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Na quarentena, ela levou facadas do companheiro no pescoço: "Traumatizada"

Violência contra a mulher - Getty Images
Violência contra a mulher Imagem: Getty Images

Tereza Novaes

Colaboração para Universa

04/04/2020 04h00

Isabela* tem 26 anos e morava com o namorado no centro de São Paulo. O casal estava junto fazia um ano e meio e ele já havia a agredido em outras situações. Ela o perdoou e eles viviam ultimamente em aparente harmonia.

Com a pandemia de covid-19, o casal passou a sair menos. O estresse se agravou com bebida e drogas. Uma noite, quando a capital paulista já estava com a quarentena decretada, o companheiro a esfaqueou enquanto ela dormia. Isabela conseguiu escapar, mas teve que ser internada. Agora, da casa da família, ela divide sua história:

"Quando nos conhecemos, ele pareceu ser engraçado, atencioso. Estava em um barzinho e ele me falou aquelas coisas bonitas que toda mulher que ouvir. Dizia que queria me ver de novo, que estava disposto a ter algo sério. Começamos a namorar.

Eu morava com meu filho de 8 anos e minha tia, e ele também era pai de três. Como ele tinha a casa dele sozinho, ficávamos bastante por lá. Na primeira vez em que fui agredida, ele tinha bebido muito e começamos a discutir por causa de uma questão de ciúmes dele.

Ele me deu um tapa na cara, me jogou no chão e bateu a minha cabeça contra a parede. Fiquei com o rosto deformado. Os vizinhos me ajudaram e minha mãe foi me buscar. Dei parte na polícia.

Vergonha de ter feito B.O. e continuar na mesma situação

Depois disso, falei que não queria mais, bloqueie nas redes sociais. Ele continuou implorando para a gente voltar, dizendo que tinha ficado alterado por causa de bebida e de drogas. Ele continuou atrás de mim e acabei cedendo. Voltamos.

A partir desse episódio, ele tinha se estabilizado um pouco. O ciúme continuava, mas ele não era agressivo. Foi quando decidimos morar juntos.

Minha mãe foi contra, assim como toda a família. Ninguém queria. Depois que a gente foi morar junto, briguei com todo mundo por causa dele. Ele sabia que, de certa forma, a partir daquele momento, eu só tinha ele.

Minha vida virou um pesadelo, ele me batia todo dia.

Ele nem precisava me ameaçar para não denunciá-lo. Eu já estava envergonhada demais porque tinha feito até boletim de ocorrência e agora continuava naquela situação. Me reprimi muito e aceitei aquilo que ele estava fazendo comigo por cerca de três meses.

Filha dele chamou a polícia para ajudar

Até que a filha mais velha dele, que tinha 18 anos, precisou ficar com a gente e passamos a morar os três juntos. Durante uma semana, estava tudo bem. Até que um dia ele bebeu, usou drogas e veio pra cima de mim. Ele me pegava pelo pescoço, e quase me enforcou.

As mordidas que levei na orelha e na perna deixaram cicatrizes até hoje.

Ele quase me matou na frente da filha — foi ela quem chamou a polícia. Ele acabou preso por desacato e ficou só um dia. Saí da casa dele e jurei que não teria volta. Tinha uma medida protetiva e ele não podia ficar perto de mim.

Quando fui recolher minhas coisas, ele insistiu de novo para ficar comigo. Disse que ter sido preso havia feito ele mudar. Ele me manipulou muito, me ligava, pedia pelo amor de Deus. Acabei cedendo.

Ciúme voltou quando arrumei emprego

Voltamos a morar na mesma casa, mas nos mudamos depois de um mês. Ele havia perdido o emprego, embora ainda tivesse uma renda. Depois de ser preso, ele nunca mais tinha encostado a mão em mim. Durou cerca de seis meses.

O ciúme voltou quando eu arrumei um emprego. Ele dizia que eu não era mais a mesma pessoa com ele, que estava agindo de uma forma diferente, que saía muito cedo para trabalhar. Não podia fazer nada, qualquer comportamento meu, era motivo para brigar.

Ele continuava desempregado e passou a beber todo dia. Eu dizia para ele que não queria que bebesse daquela forma e alertava que isso estava desgastando o nosso casamento.

Conversa sobre a quarentena

Já no período da quarentena por causa da covid-19, tivemos uma conversa. Foi numa boa, sem desentendimento. Compreendemos o ponto de vista um do outro.

Sugeri que a gente desse um tempo, que eu fosse para a casa da minha família, para dar uma respirada e avaliar se a gente queria mesmo ficar junto, já que ele mesmo achava que eu estava diferente. Ele me lembrou também que, quando nos conhecemos, ele já bebia e tinha avisado que não iria parar nunca.

A conversa acabou numa boa, com a promessa de ambos de tentar ficar bem. Já havíamos passado por tanta coisa, poderíamos tentar uma melhora.

Assim que acabamos de conversar, ele sugeriu que a gente bebesse. Eu recusei, porque acordaria cedo, e pedi para ele que, naquele dia, também não bebesse.

Ataque foi durante o sono

Cochilei e acordei com ele me perguntando se eu não tinha feito jantar. Fui cozinhar e, quando já estava terminando, ele apareceu e não quis comer. Percebi que ele tinha usado drogas. Fui me deitar e ele entrou no quarto, reclamou que eu não dava atenção para ele e saiu.

Dormi. Quando acordei, ele estava em cima de mim. Senti uma pressão sobre meu corpo e uma dor no braço. Comecei a me debater, e ele disse que naquele momento podia tentar chamar alguém.

Quando me desvencilhei dele, sentei na cabeceira da cama e vi, no reflexo da janela, uma faca pendurada no meu pescoço.

Arranquei e joguei para fora, com medo que ele me desse mais facadas. Gritei e pedi ajuda. Ele fugiu, mas antes avisou o porteiro: 'A Isabela está lá em cima passando mal.'

Minha vizinha e o marido vieram me socorrer. Estava sangrando, perdendo muito sangue e fui levada ao hospital. Os vizinhos foram atrás e conseguiram pegar ele. A polícia o prendeu.

Passei duas noites internada e, apesar de não ter precisado de cirurgia, me disseram que eu poderia ter morrido. Foram três facadas, duas no ombro e uma no pescoço. Foram cortes profundos e sinto dor e dormência no braço. Quando avisaram para minha família, eles acharam que eu tinha morrido. Meus pais e minha tia ficaram em estado de choque.

Vergonha e medo do julgamento nos leva a aceitar

Desta vez, logicamente, não tem mais volta. Não tenho mais nenhum sentimento, só mágoa e chateação. Não quero perdão nem nada. Só não quero mais ver a cara dele e que ele continue preso.

Fiquei muito traumatizada e consigo agora enxergar melhor o que me levou, e leva tantas outras, a ficar calada. Medo da exposição, medo do julgamento, vergonha e o receio de não ter alguém pra te acolher. Acho que são os sentimentos comuns de mulheres que passam por violência.

Fico pensando também em quem tem filho com o agressor, e daquelas que realmente dependem dele e não têm com quem contar. Eu, graças a Deus, tenho a minha família. Agora quero levar minha vida da forma mais normal possível."

*O nome da entrevistada é, a seu pedido, fictício

Violência contra a mulher