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Mães e filhos

Coronavírus: em casa, filho pode ajudar a definir rotina; veja aqui 9 dicas

Artur, 8 anos, faz um bolo, que adora: educadores dizem que é preciso manter a rotina no isolamento - Arquivo Pessoal
Artur, 8 anos, faz um bolo, que adora: educadores dizem que é preciso manter a rotina no isolamento Imagem: Arquivo Pessoal

Wellington Soares

Colaboração para Universa

24/03/2020 04h00

O cotidiano da fotógrafa e cuidadora de pets Cristiana Engelmann, conhecida como Pagu pelos amigos, mudou bastante nos últimos dias. Com o distanciamento imposto pela ameaça do coronavírus, o filho Artur, de 8 anos, deixou de frequentar a escola e o projeto em que passava as tardes. Mãe, filho e um cachorro estão precisando se virar para passar o tempo nos dias de reclusão no apartamento em que vivem, na zona oeste de São Paulo.

Como ela, em todo o país famílias estão precisando repensar sua rotina em casa para dar conta da convivência imposta pela pandemia. "Essa é uma situação muito nova e que vai demandar criatividade e uma escuta muito cuidadosa para que as famílias se organizem, mas sem gerar mais tensões do que as que já estamos sentindo", afirma Regina Scarpa, diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, na capital paulista.

Cristiana tem postado em seu Facebook um pouco da rotina com o filho: cafés da manhã mais demorados, com longas conversas, leitura, a preparação de um bolo — que o menino adora — têm ajudado mãe e filho a qualificar o tempo que passam juntos. "Temos tentado manter nossa rotina quase como ela costumava ser aos fins de semana", conta.

O dia a dia da família reflete o que defendem os educadores: em casa, é importante manter uma rotina e prezar pelo bom convívio. "Para prezar pela saúde mental, não é bom que haja um rompimento muito grande do que fazem no dia a dia. Além disso, também precisamos garantir que crianças e jovens não acabem passando tempo demais na frente das telas, que estarão com certeza mais presentes", afirma Flávia Vivaldi, doutora em Psicologia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Envolver os pequenos na elaboração da rotina é uma das dicas dadas para garantir a boa convivência, assim como ter flexibilidade. Todas as manhãs, Pagu e Artur decidem, juntos, as atividades do dia, que nem sempre são totalmente cumpridas. "Estamos tentando não ter muita cobrança, nem para mim e nem para ele", diz.

Home office com crianças, regras e limites

Fernando, 2, Clara, 4, e Maria, 6: em casa com os pais fazendo home office - Arquivo Pessoal
Fernando, 2, Clara, 4, e Maria, 6: em casa com os pais fazendo home office
Imagem: Arquivo Pessoal

Evitar as cobranças pode ser interessante para organizar a rotina, mas tem horas que os limites precisam ser estabelecidos. Um dos casos mais frequentes é o de pais que estão em home office e precisam conciliar o tempo dedicado aos filhos e ao trabalho.

Na família de Roberta Ricco Loria, os filhos Maria, 6, Clara, 4, e Fernando, 2, têm demandado a atenção do pai, que é advogado e está trabalhando de casa. Para lidar com as interrupções, Roberta e o marido explicaram aos pequenos que era preciso respeitar os momentos de concentração do pai.

"Até propusemos que as meninas fizessem uma placa com o nome do escritório de advocacia onde ele trabalha para colocarmos na porta do cômodo de onde ele está ficando", afirma Roberta.

Atritos também podem surgir em outros momentos. Diferentemente das férias, as crianças não poderão frequentar playground ou piscina no condomínio, e terão menos contatos com amigos e com a família. "Eles vão sentir falta, principalmente, dos parentes nos grupos de maior risco e dos colegas de escola", afirma Ana Paula Yazbek, diretora do Espaço Educação Infantil.

Para lidar com a situação, famílias e educadores apostam no diálogo e na mediação da tecnologia. "Conversamos sempre sobre o que está acontecendo no mundo, para que entendam por que estão em casa. Também já combinamos de fazer videochamadas com os avós e coleguinhas", diz Roberta.

Especialistas recomendam que os pais discutam os princípios por trás das normas com as crianças. "Não tem como criar regras para todas as situações, então é preciso encontrar outras maneiras de discutir os limites", afirma Flávia Vivaldi.

Ela aconselha pensar em questões para que as próprias crianças entendam quais são os limites, como "essa ação pode ser prejudicial para a minha saúde ou de alguém?" e "pode causar mal para alguém?". "Mas, se elas permanecerem insistindo, tem horas que é preciso dizer que não é não", afirma.

Fugindo da ideia de "mãe ideal"

Brenda, 5, e Enzo, 9: artesanato, pintura, filmes e estudos na quarentena - Arquivo Pessoal
Brenda, 5, e Enzo, 9: artesanato, pintura, filmes e estudos na quarentena
Imagem: Arquivo Pessoal

Na casa de Michelle Marins Pessoa, os filhos Enzo, 9, e Brenda, 5, têm mantido a rotina mais próxima o possível dos dias pré-reclusão. "Montamos juntos uma rotina pensando nas atividades que eles podem fazer e também nos estudos escolares", conta a mãe.

Artesanato, pintura, filmes e videogame fazem parte do cardápio de atividades planejado pela família. "Na escola, as crianças podem extravasar seus pensamentos e sentimentos em diversas linguagens. Pode ser interessante trazer isso para dentro de casa também", sugere Flávia.

Entre as atividades que não podem faltar estão a leitura e o desenho livre, principalmente para as crianças menores. Mas é possível colocar a criatividade para funcionar e pensar em outras. "Às vezes só de arrastar o sofá e abrir espaço para que elas montem uma cabana, por exemplo, já pode ter uma cara de novidade", explica Ana Paula Yazbek.

Com tantas propostas surgindo, a necessidade de pensar em alternativas pode também sobrecarregar os pais. "Recebi uma enxurrada de conteúdos dando sugestões de atividades que uma 'mãe ideal' deveria fazer", lembra Pagu. Todos os especialistas entrevistados por Universa são unânimes: é preciso equilibrar as propostas com o que é possível realizar. "A casa não precisa virar uma repetição da escola", destaca Regina Scarpa.

As tarefas do próprio dia a dia da família são também fonte de distração e aprendizado para os pequenos. "Esse é um momento para estabelecer uma partilha e uma parceria", afirma Ana Paula. É o que tem acontecido na casa de Pagu. "O Artur me ajuda lavando o próprio prato depois do almoço. Estou tentando construir uma rotina em que não apenas eu faça coisas para ele, mas que nós façamos coisas juntos", diz a mãe.

Como lidar com filhos em casa? Veja 9 dicas

  1. Convide-os a pensar na rotina
    Nas escolas, o estabelecimento de uma rotina faz com que as crianças tenham uma previsão do que irão realizar e consigam se situar ao longo do dia. Saber que o horário do tablet é logo depois do almoço, por exemplo, pode ajudá-las a administrar a ansiedade. Ela pode ser definida em uma conversa durante o café da manhã, por exemplo.
  2. Envolva-os nas tarefas do lar
    Não é necessário pensar sempre em grandes malabarismos para encher a rotina com tarefas. Principalmente na creche e na pré-escola, boa parte das atividades servem para mostrar às crianças como funciona o mundo: fazer uma receita, ajudar na limpeza da casa e encher as bandejinhas de gelo são algumas tarefas que permitem que as crianças façam explorações e descobertas.
  3. Aposte na autonomia deles
    Bebês e crianças pequenas costumam ser mais acompanhados de perto em casa do que nas instituições de ensino -- em que não há um adulto para cada bebê. Pense a organização do espaço para permitir que eles possam explorar o ambiente e não fiquem todo o tempo no colo ou no berço. Forre o chão e coloque objetos ao alcance para que eles possam descobri-los. Além de brinquedos, itens de cozinha que não apresentem riscos também são uma alternativa.
  4. Garanta momentos de leitura
    Ver adultos lendo, manipular livros, tentar recontar histórias já conhecidas usando as figuras como referência são algumas atividades típicas da escola e que podem ser replicadas em casa. Leia para as crianças, deixe os livros à disposição e, quando possível, peça também que eles contem histórias para você.
  5. Invista na bagunça (e na arrumação)
    Permita que os pequenos possam brincar com o próprio ambiente. A sala de estar pode se transformar numa cabana ou em um percurso em que eles precisam escalar cadeiras e pular sobre o sofá. Antes de começar a brincadeira, combine com as crianças o horário da arrumação e relembre sempre do combinado para que eles não esqueçam de participar dela.
  6. Possibilite a brincadeira livre
    Não é necessário estar o tempo todo junto com as crianças. Permita situações em que elas possam exercitar o faz de conta, mesmo sem a sua supervisão. Esse tipo de brincadeira é fundamental para o desenvolvimento delas. Você pode apoiar esse momento brincando junto quando possível ou ajudando na seleção de objetos e instrumentos que elas possam usar.
  7. Aposte nos álbuns de fotos
    Tire um tempo para ver, junto com os filhos, as milhares de fotos acumuladas no celular ou no computador. Ter contato com as imagens de avós, da escola e de outros parentes é importante para encurtar a distância imposta pelo distanciamento social, sobretudo com pessoas em grupos de risco.
  8. Pergunte sobre o dia a dia na escola
    Tente descobrir a música eles ouvem na sala de aula, como dançam na escola, o que comem no recreio e outras informações. Além de ser um bom tema de conversa, pode dar ideias que permitam tornar a quebra na rotina menos intensa para as crianças.
  9. Busque alternativas para manter o contato
    Realizar videochamadas é uma boa, mas vale também explorar outras linguagens. Um dia, é possível fazer uma carta contando do dia para o restante da família -- a criança dita e o adulto escreve. Em outro, dá para elaborar uma pintura para ser entregue aos avós. Também vale pensar em fotos que, acompanhadas de mensagens escritas, são enviadas para os amiguinhos para mostrar a rotina no isolamento.

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