PUBLICIDADE

Topo

Mulheres inspiradoras

As guerreiras que inspiraram "Mulan", filme da Disney "vítima" da covid-19

"Mulan", live-action da Disney que teve sua estreia adiada por causa do coronavírus - Divulgação
"Mulan", live-action da Disney que teve sua estreia adiada por causa do coronavírus Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

21/03/2020 04h00

Previsto para estrear nos cinemas brasileiros em 26 de março, o live-action "Mulan", da Disney, está adiado por tempo indeterminado, vítima da pandemia do novo coronavírus (covid-19). Se, por um lado, os fãs da história terão que aguardar o país — e o planeta — voltar à normalidade, por outro, mantendo-se em isolamento social por recomendação das autoridades de saúde, poderão trabalhar em segurança, se informar e, por que não, se distrair?

Conhecer a trajetória épica dessa jovem chinesa que se transformou em uma reverenciada guerreira é uma de nossas sugestões. Quando a pandemia terminar, você poderá assistir ao filme com um novo olhar, sabendo que Mulan baseia-se em uma lenda milenar e também se relaciona com histórias de mulheres que, na Ásia Feudal, dominavam artes marciais, pegavam em armas, montavam a cavalo e protegiam suas famílias com a vida.

Hua Mulan, a precursora

A Balada de Mulan - Divulgação - Divulgação
"A Balada de Hua Mulan": lenda chinesa que inspirou a guerreira da Disney
Imagem: Divulgação

Embora na China exista uma lenda popular sobre Mulan, cujo nome composto é Hua Mulan (Flor de Magnólia, em mandarim), a origem da personagem é imprecisa. Faltam registros arqueológicos e historiográficos concretos sobre sua existência, assim como sobre o fato de ter se vestido de homem para entrar no exército e lutar na guerra representando seu pai idoso.

O único relato existente era um texto em forma de canção batizado de "A Balada de Hua Mulan". "Balada", neste caso, refere-se a uma composição musical épica. A de Mulan, que teria vivido entre os séculos 4 e 5 da era cristã, é datada do século 6, mas se perdeu, restando hoje apenas uma cópia que faz parte de uma coleção estimada de entre os séculos 11 e 12.

Hua Mulan aparece ainda em um conto da Dinastia Ming, que governou a China de 1368 a 1644, em uma peça de 1593 intitulada "A Heroína Mulan" e em um romance do século 17 chamado "Shui Tang", sobre como a jovem tornou-se reconhecida no imaginário popular.

Desconstrução da imagem das princesas

Sua história ganhou repercussão mundial pela primeira vez quando foi adaptada para o cinema pela Disney, em 1998. A animação representou um marco na desconstrução da imagem das princesas apresentadas ao público infantil.

"Mulan não é sedutora ou voluptuosa; ela é provavelmente a única heroína da Disney que é emocional e psiquicamente forte, e não espera que o príncipe encantado a salve", conta Carmen Medina, professora da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e autora do livro "Alfabetização, Brincadeira e Globalização: Imaginários Convergentes nas Performances Críticas e Culturais das Crianças", em português.

À imagem das guerreiras samurais japoneses

Tomoe Gozen  - Divulgação - Divulgação
Tomoe Gozen, a Mulan do Japão
Imagem: Divulgação

Embora a origem de Hua Mulan seja chinesa, ela também pode ter contribuído para a criação das Onna-Bugeisha, mulheres samurais do Japão feudal. É o que afirma William Farris, professor de história japonesa na Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, e autor da tese "Guerreiros Celestiais: A Evolução do Japão Militar".

"Em 663 d.C, o Japão passou por uma ampla reforma. Uma das mais importantes, a Reforma Taika permitiu à aristocracia japonesa adotar toda a estrutura da dinastia Tang, da China", conta. "Essa foi uma das primeiras tentativas do governo imperial de formar um exército organizado baseado no sistema chinês."

As Onna-Bugeisha obtiveram destaque principalmente entre os séculos 8 e 14 por entrarem em combate pela expansão territorial de seu império. Para isso, passavam por treinamentos que exigiam delas habilidade em artes marciais, manipulação de espadas e proteção de aldeias e famílias, principalmente na ausência dos homens.

No Japão, Tomoe Gozen equivale ao que foi Hua Mulan para a China: uma guerreira lendária que ganhou popularidade com a crônica "O Conto dos Heike", do século 12, que a descreve como uma bela jovem de cabelos longos e pele branca que sabia disparar flechas, domar cavalos selvagens e liderar exércitos vitoriosos.

Uma Mulan, não: várias Mulans

Sendo mito ou verdade, a história de Mulan inspira coragem e lealdade e, de acordo com o historiador Renato Drummond Neto, mestre em Memória: Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e autor do livro "Rainhas Trágicas", está longe de ser o conto de uma só mulher.

"Penso que a 'Balada de Mulan' é um louvor a essas mulheres guerreiras, cujos nomes se perderam com o tempo e hoje estão imortalizadas na figura de uma simplória camponesa. Ela partiu para a guerra no lugar de seu pai e acabou salvando todo um povo", explica.

Ícone de coragem e bravura

No folclore chinês, Mulan teria arranjado um cavalo, uma sela e um chicote e se alistado no lugar de seu pai como um irmão mais velho — foi quando acabou se descobrindo uma guerreira de grande destreza e habilidade estratégica. Permaneceu por mais de dez anos em campanhas militares pela China, ganhou prestígio e respeito entre seus camaradas e líderes e chegou à patente de general.

Versões posteriores à lenda original dizem ainda que ela conheceu um oficial, que teria se apaixonado por ela, ou que ela teria se suicidado ao saber da morte do pai.

Ainda no mito chinês, Mulan assumiu sua verdadeira identidade ao final de sua missão como militar e foi recebida com respeito e gratidão por todos. "Uma mulher precisa se vestir de homem para a guerra? Ela é uma feminista à frente de seu tempo", lembrou em 2018, durante um festival em Macau, na China, Shekhar Kapur, diretor conhecido por adaptar para o cinema biografias de mulheres influentes na história. São dele "Elizabeth" (1998) e "Elizabeth — A Era de Ouro" (2007).

A coragem e a bravura de Mulan chegaram aos ouvidos do imperador da China, que ofereceu a ela recompensas. A guerreira, respeitosamente, as recusou em troca apenas de voltar para casa. Acatado seu pedido, Mulan retorna para a família e os amigos.

"Mal posso esperar pelo dia em que todos nós poderemos ver juntos esse conto da garota guerreira que tornou-se uma lenda", escreveu em seu Instagram Niki Caro, diretora do live-action de "Mulan". "Nosso carinho vai para todos que foram afetados por este vírus e torcemos para que o espírito guerreiro de Mulan continue a inspirar aqueles que trabalham tão duro para nos proteger. Obrigada a todos por seu entusiasmo e apoio."

Mulheres inspiradoras