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Professora vai à polícia contra mercado que a acusou de furto: "Racismo"

Lucimar Rosa Dias - Arquivo pessoal
Lucimar Rosa Dias Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Ponta Grossa (PR)

09/03/2020 16h38

Uma professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) registrou anteontem um boletim de ocorrências na Polícia Civil por racismo contra um estabelecimento no Centro de Curitiba. Lucimar Rosa Dias, de 53 anos, relatou ter sido acusada de furto ao sair do Emporium Rei do Queijo com uma sacola ecológica própria com os produtos adquiridos.

Três seguranças da empresa abordaram a professora duas quadras depois e informaram que um cliente a teria visto praticando furto, fato supostamente confirmado por imagens de câmeras de segurança. Os funcionários ainda ameaçaram acionar a Guarda Municipal caso não ela retornasse ao estabelecimento para pagar ou devolver os produtos.

Segundo Lucimar, os seguranças não disseram quais seriam os produtos e desconsideraram o cupom fiscal apresentado por ela comprovando o pagamento de cada item na sacola. No estabelecimento, os funcionários também não apontaram qual cliente denunciou o furto nem mostraram as supostas imagens. Ao perceber o racismo, o gerente se desculpou.

"Indignada, dirigi-me à loja para reclamar junto à gerência sobre o tipo de procedimento adotado pela empresa. Lá não me foi apresentado prova de suposto roubo, testemunhas ou vídeos, como alegado pelo funcionário. Ao alertá-los que o que estava acontecendo ali era crime de racismo, o gerente tentou amenizar a situação dizendo que os donos do estabelecimento eram 'morenos', momento em que tentei explicar que este tipo de subterfúgio é largamente utilizado em situações de racismo", disse Lucimar ao UOL.

Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Lucimar coordenou até 2019 o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR. No dia anterior ao caso de racismo, ela recebeu uma homenagem na Câmara Municipal de Curitiba em alusão do Dia Internacional da Mulher em razão dos serviços científicos realizados sobre a temática.

A professora avalia a atitude dos seguranças como racista e como perseguição por ser uma mulher negra, pois suas "colegas brancas frequentam o mesmo mercado e nunca tiveram problema" com o uso das sacolas ecológicas.

Eu sou uma mulher negra e neste dia eu fui comprar neste estabelecimento me utilizando de sacola tipo ecobag, atitude comum entre minhas colegas brancas que frequentam o mesmo mercado e nunca tiveram problema, porém o fato de uma mulher negra se utilizar desse tipo de sacola foi interpretado pelo estabelecimento como uma atitude criminosa: 'eu só poderia estar roubando'. Mesmo tendo passado pelo caixa e pago as compras, fui perseguida, humilhada e interpelada.

Empresa diz apurar o fato

Em nota, o Emporium Rei do Queijo afirmou hoje que a "empresa não compactua e jamais compactuou com qualquer tipo de preconceito e/ou discriminação, jamais tendo qualquer situação semelhante ao longo de 21 anos de atividade, repudiando veementemente qualquer atitude neste sentido".

Sobre o caso em específico, o estabelecimento garante que apura as circunstâncias com os funcionários para "municiar as autoridades competentes para que se esclareçam todos os fatos". Além disso, a empresa argumentou que seus proprietários e os funcionários envolvidos são afrodescendentes.

"Todos os funcionários são dotados de treinamentos e orientações para gerir situações suspeitas envolvendo qualquer cliente. Entretanto, caso seja comprovada qualquer atitude que não tenha seguido os procedimentos e orientações da empesa, serão tomadas as medidas com os envolvidos, visando manter o relacionamento excepcional com seus clientes nutrido ao longo dos anos", completou a empresa.

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