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Mais seguidores, oferta polpuda: a vida de Mariana Ferrão e outras ex-Globo

Mariana Ferrão, depois do "Bem-Estar", negou proposta de R$ 1 milhão de uma empresa que não tinha a ver com seus valores - Divulgação
Mariana Ferrão, depois do "Bem-Estar", negou proposta de R$ 1 milhão de uma empresa que não tinha a ver com seus valores Imagem: Divulgação

Ricky Hiraoka

Colaboração para Universa

08/03/2020 04h00

Por muitos anos, elas estiveram na tela do principal canal aberto do Brasil. Eram reconhecidas como profissionais gabaritadas, ocupavam cargos desejados, tinham estabilidade e prestígio. Apesar de tudo isso, optaram por aposentar o título de "apresentadora global" para recomeçar longe dos holofotes e tocar projetos pessoais que têm a ver com o propósito de vida que descobriram.

Nos depoimentos abaixo, Mariana Ferrão, ex-âncora do "Bem-Estar", Millena Machado, que comandava o programa esportivo "AutoEsporte", e Fabiana Scaranzi, jornalista que fez carreira em noticiários da Globo e teve passagem pela Record, relatam por que e como deram uma guinada em suas trajetórias.

"Falavam da coragem, mas estava morrendo de medo"

"A frase que mais ouvi quando disse que ia sair da Globo foi: 'Como queria ter sua coragem!' Mal sabiam as pessoas que tudo que eu sentia naquele momento era medo. Tomei a decisão de seguir um caminho próprio quase que no impulso. Já estava insatisfeita no 'Bem-Estar' porque o programa, que nasceu com a proposta de falar de saúde, cada dia mais tratava apenas de doença.

Um dia, mediando um debate com uma psicóloga, uma menina na plateia perguntou como ela fazia para ser ela mesma. Achei aquele questionamento tão curioso que repliquei essa dúvida para meus seguidores no Instagram. Mais de 5 mil pessoas me responderam falando que não sabiam como ser elas mesmas. Percebi que autoconhecimento poderia ser um negócio — mas como criar uma empresa sem a clareza do que desejava?

Comecei a fazer vários cursos para me entender e me conectar comigo mesmo. Isso me fez ver que queria trabalhar novamente com saúde. Em paralelo ao trabalho da TV, nasceu assim a ideia da Soul.Me, uma plataforma digital de conteúdo com foco em qualidade e bem-estar físico e mental.

Meu contrato estava para ser renovado e, se assinasse novamente com a emissora, teria que ficar lá por mais dois anos.

Decidi pedir demissão sem qualquer planejamento financeiro. Não recomendo isso a ninguém.

Foram literalmente noites sem dormir porque não sabia como pagar as contas nos meses seguintes. Tinha medo de minha empresa dar errado, medo de as pessoas não gostarem mais de mim, de não me reconhecerem mais nas ruas.

Fui sendo chamada para dar palestras e isso foi equilibrando minhas finanças e me acalmando. Percebi que quando você cria uma carreira em bases sólidas, as coisas acontecem. Mas, mesmo com tudo fluindo bem, esse processo de reinvenção é muito difícil.

Empreendendo tive que definir meus valores e educar meus clientes para respeitá-los. Se você não tem claro em mente quem você é e como deseja atuar, aceita qualquer oferta. Autoconhecimento é fundamental para quem deseja promover mudanças profissionais e impor limites. Aprendi que quando você está por você, qualquer atitude tem uma consequência direta em sua imagem. Por isso, ano passado, recusei uma proposta de R$ 1 milhão feita por uma empresa que não tem a ver com o que acredito.

Nessa jornada de quase um ano como empresária, outro ensinamento foi lidar com a frustração.

Muita coisa deu errado, fiz escolhas equivocadas por falta de conhecimento, perdi tempo e dinheiro, mas fui ficando cada dia mais humilde.

Tive que aprender a não repassar a pressão para meus dez funcionários e a lidar com a solidão, pois, no fim do dia, você faz escolhas sem poder compartilhar o ônus.

Não sinto falta de ter a visibilidade da Globo. Mas confesso que estar numa empresa em que todos os processos estão azeitados é infinitamente menos estressante. Eu tinha uma vida mais confortável e com menos responsabilidades, mas hoje sou mais feliz."

Mariana Ferrão, ex-apresentadora do "Bem Estar"

"Meus seguidores dobraram depois que saí da TV"

Foto: Márcio Amaral; beleza: Carlos Pompeio
Imagem: Foto: Márcio Amaral; beleza: Carlos Pompeio

"Fiquei por oito anos à frente do 'AutoEsporte'. O programa ia bem de audiência, dávamos 10, 11 pontos de média às nove da manhã aos domingos — é muita coisa. Mas sentia que precisava me reinventar e me planejei para dar esse passo.

Encomendei ao Ibope uma pesquisa para saber como os telespectadores me viam. Gastei uma nota. Paguei em cinco vezes para me dar esse luxo.

O estudo mostrou que o público me relacionava a um conteúdo mais família. Com essa informação em mãos, comecei a criar projetos autorais e conversei com as chefias sobre expandir minha atuação na TV. Coincidentemente, uma prima minha com deficiência auditiva, na mesma época tinha postado no Linkedin que estava desempregada. Aquilo mexeu comigo e criei uma campanha chamada #SurdoEhQuemFala para conscientizar as pessoas sobre a importância da inserção dos surdos na sociedade. Tudo isso foi 2 anos antes da minha saída do programa.

Essa história tomou uma proporção inimaginável e comecei a estruturar outro projeto ligado à mesma causa: a Semana de Acessibilidade Surda, um evento para incentivar que as empresas e os empregadores estejam abertos a dar oportunidades de trabalho para pessoas com problemas auditivos. Me meti nessa por paixão à causa. Não tinha noção de como colocar um evento de pé, como contratar fornecedor, controlar fluxo de caixa ou negociar patrocínio.

Não imaginava que a reinvenção que tanto buscava surgiria por causa da empatia.

A Semana da Acessibilidade Surda e a campanha #SurdoEhQuemFala foram tão bem recebidas pelo mercado que viraram negócios. Eu não me sustento com esses projetos, ainda faço jobs como jornalista para me bancar, mas, com muito esforço, consegui que eles próprios se tornassem sustentáveis.

Já tive dois convites para levar a Semana de Acessibilidade Surda para fora do Brasil: um da Espanha e outro de Portugal. Também criei um projeto de programa de TV feito por deficientes auditivos e direcionado aos deficientes auditivos. Estou negociando com um player para tirar essa ideia do papel.

Minha vida de empresária vai bem. Me sinto útil com o trabalho que tenho feito em prol dos surdos. Fora da TV, vi meu número de seguidores no Instagram dobrar. Isso ocorreu porque passei a ter liberdade de postar a respeito de outros temas que não só automobilismo.

O melhor de se reinventar fora de uma grande empresa é a liberdade que você tem de planejar sua carreira. Quando você está dentro de um grande grupo, você pertence a um núcleo. Há expectativas de diretores e, por mais que você tenha clareza de onde quer chegar, você não necessariamente será promovida, porque há outros interesses envolvidos."

Millena Machado, ex-apresentadora do "AutoEsporte"

Missão: acolhimento feminino

Divulgação
Imagem: Divulgação

"Tenho a necessidade de me reinventar. Antes de chegar aos telejornais da Globo, onde estive por dez anos, fui modelo, trabalhei como publicitária e até fiz uma novela das sete, 'Perigosas Peruas' (1992). Quando a Record me chamou para apresentar o 'Domingo Espetacular', em 2008, já estava com vontade de mudar de ares e achei que essa era a renovação que precisava.

Estava errada. Embora gostasse do meu emprego, o que eu fazia não me satisfazia 100%. Um dia, senti uma dor fortíssima no abdômen e fui parar na emergência.

Eu estava com uma úlcera aberta no duodeno. Provavelmente, a causa era estresse. O trabalho me consumia sem que eu notasse.

Ou mudava de vida ou ficaria com a saúde debilitada. Abandonar a TV estava fora de cogitação. Gozava de uma posição privilegiada, as pessoas me viam como uma mulher bem-sucedida, era reconhecida nacionalmente, ganhava um salário muito bom. Como ia deixar tudo para trás?

Chorei muito sem saber o que fazer. Tentei me realocar dentro da Record. Quis apresentar um programa feminino, mas a direção negou minha sugestão. Aí, me vi obrigada a escolher entre minha saúde e minha a carreira. Optei pela primeira.

Como ainda tinha um ano e meio de contrato, consegui me planejar para fazer essa transição profissional. Não sabia bem o que queria fazer, mas tinha claro que queria trabalhar com mulheres. Tem um monte de gente dizendo para as pessoas largarem os empregos estáveis para se dedicarem a uma atividade que as fazem felizes.

Se você quer mudar de carreira, meu conselho é que você comece a estruturar seu plano B enquanto ainda está no plano A, pois só assim vai conseguir se organizar financeiramente e emocionalmente para essa virada de mesa, que não será fácil e trará muitas incertezas.

Quando saí da Record, já tinha estudado bastante o mundo digital, criei um portal com meu nome e estava para lançar um livro. Imaginei que minha vida dali pra frente seria produzir conteúdo na web, fazer palestras, ser mestre de cerimônias em convenções.

Mas meu contato intenso com o mercado publicitário e com outras empreendedoras me fez perceber que havia um nicho a ser explorado. Meu lado empresária floresceu.

Após conhecer um CEO de uma rede de coworkings, propus a ele que abríssemos uma unidade dedicada apenas a mulheres. Insisti por seis meses até fecharmos esse negócio. Hoje, tenho o Spaces by Fabiana Scaranzi. Nesse local, além de locar salas para mulheres de diferentes segmentos, promovo cursos para capacitar mão de obra feminina, alugo o espaço para marcas promoverem eventos, dou mentoria para duas diretoras de marketing para elas repensarem suas trajetórias.

Diversifiquei minhas atividades dentro de um ecossistema que se retroalimenta e lucro de formas diferentes. Todos os produtos que criei têm uma relação entre eles. Recentemente, lancei um curso online para ensinar profissionais de diferentes áreas a se comunicarem com autoconfiança e quero pensar em mais produtos que ajudem profissionalmente o público feminino.

Sinto falta de trabalhar na TV, mas descobri um ideal que me move e que considero minha missão: acolher e capacitar mulheres."

Fabiana Scaranzi, ex-apresentadora do "Domingo Espetacular" e ex-jornalista da Globo

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