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"Ativismo digital negro está agindo contra covid", diz mentora de youtubers

A empresária Egnalda Côrtes - Fábio Audi/Divulgação
A empresária Egnalda Côrtes Imagem: Fábio Audi/Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

11/04/2020 04h00

Com o avanço do novo coronavírus pelo Brasil, também é grande a preocupação com a saúde e a renda das pessoas que vivem em áreas carentes e populosas, como as favelas. Na tentativa de levar apoio e ajuda a essas comunidades, que até agora não foram contempladas com um plano público nacional específico de combate à covid-19, muitos voluntários dentro e fora delas têm se mobilizado como podem para levar desde informações a doações de tudo o que já falta. Parte desse grupo é formado por influenciadores digitais negros.

"Quase a totalidade dessas áreas e mais da metade da população brasileira é negra. Por isso, o ativismo digital negro, que serve não só para entretenimento, como é trabalho e compromisso, também é essencial para garantir discussões, renda financeira e ajuda a quem precisa, principalmente nesse momento", afirma Egnalda Côrtes, de 46 anos, fundadora da Côrtes Assessoria e Agenciamento e mentora desses influencers negros.

Mentora de influenciadores digitais

PH com a mãe, Egnalda: ele que ajudou a empresária a perceber a tendência - Valter Rege/Divulgação
PH com a mãe, Egnalda: ele que ajudou a empresária a perceber a tendência
Imagem: Valter Rege/Divulgação

Egnalda é, segundo a consultoria YouPix e a ONG Think Olga, que luta pelo protagonismo feminino por meio da comunicação, uma das mulheres mais influentes do mercado digital. Não à toa, em 2018 ela foi convidada para a curadoria do maior evento publicitário da América Latina, o Social Media Week, que acontece anualmente.

O reconhecimento atribuído a ela é consequência do seu engajamento pela visibilidade da carreira de jovens influenciadores negros, que aos poucos têm conquistado representatividade e espaço nos meios digitais, além de atenção de agências de treinamento digital, marcas e patrocinadores.

"Eu decidi que levaria os negros para dentro do YouTube. Isso não é uma tendência, é sobre a minha vida, a minha existência e a dos meus semelhantes. O que essa galera com quem estou envolvida faz honra os nossos antepassados e pode mudar a realidade da sociedade", afirma.

Filho ajudou a perceber tendência

A aproximação de Egnalda com o universo online ocorreu de forma inesperada em 2016, após seu filho, Paulo Henrique, na época com 14 anos, sofrer um acidente de bicicleta e precisar dela nas sessões de fisioterapia. Para auxiliar na recuperação de PH, Egnalda largou o emprego na área corporativa. Ao passar mais tempo em casa, percebeu que o interesse dele pelo YouTube havia aumentado.

O que era distração logo evoluiu para a abertura de um canal, o PhCôrtes, que hoje tem quase 30 mil inscritos e já explorou diversos temas, como super-heróis negros, as biografias de Zumbi dos Palmares e de Machado de Assis e até racismo na televisão.

"Por uma questão mais pessoal do que profissional, embora eu também tenha atuado por mais de 20 anos com gestão de pessoas e soluções em criatividade, enxerguei a possibilidade de assessorar o PH, mesmo num primeiro momento sem ter muito conhecimento nessa área", comenta Egnalda, que também decidiu estudar marketing digital e começar a gravar vídeos e lives em diversas plataformas para se inteirar desse universo.

Mercado tinha olhos fechados

Já para desenvolver o talento do filho, ela o levou para fazer treinamentos em agências de influenciadores. Foi quando percebeu que nesses espaços não havia jovens negros — nem quem investisse no potencial deles ou entendesse da importância de a publicidade trabalhar pautas inclusivas em diversificados setores da sociedade.

Indignada e ao mesmo tempo motivada em querer contribuir para uma mudança de cenário, Egnalda decidiu que, além de incentivar o próprio filho, faria o mesmo com muitos outros jovens negros que nutrissem o desejo de se tornar influenciadores digitais.

Como é o trabalho com youtubers negros

"A assessoria saiu da crença de que essa geração não poder parar, pois ela reflete o social e, como corpos políticos, questiona o mercado, mostrando que há espaço para abraçar mais pessoas", conta a empreendedora. Ela estabeleceu como meta orientar esses jovens a criar diálogos, reflexões e ações efetivas na sociedade através da comunicação e respaldadas pelo ativismo racial.

"O meu trabalho é de educação, e repasso a eles quase um livro de história junto com algumas informações profissionais para que continuem tendo voz ativa e tenham seu talento potencializado. Só dessa maneira o mercado entenderá a importância e o valor que eles têm."

Com a divulgação dos seus serviços para o público negro entre apoiadores e nas redes sociais, os clientes não demoraram a aparecer. Hoje, o gerenciamento de carreiras é apenas uma de suas frentes de atuação — ela também presta consultoria para marcas comprometidas com a diversidade, atua com cocriação de campanhas publicitárias, faz curadoria de conteúdos, eventos e a viabilização de projetos sociais.

Com tantos desdobramentos positivos, Egnalda também foi contratada pela consultora norte-americana Creator Up para atuar no Brasil como uma das 15 mentoras de aceleração de negócios de canais do Google.

É hora de agir contra o coronavírus

Com quatro anos no mercado, a Cortês Assessoria conquistou dezenas de assessorados. Atualmente, trabalha com nove criadores de conteúdo, que apresentam e discutem na internet temas variados.

Com a covid-19, o intuito agora é expandir os assuntos para reforçar entre os jovens, principalmente os que moram nas periferias e favelas, a informação repassada por diversos profissionais, mas de maneira informal, comunitária e próxima da sua realidade.

Egnalda cita que um dos seus influenciadores, Valter Rege, tem mostrado, por exemplo, como a rotina na favela em que mora mudou por causa do vírus e como as pessoas podem agir para combatê-lo.

A partir do entretenimento e da diversão, PH também tem dado dicas para jovens de sua idade de como se divertir em casa morando na periferia e sem sair para o pancadão. "A gente tem se movimentado ainda para comunicar e ajudar, de alguma forma e por meio das redes, as ONGs que estão trabalhando com as questões de ajuda financeira, alimentícia e de higiene para as comunidades mais carentes e periferias, que são as que mais vão sofrer os efeitos do vírus", acrescenta Egnalda.

De sua parte, a empresária tem produzido e disponibilizado nas redes sociais conteúdo profissionalizante para mulheres, mostrando como se reinventar em tempos de instabilidade, e divulgado grupos de psicólogos negros que atendem gratuitamente.

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