PUBLICIDADE

Topo

Ela sofreu gordofobia, assédio, dormiu na rua e hoje é atriz internacional

Atriz Carolla Parmejano estreia este mês no filme "Solteira Quase Surtando" - Duvier Poviones/Divulgação
Atriz Carolla Parmejano estreia este mês no filme "Solteira Quase Surtando" Imagem: Duvier Poviones/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

10/03/2020 04h00

A paulistana de Santo Amaro Carolla Parmejano passou a infância e a adolescência tentando ser atriz, mas os 85 quilos e as espinhas no rosto chamavam mais atenção das agências que procurava que o seu talento. Quase desistiu da carreira, mas mudou-se para os EUA e lá, quando surgiu uma oportunidade, anos mais tarde, ouviu de um diretor que ela precisaria transar com alguém para conseguir o papel numa série. "Ele é até famoso, foi citado pela atriz Salma Hayek quando surgiu o movimento #Metoo", Carolla conta, referindo-se à atriz mexicana que também denunciou Harvey Weinstein de assédio.

Depois de passar dias dormindo na rua, de trabalhar em restaurante e como babá e de viver ilegalmente quase seis anos em Miami, a atriz retorna ao Brasil aos 33 anos com a comédia "Solteira Quase Surtando", dirigida por Caco Souza e estrelada por Mina Nercessian, Rafael Infante e Stepan Nercessian. A estreia do longa está marcada para o próximo da 12.

Aqui ela conta como deu a volta por cima:

"Nunca pensei em ser outra coisa além de atriz. Estudei numa renomada escola de teatro em São Paulo, mas era gordinha e tinha espinhas. Fui rejeitada por cinco agências. Diziam que não trabalhavam com meninas acima do peso ou que já tinham alguém do meu biótipo. Preocupados com meu sofrimento, meus pais tentaram me fazer desistir da ideia.

Eu emagreci com o tempo, mas porque decidi levar uma vida saudável, com exercícios e me respeitando. Não tenho pressão para ser magra e nos EUA percebo que há alguns anos estão mais preocupados com a atuação, e não com o biótipo. Mas quando cheguei lá, há 13 anos, ouvi: 'Se quiser entrar na agência tem que pesar tanto, e sua medida é essa'.

Assédio escancarado

Preconceito mesmo foi o machismo. Antes mesmo do movimento #Metoo, fui fazer um teste para uma série, com um diretor conhecido. E ele mandou na lata: 'Sabemos que você é uma boa atriz, mas pra passar [para o elenco] vai ter que dormir com tal pessoa'. Fiquei chocada, recusei e ele apenas falou: 'Tenha um bom dia'. Tempos depois, a Salma Hayek falou dele numa entrevista. Não pensei em denunciar porque tem mais nomes de peso falando sobre isso, mas um dia eu conto.

Logo após o movimento #Metoo, percebi que as atrizes estão preocupadas em pedir a presença de mulheres nos testes. E denunciando mais também.

Eu decidi ir para os EUA porque estudei dois períodos de Publicidade na faculdade e não estava feliz. Nessa mesma época, perdi minha avó, depois uma amiga para o câncer e fui assaltada. Uma tia me chamou para trabalhar em seu restaurante, em Nova York, e aceitei sair desse caos, aos 19 anos.

Trabalhei da limpeza ao caixa de mercado para pagar a escola de teatro, mas ali não conseguia nada por causa do sotaque. Uma outra tia deu a ideia de tentar atuar em Miami, por causa do Telemundo, que é uma grande produtora de língua espanhola, e eu poderia conseguir mais papeis latinos.

Chegando lá, fiquei num hotel por um tempo até me estabilizar, mas o dinheiro acabou. Consegui um quarto, mas só podia entrar nele três dias depois de fechar a vaga nesse hotel. Então passava o dia trabalhando como babá, à noite num restaurante e, de madrugada, ficava na calçada dormindo. Meus pais nem souberam disso. Quando ligava pedindo ajuda financeira, eles falavam que só mandariam dinheiro se fosse pra pagar a passagem de volta. Mas voltar pro país que só me rejeitou não dava.

Carolla Parmejano também estará no terror "Malady", dirigido por Frank Visciglia - Kara Marie Trombetta/KMB Studio/Divulgação
Carolla Parmejano também estará no terror "Malady", dirigido por Frank Visciglia
Imagem: Kara Marie Trombetta/KMB Studio/Divulgação

Trabalho de graça

Quando me acertei num canto, comecei a visitar agências e meu português chamou atenção, mas me mandaram estudar espanhol. Mergulhei em cursos e em 2010 consegui uma oportunidade numa novela, como figurante, mas logo os papéis apareceram. Também passei a atuar com dublagem. Mesmo à essa altura, meus pais ainda perguntavam quando eu ia arrumar um emprego de verdade.

Fiquei ilegal por seis anos nos EUA, e por causa disso não ganhei nada com esses primeiros trabalhos: não podiam me pagar em dinheiro e eu não tinha conta em banco. Lembro que sugeri um contrato para uma agência, abrindo mão do pagamento. Mas, na verdade, estava ganhando em experiência e contatos. Imagine o que significava trabalhar no Telemundo sendo uma imigrante ilegal.

Casei com um cubano e conseguimos o Green Card [autorização permanente para residência nos EUA]. Separei em 2013 e depois conheci um israelense, com quem estou casada há mais de um ano. Foi a partir daí que comecei a dar uma respirada. Consegui comprar um apartamento em Los Angeles, onde moro hoje. Fiz ainda a novela colombiana "Chica Vampiro", exibida no canal Gloob, um clipe da cantora Jennifer Lopez, o filme "Beyond the Life", exibido em Cannes, e fui deslanchando.

Filme brasileiro e orgulho dos pais

O "Solteira Quase Surtando" veio de um convite da produtora do filme, Meire Fernandes, que eu já conhecia. Vim ao Brasil em 2015 e gravei no Rio de Janeiro por três dias. Em outubro, estreio outro filme, um terror chamado "Malady", dirigido por Frank Visciglia e com Paulo Nigro. Hoje meus pais têm muito orgulho. Já até os levei para uma gravação. Entendo que eles só queriam o meu bem.

Até voltaria a morar no Brasil se realmente tivesse um projeto. A vida não está ganha. É uma luta diária conseguir um teste. Sei que a cultura, no Brasil, não vive seu melhor momento e dá bastante medo, mas o mundo precisa de cultura e isso jamais vai morrer. Sempre haverá entretenimento."

Minha história