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Chinesa vive 2ª quarentena no Brasil e vai doar 10 mil máscaras a hospital

A chinesa Beibei Liu: depois da primeira quarentena em Pequim, agora passa pelo isolamento social em São Paulo - Fernando Eiji Kikuchi/Divulgação
A chinesa Beibei Liu: depois da primeira quarentena em Pequim, agora passa pelo isolamento social em São Paulo Imagem: Fernando Eiji Kikuchi/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

10/04/2020 04h00

Beibei Liu, 29, é chinesa e trabalha em uma empresa de negociação de criptomoedas chamada Novadax. Como CEO da companhia, se divide entre Pequim, onde fica a sede, e São Paulo. São três meses em cada cidade desde 2018. A primeira parada do ano na capital paulista já estava marcada para o final de fevereiro, um pouco antes do Carnaval — e um pouco antes da confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil.

"Ainda não imaginava que o cenário se estenderia para o país", diz. Já no Brasil e depois de passar quase dois meses em isolamento social na China, em menos de 30 dias Beibei se viu obrigada a ficar em casa novamente. "Infelizmente, posso dizer que sou especialista em quarentena."

Em conversa com Universa, Beibei diz que pretende doar 10 mil máscaras a um hospital de São Paulo, critica a postura xenófoba de quem culpa a China pela disseminação do vírus e explica como funciona o isolamento vertical em Pequim, que começa a ser praticado agora, no que parece ser o fim do ciclo da epidemia — spoiler: lá, o método não é aplicado só para grupos de risco.

"Coração partido" ao ver situação dos hospitais públicos no Brasil

"Realmente partiu meu coração quando assisti a notícias brasileiras na televisão sobre a situação nos hospitais públicos", diz Beibei, sobre as primeiras impressões em relação ao combate à doença no país.

Em fevereiro, o grupo chinês Abakus, do qual sua empresa faz parte, já havia doado máscaras cirúrgicas para a Indonésia. "Então sugeri ao conselho fazer o mesmo no Brasil, e eles imediatamente concordaram."

As 10 mil máscaras devem chegar logo após a Páscoa e serão entregues ao Hospital São Paulo, hospital universitário da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e, segundo seus cálculos, devem ser suficientes para os profissionais de saúde do local usarem por um mês. "Ainda é uma coisa muito pequena."

Xenofobia é crime

Sobre os comentários preconceituosos contra chineses e acusações de que o país teria disseminado o vírus de maneira proposital, Beibei é taxativa: "Xenofobia é crime", diz.

Até mesmo governantes brasileiros se valeram de comentários irônicos para ridicularizar chineses. No sábado (4), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma postagem no Twitter em que imitava a fala do personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, que troca a letra "R" pela "L", como o sotaque de alguns chineses que, ao falar português, trocam as mesmas letras. Também sugeriu que o país poderia se beneficiar com a pandemia. Logo depois, o tuíte foi apagado.

Antes disso, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), também pelo Twitter, afirmou que a culpa pela pandemia é do governo chinês por ter preferido "esconder" o número de casos e as informações sobre o perigo da doença. O comentário gerou uma crise diplomática entre os países.

"Só venceremos a pandemia se deixarmos de lado esses pequenos problemas e unirmos todos os povos. A crise da covid-19 nos levou a ser mais colaborativos do que nunca. Apenas a união pode nos ajudar a resolver esta catástrofe", opina Beibei.

"O ódio extremo contra qualquer país ou povo só nos fará perder nossa racionalidade e o foco das nossas ações. Não precisamos argumentar em favor da ideologia, apenas queremos apoiar as ações reais."

Isolamento vertical tem regras rígidas e não vale só para grupo de risco

Com o ciclo da pandemia aparentemente chegando ao fim na China — na terça-feira (7), o país registrou o primeiro dia sem mortes pelo novo coronavírus —, o país começa adotar o chamado isolamento vertical.

Mas a prática, como explica Beibei, não significa apenas isolar grupos de risco. Idosos e pessoas com doenças crônicas ficam em casa. Mas mesmo quem está em perfeito estado de saúde precisa seguir regras para que menos pessoas circulem pelas cidades. Empresas também adotam um protocolo rígido de higiene e controle do fluxo de funcionários.

"A nova rotina é estruturada de forma que os funcionários voluntariamente escolham o horário de trabalho, levando em consideração as necessidades individuais. Depois, são divididos em grupos, A e B, alternando sua presença no escritório", explica.

Ainda são tomadas outras medidas, como medição de temperatura de todo funcionário que entra na empresa com termômetros ultrassensíveis, limpeza das estações de trabalho — até mesmo cadeiras precisam ser desinfetadas — e isolamento por 15 dias de toda pessoa que voltou de uma viagem ou que teve contato com alguém que possa ter a doença.

Quarentena no Brasil: a segunda vez é pior

Beibei não teve sintoma de qualquer tipo de doença nos períodos de quarentenas. E o fato de Pequim não ter sido foco de disseminação do coronavírus — o quadro principal foi em Wuahn, a cerca de mil quilômetros da capital chinesa — também a acalmou.

O problema, agora, é que na sua segunda quarentena está isolada em um país que não é o seu, sem muitos amigos e sem falar muito bem o português, idioma que ela está estudando e arrisca uma ou outra palavra. "Ser uma 'gringa' nesse momento é difícil, mas está sendo importante aprender sobre a cultura dos brasileiros porque essa é minha segunda casa agora."

Ter bastante trabalho ajuda. Beibei conta que a plataforma de negociação de criptomoedas registrou um aumento de 200% nas transações. "Por causa do cenário do mercado financeiro, o interesse dos brasileiros aumentou muito nessas últimas semanas. Nunca trabalhamos tanto. Isso motiva, apesar do isolamento social."

Da China, conta ter saudade da família, de quem já estava afastada por morar em Pequim e eles na cidade de Liuzhou, mais ao Sul e depois de Wuhan. "Me concentrei no trabalho e em fazer coisas que gosto, como cozinhar e ler. O povo chinês é alegre e resiliente. Passamos por muitas adversidades e aprendemos a nos fortalecer, e isso também vai acontecer nesse caso da pandemia de covid-19."

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