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Festa no apê: celebrei meus 40 anos com uma comemoração virtual

Festa de aniversário em tempos de coronavírus - Arquivo pessoal
Festa de aniversário em tempos de coronavírus Imagem: Arquivo pessoal

Vladimir Maluf

20/03/2020 13h57

Dia 19 de março é meu aniversário, exatamente na semana mais nervosa com o avanço do coronavírus — por enquanto. Decidi que faria duas coisas na quinta-feira que passou: não ler notícia nenhuma e comemorar meus 40 anos da melhor maneira possível. E o possível foi fazer uma festa pela internet.

Os amigos mais ligados em tecnologia me sugeriram o Hangouts, plataforma do Google que permite videoconferências para até dez pessoas, gratuitamente. O WhatsApp tem a mesma função, mas só suporta cinco pessoas simultaneamente. O Skype parecia melhor, pois a chamada aceita até 50 convidados, mas nem todos os meus amigos tinham o programa. Escolhi o primeiro. Pareceu mais fácil. No computador, não exige download: é só acessar pelo Gmail ou Chrome. No celular, precisa baixar o app, mas é simples logar com uma conta Google — os meus amigos que toparam a reunião já tinham uma.

A ferramenta Hangouts, do Google, foi a escolhida para reunir os amigos - Arquivo pessoal
A ferramenta Hangouts, do Google, foi a escolhida para reunir os amigos
Imagem: Arquivo pessoal

O Hangouts tem um sistema que destaca o usuário que está falando no momento. Simples: a tela principal é ocupada por quem está com a palavra e os outros aparecem em miniatura. Deve funcionar melhor em uma reunião de trabalho, com uma pessoa falando de cada vez. A inteligência do Hangouts só teve boa performance quando ficamos em cinco na conferência — mais para o final da festa. Com o "salão" cheio, o robô não conseguia escolher bem um protagonista. Às vezes, a risada de um ouvinte ativava o microfone de um convidado — e quem estava com a palavra perdia a tela cheia e a potência do áudio. Morria a história.

Roupa nova da cintura para cima

Para ficar mais divertido, eu e meus amigos reproduzimos alguns detalhes de uma festa normal: uns fizeram drinks, outros se arrumaram — teve até penteado especial (Michelli, minha amiga, caprichou). Eu vesti uma das minhas camisas favoritas, a primeira bermuda que achei e nada nos pés — afinal, só me veriam da cintura para cima. Outra amiga, a Adelle, iniciou a conferência. Encaminhei o link que ela criou para 15 convidados, pois imaginei que alguns não compareceriam. Eu me enganei: a festa lotou e fizemos um pequeno rodízio.

Os amigos foram chegando de um em um - Arquivo pessoal
Os amigos foram chegando de um em um
Imagem: Arquivo pessoal

Um casal de amigos, Christian e Thiago, conseguiu acessar a festa por menos de um minuto. Tempo suficiente para os dois fazerem umas graças e mandarem beijos de felicitações, antes de a conexão cair. Ainda assim, o número não se compara às 82 pessoas que estavam na lista da minha primeira ideia de festa, que seria no subsolo de um restaurante modernoso na avenida São Luiz, no centro de São Paulo, cidade onde moro.

Há pouco mais de uma semana, não parecia um problema programar uma patuscada. Hoje, está claro que seria irresponsável comemorar desse jeito. A princípio, relutei para cancelar tudo, mas não tanto quanto o presidente da República, que falou mais de uma vez sobre festejar o aniversário dele o da primeira-dama. São Paulo é o município que tem mais casos da doença e de vítimas fatais do país, até agora — é seguida pelo Rio de Janeiro, onde os arianos Jair e Michele Bolsonaro celebrarão suas novas idades.

Léo, um dos meus convidados, mora no Rio. Ele conta que a vida social não está muito restrita por lá, apesar da recomendação do Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde) para evitar aglomerações. "Aqui ainda tem praia cheia, bar lotado", disse ele. Carla, que é de São Vicente e trabalha em Santos, também falou sobre a lotação nas praias até dia 19. Agora, as prefeituras proibiram o acesso às faixas de areia.

A festa demorou para embalar, mas deu certo

Nem todos os meus convidados estavam sozinhos em casa. No meu apartamento, dividi o sofá e a câmera com Hugo, meu namorado. Ele está trabalhando remotamente e passou o dia trancado comigo. Também tenho duas gatas — que estão me salvando da insanidade neste período de dúvidas e medos. Eu não era o único que tinha companhia para a reunião remota: Julyana entrou na conversa com uma tacinha na mão e o filho, João, 6, sentado ao lado.

Foi bom ver as pessoas queridas, ainda que de longe e por pouco tempo - Arquivo pessoal
Foi bom ver as pessoas queridas, ainda que de longe e por pouco tempo
Imagem: Arquivo pessoal

O menino também é aniversariante de março — e está frustrado por não ter uma comemoração com os amigos, marcada para o dia 28 e, agora, cancelada. "Essa sua festa está mais devagar do que uma tartaruga", disse ele. De fato. Estávamos meio atrapalhados, nem todos se conheciam e ficamos sem saber como iniciar a conversa nos primeiros minutos. Com todo mundo falando ao mesmo tempo — e todos engasgando para tentar não interromper ninguém, em vão — a coisa precisou de um tempo para engrenar. Engrenou.

Os drinks ajudaram a conversa a desenrolar. Em casa, estávamos tomando vinho. Demos muitas risadas. Mariana mostrou para todos um áudio antigo meu, do WhatsApp, em que eu dou uma gargalhada escandalosa. Léo fez piadas com meus posts malucos no Instagram, frutos do isolamento, para a câmera do notebook. Roberto, lá do Canadá, compartilhou uma ideia interessante: uma ferramenta chamada Netflix Party, que permite assistir a filmes e séries em grupo — boa ideia para dias de confinamento. Funciona assim: sua turma sincroniza a atração escolhida, que passa simultaneamente para todos, e pode conversar por chat de texto. Para isso, basta usar uma extensão do Chrome.

Quem consegue rir por muito tempo?

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Não demorou muito para falarmos das preocupações com a pandemia, cujas proporções no Brasil são incertas e as previsões são de colapso no sistema de saúde, com falta de leitos, e abalo na economia. Antes da pandemia, o Brasil já tinha cerca de 11,6 milhões de desempregados, segundo o IBGE. Muitos pequenos comerciantes devem ir à ruína e grandes empresas já estudam demissões. Os que mantiverem seus empregos correm o risco de ter a renda diminuída à metade, se aprovada a medida provisória do governo que permitirá que empregadores cortem 50% dos salários dos funcionário com redução da jornada na mesma proporção.

Todos na festinha têm pessoas queridas que fazem parte de grupo de risco — muitas vezes, por mais de um motivo. São idosos, como meus pais, por exemplo. Minha mãe, 78, mora no meu prédio, mas ficou triste de não poder vir em casa comemorar comigo o dia de hoje. Apesar de serem apenas dez andares de distância, não é seguro que tenhamos contato. Não dá para garantir que eu não tenha sido infectado com o coronavírus e não apresente nenhum sintoma. Para ela, seria perigoso.

Meu pai, 76, me telefonou para tentar me animar e me tranquilizar. Nosso almoço, desmarcado, ele promete pagar outro dia. Prometeu, também, não botar o nariz na rua. Para me divertir, contou coisas engraçadas e recomendou que eu ouvisse música árabe quando estiver nervoso. "Tem me acalmado", disse ele.

Meu temor é o mesmo de muitos dos meus amigos, a maioria girando em torno dos 40 e, portanto, com pais acima dos 60 ou avós com mais de 70. É o caso de Talyta, que está na festa, mas preocupada com Zazá, a avó de 80 anos que ela vê com frequência, mas agora não pode visitar. Ou Michelli, cuja matriarca da família oriental, chamada por todos de Batian (avó, em japonês) tem 90. Constança tem três médicos na família, mas está aliviada pois a mãe atende em consultório, e está isolada em casa, o pai é aposentado e a irmã está de licença maternidade. Além disso, eles moram em Volta Redonda, no Rio, onde não há nenhum caso registrado.

Uma hora e pouquinho de festa

Minha primeira e única taça de vinho vai acabando. A conversa pelo aplicativo é mais útil para reuniões. Animou meu aniversário, mas não dá para aguentar muito tempo. De repente, todo mundo está em silêncio. Brinco que acho que é hora de colocar a vassoura atrás da porta — mandinga para expulsar visitas de casa, conhece? — para encerrar a festa. Todo mundo ri, concorda, se despede e desliga a chamada. Minutos depois, começam a pipocar as fotos da festa no WhatsApp e nos stories. E algumas pessoas que não foram convidadas reclamam de terem sido esquecidas — essa parte nada tem de diferente dos meus aniversários anteriores.

A festa, de verdade, ainda não tem data para acontecer, mas é certa. Confiante de que vamos sair dessa, todos que me escreveram hoje, apesar do tom pesaroso pela situação atual, se mostraram muito mais afetuosos e com intenção de não deixar mais a rotina nos afastar. Ninguém sabe quando tudo vai se normalizar, se algum de nós vai adoecer, morrer, perder alguém querido.

Dia 19 de março é dia de São José. Acendi uma vela para ele. Estava tão atordoado de manhã que não sabia bem o que pedir. Pareceu-me presunçoso achar que um desejo meu livraria o planeta da pandemia causada pelo coronavírus, mas egoísta rezar para salvar (só?) a mim e aos meus queridos. Abracei a imagem que tenho em casa por uns instantes, quieto. À noite, depois da festa e escrevendo este texto, estava bem mais calmo.

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