades propostas pela escola. Moradora de Cotia (SP) e mãe de Jacob, 9 (quinto ano), ela conta que, quando o período de isolamento começou, sentiu um choque de realidade. "Não dá para levar essa situação numa boa. É surreal agir como se estivesse tudo bem", diz. Por isso, decidiu decretar "férias" por conta própria para o filho.

Déborah também diz que se incomodou com as conversas que presenciou no grupo da escola, de outras mães que acham que os professores não estão trabalhando o suficiente. "Como filha de professores, sei que eles devem estar investindo muito mais tempo para preparar as aulas e ainda têm que lidar com novas tecnologias", diz.

Para a roteirista, a escola deveria aproveitar esse momento para propor atividades que explorassem conceitos ligados à pandemia. "Acho que temos que respeitar esse momento e reavaliar a sociedade como um todo", afirma. E ela também questiona a EAD como forma de ensino em uma sociedade desigual como a nossa. "Moro em uma casa espaçosa, meu filho está bem alimentado. Imagina as crianças que não têm isso?", diz.

Opção de homescholing não é nacional

Em São Paulo, a Secretaria da Educação antecipou recessos que aconteceriam em abril e outubro e as férias de julho e deu férias aos 3,5 milhões de alunos da rede pública de ensino até o dia 20 de abril.

De acordo com Rossieli Soares, secretário da Educação em SP, a situação da pandemia está sendo avaliada semana a semana e, se a quarentena decretada pelo governo se mantiver a partir de 20 de abril, as aulas serão ministradas de forma online por meio do aplicativo de celular "CMSP". O app funciona em parceria com operadoras de telefonia, para que alunos mais vulneráveis não tenham que arcar com custo de internet. O governo também lançou um novo canal na televisão aberta, em parceria com a TV Cultura, o Canal 2.3 - TV Cultura Educação, que vai transmitir as aulas.

Outros estados, como Paraná, Santa Catarina e Pernambuco também anunciaram que oferecerão aulas pela internet, por aplicativos e por canais de TV.

Em São Paulo, as aulas online já estão disponíveis desde a última segunda-feira (6), tanto pelo aplicativo quanto na TV aberta, para aqueles alunos que desejarem fazer um reforço no ensino antes que o calendário letivo seja reiniciado oficialmente.

Em entrevista ao Universa, o secretário Rossieli Soares afirmou que, além dos recursos digitais, todos os alunos da rede pública do estado receberão também um material impresso. Soares revelou, com exclusividade, que neste material será incluso um caderno com orientações para as famílias de como ajudar os filhos a organizarem os estudos em casa. "Nada substitui o professor em sala de aula, mas estamos nos preparando para todos os cenários", diz.

Segundo as escolas particulares consultadas pela reportagem, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional prevê o ensino à distância como complemento ou em caso de situação emergencial, os alunos são obrigados a cumprir o conteúdo proposto pela escola.