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Na contramão de "cenário desastroso", ela promove ciência do Brasil na ONU

Fernanda Lana, bióloga que promove a ciência do Brasil na ONU - Arquivo Pessoal
Fernanda Lana, bióloga que promove a ciência do Brasil na ONU Imagem: Arquivo Pessoal

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

02/04/2020 04h00

O novo coronavírus, que provoca a covid-19, trouxe à tona algumas discussões urgentes. Uma das mais essenciais é sobre a importância da ciência, que andava desacreditada no atual governo — apenas em 2019, a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido) cortou 11.811 bolsas de pesquisa de mestrado e doutorado financiadas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Na pandemia em que vivemos, é evidente que a solução está nas mãos dos cientistas.

Está cada vez mais claro que acontecimentos relacionados à interação entre o homem e a natureza merecem atenção. Caso do desequilíbrio dos oceanos, que é, ao mesmo tempo, causa e efeito da crise climática. Em parte, ele está relacionado à falta de ações de preservação dos tubarões, predador natural que tem diversas espécies, responsáveis pelo equilíbrio da vida marinha e que correm risco de extinção. E, no combate a essa dura realidade, está a mineira Fernanda de Oliveira Lana, de 34 anos.

A bióloga Fernanda Lana em uma reunião na ONU - Arquivo Pessoal
A bióloga Fernanda Lana em uma reunião na ONU
Imagem: Arquivo Pessoal

Pós-doutora em biologia marinha e ambientes costeiros da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernanda teve, no ano passado, um de seus trabalhos científicos publicado na capa da conceituada revista científica "Nature", reforçando atividades que ela já vinha desenvolvendo como especialista na área de meio ambiente na Organização das Nações Unidas (ONU).

"Essa pesquisa é imensamente colaborativa e pioneira em abranger, de forma ampla, dados de monitoramento via satélite de diferentes espécies de tubarão, mapeando globalmente os movimentos desses animais, que sofrem com as atividades de pesca no alto mar e cujas populações têm declinado em todo o mundo", afirma Fernanda.

A bióloga, que também é assessora técnica do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados de Extinção, espera com esse estudo garantir a proteção das espécies, a delimitação de suas áreas de preservação e a redução das capturas.

O trabalho foi conduzido no âmbito do seu mestrado e doutorado e realizado sob a coordenação do professor Fábio Hazin, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em conjunto com centenas de pesquisadores do Brasil e do mundo.

Protagonismo feminino e falta de recursos

Em campo no mar, em uma marcação de tubarões - Arquivo Pessoal
Em campo no mar, em uma marcação de tubarões
Imagem: Arquivo Pessoal

Fernanda faz questão de ressaltar que, no Brasil, além dela, outras pesquisadoras atuaram nesse trabalho, que contribuiu para ampliar o conhecimento sobre 23 espécies de tubarões ameaçados no mundo — e, com a visibilidade, estabelecer uma aproximação com a população, as empresas privadas, as universidades, os centros de pesquisa e os governos.

"Se formos avaliar o número de pesquisadores brasileiros, em especial mulheres, que publicaram nessa revista ["Nature"], é bem menor do que gostaríamos, o que enfatiza a importância de se estimular a pesquisa no Brasil e no mundo", acredita ela, que também faz um apelo por mais engajamento e investimentos à pesquisa.

"Estamos vivenciando no cenário atual, que é desastroso, a redução de recursos para Capes e CNPq e corte de verbas para a ciência e a pesquisa no país e que ainda não estão incorporadas de modo pleno na sociedade", afirma. "Essa situação deriva, sobretudo, da tremenda exclusão social de grande parte da população. Só que não é mais uma questão de futuro, pois ele já chegou."

Salvar os oceanos é salvar o planeta

O interesse de Fernanda pela preservação dos tubarões surgiu quando ela ainda era menina e viajava com sua família para a Bahia, onde aproveitavam as praias. Foi em uma dessas idas que ela teve o primeiro contato com um tubarão, que havia sido pescado. Teve, assim, a certeza de que queria se empenhar por esses animais.

Depois de concluir a escola, ela prestou vestibular para biologia na PUC Minas e, por meio do Fundo de Financiamento Estudantil, conseguiu formar-se e iniciar sua carreira na área ambiental. "Tive dificuldades em querer estudar tubarões, porque minha faculdade era longe do mar e alguns professores não me apoiavam muito. Com isso, tive que encontrar meu caminho por conta própria", relembra.

"Fiz três estágios ao mesmo tempo para poder juntar um pouco de experiência e estabelecer network com quem atuava com comportamento animal. Também, por trabalhar no aquário No Mundo das Águas, de Belo Horizonte, juntei alguns recursos para quando chegasse o momento de alçar novos voos."

Fernanda mudou-se para o Recife e, sem ter bolsa para continuar os estudos, matriculou-se como aluna especial (categoria para poder se inteirar das disciplinas e tentar uma seleção para mestrado) pela UFRPE. Com bastante dificuldade, mas podendo contar com os esforços dos pais para se manter até conseguir uma bolsa, ela ingressou no mestrado. A partir daí começou a estudar e atuar com biologia reprodutiva e marcação via satélite de tubarões.

Bolsa para conseguir estudar

O doutorado veio na sequência, também por meio de bolsa de estudo, o que foi fundamental para ela se manter até se mudar para o Rio de Janeiro. Foi lá que finalizou essa etapa e acabou selecionada para trabalhar na Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro com monitoramento de pesca.

Após dois anos, passou na competitiva seleção de pós-doutorado Nota 10 da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, atuando junto à UFF. Por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, recebeu um convite para virar membro do Pool of Experts, um grupo de especialistas estabelecido pela Assembleia Geral da ONU.

Pela imagem do Brasil no mundo

Em 2018, Fernanda foi nomeada pelo governo federal como "National focal point" (ponto nacional focal) do Brasil, um posto designado pelos ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação e de Relações Exteriores em conjunto com o Pool of Experts.

Sua tarefa? Implementar um programa de trabalho que iniciou em 2017 e se estende até este ano e aprimorar a comunicação entre a comunidade científica, o grupo de especialistas e demais órgãos e institutos envolvidos, revisando regularmente os aspectos ambientais, econômicos e sociais dos oceanos, além de atualizar e prever novas ações futuras.

"Enquanto membro do grupo de especialistas da ONU, Pool of Experts, participo ativamente dos workshops ao longo de vários países, das discussões dos diversos temas do 'Processo Regular para Avaliação Global do Ambiente Marinho', além de atuar na escrita de um livro de avaliação global dos oceanos, integrando diversos capítulos", conta.

"Em janeiro de 2019 pude apresentar na Assembleia Geral da ONU trabalhos desenvolvidos em nosso país, levando o nome das instituições nesse processo internacional", orgulha-se.

A bióloga tem auxiliado ainda com a Década dos Oceanos da Unesco, iniciativa que busca ampliar, entre 2021 e 2030, a cooperação internacional pela preservação dos oceanos e a gestão dos recursos naturais de zonas costeiras para o desenvolvimento sustentável.

Quanto à situação atual do planeta, a pesquisadora acredita que está nas mãos de cada cidadão, em especial das lideranças políticas. "Estamos passando por um momento crítico mundial, em que as atitudes humanas têm refletido diretamente na rotina social", ela diz.

"Hoje, nos vemos confinados, em isolamento, para conter o avanço de uma doença séria que nos deixou ainda mais vulneráveis, mas que, por outro lado, nos fez enxergar que não estamos sozinhos e que precisamos nos unir em prol do nosso planeta — sem isso ser encarado como uma utopia ou algo ligado apenas aos da área do meio ambiente. Vai além, envolve economia, sociedade, alimentação, segurança e preservação da nossa própria vida."

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