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Na linha de frente, elas sofrem preconceito: "É como se fôssemos o vírus"

A enfermeira Ina Karolina de Vasconcelos  - Arquivo Pessoal
A enfermeira Ina Karolina de Vasconcelos Imagem: Arquivo Pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Universa

01/04/2020 04h00Atualizada em 01/04/2020 16h15

Se a pandemia de coronavírus mudou a vida de praticamente toda população no mundo, é sobre as costas dos profissionais da saúde que estão o maior peso da responsabilidade nesse momento.

Além dos relatos de jornadas exaustivas, dos riscos naturais da infecção e da falta de equipamentos de proteção e de estrutura para atender os pacientes, outro problema está atormentando a classe no Brasil: o preconceito das pessoas em manter qualquer tipo de contato com quem trabalha na área de saúde.

Entre os profissionais da enfermagem —cuja categoria é formada 87% por mulheres—, Universa ouviu relatos de várias mulheres que estão se sentindo abaladas com a forma como vêm sendo tratadas —na rua e também em casa.

"O que a gente, profissional de saúde, passa hoje ao subir em um ônibus é constante: as pessoas já lhe olham estranho assim que você sobe; elas se afastam, saem de perto. É como se a gente fosse o próprio coronavírus em pessoa", relatou uma técnica, que não quis se identificar.

Até mesmo aquele velho encontro romântico ou paquera ficou mais difícil. "Sugeri ao meu crush uma visita dele a meu apartamento, como sempre fazíamos. Disse que faria um café, que ele trouxesse o bolo. E a resposta foi: 'Você está doida? De jeito nenhum! Você é da saúde, não devia nem estar andando por aí", contou outra técnica de enfermagem.

Até mesmo amizades e relacionamentos estão abalados. Uma outra técnica cita que percebe o preconceito no condomínio onde mora. "Aconteceu um caso aqui no hall. A minha amiga me viu através do vidro e, como eu estava de branco como sempre, se afastou de mim", conta uma enfermeira, que também preferiu o anonimato.

"Com outra colega de trabalho, o 'namorido' chegou com uma conversa séria, dizendo que era diabético, que o filho estava receoso e que era melhor ela voltar para o apartamento dela", completa.

Até frequentar locais públicos tem sido uma tarefa difícil do ponto de vista emocional. "Eu precisei ir na conveniência vestida de branco. Fui comprar um item que estava faltando, e quando entrei na loja, a funcionária veio de mim passar colocando álcool na maçaneta. Eu achei estranho, mas tudo bem. Quando saí, ela repetiu o procedimento. Não sei se estou sendo sensível demais, mas me sinto acuada", relata.

"Até a moça da padaria tem uma repulsa evidente ao falar comigo. Ela fica me questionando porque eu não uso máscara, porque que eu não uso luva. Eu já estou começando a ficar angustiada", complementa a técnica.

Há, ainda, muitos casos de profissionais que decidiram passar por um isolamento maior, mantendo distância voluntária dos familiares. A enfermeira Ina Karolina de Vasconcelos, que trabalha em duas UTIs (unidades de terapia intensiva) de Maceió, mandou os dois filhos pequenos para o interior de Alagoas para não correrem o risco de contágio por meio dela.

Enfermeiras em Wuhan, na China - Reprodução/Instagram/@sophfei - Reprodução/Instagram/@sophfei
Enfermeiras em Wuhan, cidade na China que registrou os primeiros casos da doença
Imagem: Reprodução/Instagram/@sophfei

"No começo foi bem difícil, a saudade é grande. Eles que me motivam a acordar todos os dias para trabalhar e para viver. Mas sei que é necessário e é o melhor nesse momento. Tenho matado um pouco da saudade com ligação em vídeo nos dias de folga", afirma

Mecanismo é defesa, diz psicóloga

Para a mestre em psicologia e professora da Centro Universitário Tiradentes, Karolline Pacheco, o medo neste momento é normal, o que torna quase inevitável que os profissionais de saúde acabem indiretamente sendo afetados.

"Dentro de uma situação que nos ameaça a vida, é muito normal a gente tentar se defender. É do funcionamento psíquico que a gente tem, e estamos vivendo um tempo de crise, da ameaça causada pelo vírus", explica. Segundo ela, entretanto, a forma como as informações sobre prevenção chegam às pessoas não são absorvidas da mesma maneira por todos, o que explica reações tão diferentes.

"Essa absorção ocorre de forma muito individual, depende dos valores, das crenças e de como se recebe essa informação. Isso vai definir a forma como a pessoa vai reagir à situação: uns vão se afastar, outros ter crise de ansiedade, uns vão se apegar à religião. Enfim, cada sujeito vai responder isso de uma forma muito peculiar", conta.

A psicóloga avalia que os profissionais de saúde da linha de frente também são vítimas de um receio em se contaminar com o coronavírus. "Eles não vão deixar de ter medo, até porque os próprios noticiários mostram que muitas vítimas de outros países foram da saúde. A gente está vendo também muitas queixas de não ter condição de trabalho. Então isso tudo vai provocar um certo medo, e o primordial nesse momento é buscar racionalidade", explica.

Mas o que seria manter a racionalidade num momento como esses, estando dentro de um hospital com doentes?

"Se eu sei que o ambiente em que estou é propício à contaminação, primeiro preciso tentar me resguardar das maneiras físicas, como lavar das mãos, usar equipamentos, ter cuidado quando chega em casa. E segundo tentar não minimizar a situação real da crise. Quem está na linha de frente vai ter que ter um equilíbrio emocional muito forte, buscar esse equilíbrio e frieza, porque a gente não sabe o que está por vir", indica.

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