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Locutora Camila Pinheiro sobre seu câncer: "Sem mama, careca e mais bonita"

Camila Pinheiro, locutora da 89, com o marido, o humorista Fábio Rabin: outro olhar para o que a incomodava antes  - Arquivo Pessoal
Camila Pinheiro, locutora da 89, com o marido, o humorista Fábio Rabin: outro olhar para o que a incomodava antes Imagem: Arquivo Pessoal

Ricky Hiraoka

Colaboração para Universa

31/03/2020 04h00

Foi por acaso que a locutora da Rádio 89 FM, Camila Pinheiro, de 30 anos, descobriu que tinha tumores na mama. Interessada em saber mais sobre implante hormonal como método contraceptivo, ela foi a um médico indicado por uma amiga. Ao se submeter a exames de rotina, a surpresa: ela tinha câncer.

Camila tentou não se deixar abater e decidiu compartilhar sua luta pela vida em vídeos e fotos bem-humorados no Instagram. Resultado: o número de seguidores triplicou e ela ganhou status de influencer. No relato abaixo, ela conta como tem sido o processo de tratamento.

Camila Pinheiro sem os cabelos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Camila: baque quando soube que teria que fazer quimioterapia
Imagem: Arquivo Pessoal

"Ninguém da minha família tinha histórico de câncer. Eu acompanhei a blogueira Nara Almeida, que mostrou todos os passos de seu tratamento no Instagram. Fiquei muito abalada com isso e o câncer passou a ser um dos maiores medos da minha vida.

Todas as noites eu rezava para que ninguém que eu amasse tivesse essa doença. Ano passado, quando estava pesquisando sobre pílula anticoncepcional e risco de trombose, uma amiga me indicou implante hormonal. Fui ao médico que ela recomendou. Ele fez ultrassom de mama e no exame, achou nódulos.

Na hora, vi que a feição do médico estava estranha e temi pelo pior.

Ele ligou para um colega e pediu que me encaixasse no primeiro horário do dia seguinte para uma biopsia.

Cheguei em casa e contei para meu marido, o humorista Fábio Rabin. Ele ficou desesperado, mas tinha esperança que não fosse nada. Eu só pensava em como ia contar para a minha mãe caso a suspeita de tumor se confirmasse. Ela tem a saúde frágil e sofre de Mal de Parkinson.

No abraço do médico, entendi tudo

Camila Pinheiro antes - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Camila, antes de descobrir o câncer
Imagem: Arquivo Pessoal

No dia seguinte, logo após a biopsia, o médico me atendeu com um abraço. Ali, eu já entendi que tinha câncer. Ele disse que o processo seria o mais rápido possível. Eu tinha tanto medo de um dia ter câncer que me preparei sem querer para receber essa notícia. O médico recomendou que eu fizesse a mastectomia o quanto antes.

Assim que tive a confirmação do câncer, não quis explicar para nossa filha de 6 anos o que estava acontecendo. Disse apenas que iria trocar o silicone e que, em breve, voltaria para nossa casa.

Fiz mastectomia bilateral, ou seja, tirei os dois seios.

Até então, não fazia ideia que faria quimioterapia. Para mim, a retirada das mamas bastava. Mas durante a cirurgia acharam outro nódulo que não tinha sido identificado por nenhum exame e três gânglios comprometidos na região da axila.

Carecas mais lindas do Pinterest

Camila contando as quimioterapias - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Camila publica no Instagram a contagem das quimioterapias que fez
Imagem: Arquivo Pessoal

Para não ter dúvidas de que eu ficaria mesmo livre do câncer, me disseram que a químio era necessária. Naquele momento, chorei. Já tinha perdido minhas mamas, agora ia ficar careca. Pode parecer bobagem, mas sentia como se estivessem tirando minha feminilidade.

Após esse momento de desespero, me recompus. No dia seguinte já estava pesquisando as carecas mais lindas do Pinterest. Queria inspiração para me ajudar a superar o que estava passando.

Quando voltei para casa, conversei com minha filha e expliquei para ela que o médico tinha achado um dodói e, por causa disso, mamãe não tinha mais os peitos. Não falei o nome câncer para ela. Tinha medo de minha filha falar para alguém e a pessoa comentar algo negativo sobre a doença ou dizer que estava à beira da morte — e que isso a deixasse assustada.

Exposição para evitar o vitimismo

Também decidi que ia expor o câncer nas redes sociais, porque não queria que ninguém ficasse com dó de mim. Não queria ser vista como coitadinha.

Tinha decidido que manteria minha rotina o mais normal possível. Não ia deixar de apresentar meu programa de rádio.

No primeiro vídeo, falei da importância de cuidar da própria saúde. Contei aos meus seguidores que, se não tivesse ido ao ginecologista me informar sobre implante hormonal, jamais descobriria os tumores. Pedi para eles fazerem exames.

O retorno do público foi incrível. Muita gente falou que ia se cuidar mais, umas 15 pessoas descobriram câncer de mama por causa da minha história.

Senti que minha doença tinha um propósito maior.

Aquilo estava acontecendo comigo para eu dar um chacoalhão na galera e para todo mundo aprender a importância de se cuidar.

Sempre fui divertida, bem-humorada e havia decidido que não ia perder essa característica apesar de estar lutando contra o câncer. Mas nem todo mundo entendeu a pegada engraçada das minhas postagens sobre a doença.

A reação às reações negativas

Camila no hospital - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Como Camila é bem-humorada, suas postagens também o são, mas algumas pessoas criticaram
Imagem: Arquivo Pessoal

Embora a maioria das reações tenha sido positiva, muita gente me procurou para falar coisas desnecessárias. Me aconselhavam a não subestimar o câncer, que eu postava foto sorrindo na quimioterapia porque não estava consciente que aquilo estava matando meu coração.

Algumas pessoas me acusaram de banalizar a doença porque sempre aparecia sorrindo no Instagram, diziam que eu estava enfraquecendo quem não tem a mesma força que eu tenho para enfrentar o câncer.

Chegou um momento que todo aquele ódio começou a me assustar e passei a ser seletiva nas mensagens que eu lia. Passei a priorizar os recados positivos para eu não ficar abalada durante meu tratamento.

Compartilhar minha luta no Instagram fez com que saltasse de 89 mil seguidores para 300 mil. Me sinto privilegiada por ter a chance de falar com tanta gente.

Mudou a forma de encarar a vida

Um dos maiores efeitos do câncer em minha vida foi mudar a forma como encaro a vida. Hoje, vejo beleza em dia cinza, agradeço sempre quando chega um e-mail de trabalho, fico feliz se chove ou se faz sol. A gratidão aflorou em mim. É inexplicável.

Estou muito mais vaidosa também. Antes saía de pijama na rua. Hoje não saio sem maquiagem. Para ir na padaria, passo uma base e um blush. Não é por mim, é para as pessoas não se sentirem mal ao me ver. Se não me maquio, acham que estou morrendo.

É muito curioso, mas, depois que descobri o câncer, passei a me sentir mais segura. Não usava biquíni na praia por causa de celulite.

Superei meus problemas de autoestima. O câncer ressignificou tudo em mim.

Me acho mais bonita que antes, mesmo sem mama e cabelo. Passei a ver que a aparência não é tão importante quanto a gente acha que é. Estou mais desencanada.

Já estou usando roupas que não usava antes, como top e blusa cropped. Mostro minha cicatriz sem problema algum.

Força do marido, que raspou a cabeça

A pior parte da quimioterapia é que ela não me deixa com o ânimo de antes. Uma das maiores dificuldades foi ver que não conseguia ter a mesma disposição para brincar com minha filha. Fico cansada muito rápido. Não consigo correr como antes, fazer a farra que fazíamos.

Minha filha foi entendendo que estou num momento diferente e agora ela me pergunta se eu consigo brincar de pé ou se é melhor nós duas brincarmos sentadas.

O apoio e o amor do Fábio têm sido essenciais nesse processo. Por mais bizarro que possa ser, muitos maridos abandonam suas esposas quando elas descobrem que têm câncer. Fábio foi o extremo oposto. Ele estava comigo todo o tempo me dando força e até raspou a cabeça.

Já estou na fase final do meu tratamento e sei que em pouco tempo estarei 100% saudável. Quando tudo estiver bem, pretendo investir mais em minha carreira de comunicadora. Também não vejo a hora de ir para a praia de biquíni. Agora não tenho mais problema algum em mostrar celulite por aí."

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