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Cristão, ele coordena "departamento mais gay" da prefeitura de Crivella

Coordenador de diversidade sexual de Crivella, Nélio Georgini (foto) é gay e presbiteriano - Divulgação
Coordenador de diversidade sexual de Crivella, Nélio Georgini (foto) é gay e presbiteriano Imagem: Divulgação

Marcos Candido

De Universa

06/03/2020 04h00

"Vem conhecer o departamento mais gay da Prefeitura do Rio. Tudo colorido, uma sala belíssima!", convida Nélio Georgini ao telefone em entrevista a Universa. Desde 2017, Nélio é chefe da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro. Por lá transitam ativistas e associações LGBTs, funcionários gays, trans e núcleos de partidos à esquerda.

Quem não aparece muito no local é o prefeito Marcelo Crivella, conta Nélio. Quando Crivella tornou-se prefeito, Nélio foi convidado por telefone para chefiar a pasta criada em 2011.

Quando o coordenador foi chamado na Bienal do Livro no Rio, para abrir diálogo e tentar conter a repercussão negativa da censura do prefeito ao beijo gay em uma publicação, Nélio deu entrevista para a revista Época: "Sou gay e sou atingido se a diversidade é atingida", afirmou ele em meio às críticas ao prefeito. A Universa, ele lembra: "Eu, gay, sei a dor que sinto quando uma força estatal ou privada interfere na minha vida".

Divergentes nessa questão, os dois têm pontos em comum. O primeiro deles é que são cristãos. Por influência do marido, Nélio é presbiteriano. Outra característica partilhada com o prefeito é a tendência de ficar cada um no seu canto.

Assim, aos poucos, Nélio avançou no seu trabalho. A coordenadoria ajudou a promover a inclusão de nome social no atendimento da prefeitura, a elaborar o atendimento às mulheres trans na Delegacia da Mulher e a incluir denúncias LGBTfóbicas no telefone de denúncias da prefeitura.

Na terça de Carnaval, o gabinete de Diversidade fez uma vaquinha com funcionários para criar um bandeirão LGBT. A peça foi levada a um bloco com a mesma temática no centro do Rio. Junto às cores, o grupo mandou costurar o símbolo da Prefeitura do Rio. Crivella não se pronunciou. "Eu não pergunto, e ele não fala. Sou de respeitar a vontade de falar e o espaço dos outros", diz. A seguir, a entrevista com Nélio para a Universa:

Como você se tornou coordenador de Diversidade na prefeitura de Crivella e o que ele esperava da coordenadoria?

O prefeito conversou comigo por telefone assim que assumiu a prefeitura, em 2017. Eu elaborei um projeto pedagógico e enviei ao senador Eduardo Lopes (Republicanos). O senador me chamou para conversar e coordenar o grupo de educação do Republicanos. Crivella me conheceu no partido [fundado pelo prefeito] e me disse, ao telefone: 'Acho que tenho uma vaga aqui para você'.

Nunca fui de partido, mas topei e abri diálogo com sindicatos de educação, pois sabe como é. Sou professor e, não tem jeito, é tudo bem à esquerda. Com Crivella, nunca tive uma conversa pessoalmente em que ele me disse o que fazer. Eu converso com movimentos sociais, governo estadual, municipal e União. Com ele, divido relatórios de gestão.

O prefeito mandou censurar um quadrinho de um beijo entre dois personagens masculinos durante a Bienal. Isso não te incomodou?

Eu até postei a foto no meu Facebook! Na época, disse que tinha que respeitar a opinião do chefe do Executivo, mas que não seguiria por esse caminho. Mas não espera de mim, como padrão, não entregar um serviço. Sou da zona norte, subúrbio do Rio, e paguei por meus estudos. Foi meu mérito. O Estado, para mim, não pode adentrar ao meu querer, ao meu desejo e aos meus espaços. É o que está na Constituição. Eu, gay, sei a dor que sinto quando uma força estatal ou privada interfere na minha vida. Vou dizer o que já falei em outras entrevistas. Eu tenho uma carreira. Esse é meu trabalho agora. Não vai ser nem o primeiro, nem o último. Vou fazer meu trabalho como acho correto.

Bloco no Rio teve bandeirão LGBT com símbolo da Prefeitura - Manoela Mendes/Divulgação - Manoela Mendes/Divulgação
Bloco no Rio teve bandeirão LGBT com símbolo da Prefeitura
Imagem: Manoela Mendes/Divulgação

Como você compreendeu sua orientação sexual?

Minha irmã me enviou uma foto de mim quando criança, no Carnaval. Eu sempre fui assim. Nasci na década de 80, uma sociedade com todo um normativismo na vida das pessoas. A minha infância e adolescência não foram tão fáceis. Então, foquei em estudar muito. Quando terminei a faculdade, um amigo me pegou pela mão e me fez entender o que eu sentia. Conheci muita gente que me mostrou que é possível ser feliz.

Você também é presbiteriano. Como você compreende a fé e como a orientação não entra em conflito com a doutrina?

Depois que casei, em 2015, meu marido era presbiteriano. Minha relação com a fé é muito minha. A minha religião é a minha religião, meu trabalho é meu trabalho. A minha crença, tal como a de candomblecistas, evangélicos ou católicos, a meu ver, para a gestão pública, deve ser colocado no espaço pessoal. Entendo a questão conflitante, mas sou um cara da paz e sigo meu caminho de fé. Convivo com meu pai, por exemplo, candomblecistas. Tenho amigos de vários matizes. Pessoas de direitos humanos precisam conviver com todos.

No Carnaval, a coordenadoria elaborou uma bandeira LGBT para ser levada em um bloco. A prefeitura não financiou e vocês fizeram por conta própria. Por quê?

Teríamos que ter feito um pedido à Casa Civil com 90 dias de antecedência. Quando fizemos a impressão de um boletim de crimes contra LGBTs no Rio, eles financiaram. Mas, desta vez, fomos convidados e não tínhamos como seguir o prazo. A gente se organizou internamente, e então comprou. Não temos verba própria. Zero. Se precisamos fazer um evento, não podemos contratar uma empresa especializada.

A bandeira tinha o símbolo da prefeitura. O que o prefeito achou?

Eu estudei muita argumentação, mas não sou uma pessoa de perguntar. Sou assim com meus funcionários: se estiverem confortáveis, falem comigo em seus próprios tempos. Sou desse jeito. Eu fiz a bandeira e acabou.

Se gostou ou não, que fale. Vai me exonerar? [Se for o caso] Vai ser o que tem para hoje. É isso. Fui contratado para atender a uma população que espera isso de mim.

Mas também não sou duro com outro porque quero que as pessoas sejam carinhosas entre si, mesmo quando estou enervado.

O que te deixa enervado?

Eu fico enervado quando algum macho dá em cima do meu marido! (risos). Também me enervo quando desrespeitam meu espaço. Até eu e meu marido temos carros separados. Ai, querido, entendeu? Também me enervo quando interferem no meu profissionalismo. Aí, fico enervado e digo: escuta, estou apresentando, meus relatórios, não quero escutar! Me perguntam: ai, não sei o quê, o Crivella. Ele tem o espaço dele, eu tenho o meu, querido!

Você disse que manteve contato com siglas à esquerda, como representantes do PSOL e PT. Como é seu relacionamento com partidos mais à direita?

Sabe o PMDB? Eles têm núcleo de diversidade. Mas assim, quando tem eventos? Tu, tu, tu [imita voz de ligação perdida]. O que posso dizer é que seria muito leviano dizer sobre núcleos de diversidade à direita. Como vim da área de educação, eu fico com a galera que eu posso. Ô, bicha, tem como ser diferente, quem veio da educação, do direito? Então, não sei. Se eu te mandar uma foto de hoje, estou com um terninho vermelho cor de sangue, bicha. As minhas amigas são todas travestis. A gestão é uma coisa. Meu coração, não posso negar. Gosto de boteco, pensadores.

Mas não tem medo de ser exonerado por Crivella por esse posicionamento?

Ele foi ministro do PT [de 2012 a 2014, durante o governo de Dilma Rousseff].

Mas ele é representante de uma pauta mais conservadora e ligada a temas religiosos.

Eu posso respeitar e ser respeitado também. Mas a minha galera é a minha galera. A minha galera é a do Amarelinho [bar carioca no centro]. Então, entende. Se você olhar as minhas falas, é isso.