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Medo, fome e angústia: a viagem de uma brasileira a Portugal na pandemia

Passageira brasileira que conseguiu voltar de Portugal - Arquivo Pessoal
Passageira brasileira que conseguiu voltar de Portugal Imagem: Arquivo Pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

12/04/2020 04h00Atualizada em 12/04/2020 16h57

A vendedora autônoma Silvia Carvalho, 55, decidiu passar 22 dias em Portugal. A viagem, marcada para o dia 4 de março, deveria ser um momento especial para ela. Ao chegar lá sozinha, encontrou um país à beira da crise sanitária provocada pela pandemia do coronavírus que hoje atinge todo o mundo.

Para piorar, ela conta ter sido vítima de um golpe que lhe tirou todo o dinheiro reservado para a hospedagem durante o período. Daí em diante foi um enredo marcado por angústia, medo, fome e ajuda de estranhos até conseguir retornar para São Paulo, no dia 27 de março, depois que uma vendedora em Lisboa lhe doou a passagem de volta.

De Vargem Grande (SP), onde mora e está em quarentena, ela fez um relato da sua viagem e conta que passa os dias rezando para que a filha, que está na Espanha, também consiga voltar. Leia a seguir o relato dela:

*

Dia 4 de março embarquei para Portugal pensando que ia ser uma maravilha. Eu fui e ia ficar lá até 27 de maio. Cheguei, entrei com o pedido para a minha cidadania portuguesa e vi que ia demorar dois anos para sair. Além disso, eu só receberia o cartão Cidadão, que daria acesso a alguns benefícios como cidadã, no dia 17 de julho.

Além disso, cai em um golpe e perdi 1.000 euros. Paguei a hospedagem de um quarto e a pessoa desapareceu, levando quase todo o meu dinheiro. Tive que achar outro lugar para dormir e eu não sabia como ficar mais lá.

Brasileira em aerporto de Lisboa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Em uma semana começou a estourar a "bomba". Aí eu pedi ao site em que eu tinha comprado a passagem para que antecipasse a minha volta para o Brasil. Perguntei se eles poderiam me ajudar, porque meu voo era por uma companhia área espanhola. Não recebi nenhuma resposta.

No dia 19 de março, comecei a luta com o consulado brasileiro na cidade do Porto, pedindo para que eles me ajudassem a voltar. Contei toda minha história.

Depois de uma semana, minha reserva acabou. Não tinha mais dinheiro para pagar a nova hospedagem e tive que deixar a casa onde estava. Passei muito sofrimento, tive medo, angústia. Achei até que não ia sair viva dessa viagem. Mas consegui escapar!

Decidi tentar pegar um trem, sem pagar, da cidade do Porto, onde estava, até Lisboa. Consegui! Entrei no meio de todo mundo sem bilhete. Resolvi que iria até o aeroporto de Lisboa e pediria asilo. Passei uma noite inteirinha lá, e aí veio um cidadão que falou que era da embaixada brasileira e me levou para um hostel. Já tinha ficado sem 1.000 euros, estava passando fome e tudo. Eu não tinha mais dinheiro.

Eu consegui fazer muita propaganda de passagem para dona Marli, uma vendedora que está ajudando brasileiros a retornarem de Portugal. Foi assim que eu consegui a minha passagem de volta para o Brasil. A única pessoa que me ajudou muito durante todo esse período foi a Marli.

Minha mãe tem problema no coração, que está com uma válvula entupida, e tinha de ser operada. Infelizmente, os médicos suspenderam essa cirurgia por causa do coronavírus.

Hoje eu estou na minha casa, em Vargem Grande, com trauma de tudo que passei: não consigo comer, não consigo dormir. Estou me sentindo terrível.

Agora tudo o que faço é orar, porque a minha filha [que joga em um time de futebol no Brasil] está presa na Espanha. Não tem voo para ela vir embora. Isso agora é a pior coisa: você aqui no Brasil, chorando pela filha que está na Espanha.

Tem muita gente jogada por aí, na Espanha, na Irlanda. Ninguém está nem aí com o ser humano.

Nos meus sete últimos dias em Portugal, o consulado brasileiro não me ajudou. Se não fosse a ajuda de uma desconhecida, eu ainda estaria passando fome em Portugal.

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