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Violência contra a mulher

Delegado é indiciado por duplo feminicídio; mãe e filha morreram abraçadas

Escrivã Maritza Guimarães de Souza, 41, e a filha dela foram mortas a tiros em Curitiba; marido assumiu a autoria - Arquivo pessoal
Escrivã Maritza Guimarães de Souza, 41, e a filha dela foram mortas a tiros em Curitiba; marido assumiu a autoria Imagem: Arquivo pessoal

Hygino Vasconcellos

Colaboração para Universa, em Porto Alegre

16/03/2020 14h07Atualizada em 16/03/2020 17h42

Uma discussão de mais de três horas entre o delegado de polícia Érik Wermelinger Busetti, 45 anos, e a mulher, a escrivã Maritza Guimarães de Souza, 41, antecedeu a morte dela e da filha Ana Carolina de Souza Holz, 16. O crime aconteceu na madrugada de 5 de março em um condomínio em Curitiba. O inquérito foi concluído hoje e o delegado foi indiciado por duplo feminicídio.

Para esclarecer o crime, os investigadores analisaram imagens de câmeras do circuito interno da casa de dois andares - que não foram disponibilizados à imprensa. Na gravação, Maritza é vista arrumando as malas no closet do quarto, segundo detalhou a delegada Camila Cecconello, responsável pela investigação. Por volta da meia-noite, quando a briga ficou mais acirrada com o delegado, a escrivã pegou a bolsa e desceu do segundo para o primeiro andar em direção à porta de saída. Neste momento, a adolescente abriu a porta do seu quarto e começou uma discussão com o padrasto.

"No que a Ana Carolina abre a porta do quarto, o suspeito começa a discutir com ela e acaba entrando no quarto da enteada e desferindo um chute e tapas no corpo da Ana Carolina. Na sequência, ele sai do quarto e a Ana Carolina vai atrás dele, pendurando-se no corpo dele, quando ele está de costas", observa a delegada.

A escrivã, que já estava na porta de saída, ouviu o barulho da discussão e voltou para o interior da casa. As câmeras não gravaram a briga, que ocorreu em um ponto cego do sistema de monitoramento. "Não dá para ver o que acontece, mas uma questão de dois, três segundos a gente já vê a arma sendo disparada e a Maritza e a Ana Carolina caindo abraçadas até atingir o solo", diz Camila.

Para a delegada, Maritza foi defender a filha. "Ela se coloca no meio da discussão. E a gente percebe que, até o momento em que o Érik está agredindo a adolescente, ele está com a camiseta íntegra. Logo depois, quando ele efetua os disparos, já dá para perceber que ele está com a camiseta rasgada. Ou seja, indícios que houve uma luta corporal entre os três ou entre o suspeito e uma das vítimas."

A escrivã foi atingida por sete tiros enquanto a filha dela recebeu seis disparos, segundo laudo da necropsia. "A gente acredita, até pela quantidade de munições encontradas no carregador da pistola que uma ou duas munições tenham atingido as duas vítimas." O delegado utilizou uma pistola 380, da Polícia Civil. Após o crime, ele pegou a filha de 9 anos do casal e levou até a casa de uma vizinha, onde confessou o crime e pediu para a Polícia Militar ser acionada.

O casal estava junto desde 2007 e ambos entraram na corporação em um concurso público de 2004. Há um ano, Érik e Maritza estavam em processo de separação, mas continuavam morando juntos. No dia do crime, a escrivã mandou uma mensagem para uma advogada de família com a intenção de se separar do delegado já que a situação estava "insustentável", segundo a delegada.

O delegado vai responder por duplo feminicídio, com aumento de pena por o crime ter ocorrido na frente da filha de 9 anos. A criança estava dormindo no momento do crime e acordou com o barulho dos disparos.

"Vamos explicar", diz defesa

Procurado pela reportagem, o advogado Cláudio Dalledone, que defende o delegado, disse que recebe o indiciamento com "absoluta tranquilidade" e que na fase de audiências deve explicar o que aconteceu.

"Iremos explicar toda aquela cena, interpretar as imagens. Tudo foi filmado em vídeo. Vamos explicar por que o copo transbordou. Houve rapto emocional dele: acabou assassinando a mulher amada, a enteada amada, que tratava sem distinção em relação a outra criança. Esse homem está num caminho muito difícil", afirmou.

Questionado por Universa se iria ingressar com pedido de liberdade provisória, Dalledone disse que não iria se manifestar.

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