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Casamento às cegas: é possível amar em poucos dias, como no reality?

Lauren, de Casamento às Cegas, ficou noiva quatro dias depois de conhecer o futuro esposo - Reprodução / Netflix
Lauren, de Casamento às Cegas, ficou noiva quatro dias depois de conhecer o futuro esposo Imagem: Reprodução / Netflix

Ana Bardella

De Universa

02/03/2020 04h00

Há poucos dias foi divulgado pela Netflix o último episódio do reality norte-americano Casamento às Cegas. Sob a premissa de unir as pessoas "pelo que elas realmente são" e não somente pela aparência, o programa reune 15 homens e 15 mulheres a fim de se conhecerem através de cabines individuais. Nelas, os participantes podem conversar uns com os outros separados por uma parede. Ou seja, devem encontrar pontos em comum com os potenciais parceiros amorosos através do diálogo e não julgá-los de primeira pela imagem.

Mas não é por acaso que o programa está deixando o público dividido. Se acharem que a relação pode engatar, os casais devem sair das cabines com o casamento marcado para dali a poucas semanas. Só então estão liberados para encontrarem com seus noivos.

Na segunda etapa, os pombinhos viajam juntos. Depois, conhecem a família um do outro e fazem um experimento: morar na mesma casa por alguns dias para testar como será a convivência. Por fim, se não desistirem no meio do caminho, é marcada a cerimônia de celebração da união.

Um dos aspectos que mais chama a atenção é rapidez com que tudo acontece. O primeiro casal formado no reality, Lauren e Cameron, por exemplo, trocou juras de amor já no quarto dia de programa. Como eles, muitos fizeram promessas sobre o futuro e até planos de terem filhos antes mesmo de saírem da etapa das cabines.

A seguir, psicólogos analisam o comportamento dos participantes e traçam paralelos com a forma como nos relacionamos nos tempos atuais.

Não é possível amar em pouco tempo

Há quem diga que o amor acontece à primeira vista ou, no caso do reality, à primeira conversa. Mas os profissionais ouvidos pela reportagem discordam da teoria. "É possível, sim, se empolgar com alguém e até se apaixonar no primeiro contato, ainda que ele não tenha acontecido pessoalmente. Mas paixão tem data para acabar. E é quando ela termina que o casal experimenta de verdade o amor", defende a psicóloga Adriana Severine.

O amor, ela explica, é um sentimento mais calmo e duradouro. "Ele é baseado naquilo que o outro realmente é e não no que se espera que ele seja. Por isso só pode acontecer quando se conhece verdadeiramente os defeitos e as qualidades do parceiro", diz.

Julgar pela imagem é uma característica das novas gerações?

No reality, os aplicativos de relacionamento são citados como exemplo de que as pessoas estão se baseando somente na imagem para tomar decisões com relação à vida amorosa, e que isso estaria afastando potenciais "alma gêmeas" umas das outras.

Na opinião de Adriana, esta é realmente uma marca da sociedade atual. "Pacientes já relataram em consultório que combinaram encontros através de aplicativos, chegaram ao local e perceberam que a pessoa em questão não era como imaginavam pelas fotos. Então foram embora sem dar uma chance para saber se o papo fluía, por exemplo".

Pollyana Esteves tem uma visão diferente sobre o assunto. "Com exceção das épocas mais antigas, em que a famílias escolhiam como seriam os matrimônios, o fator visual sempre foi importante na paquera. Hoje em dia, isso tem sido intensificado pelas redes sociais, nas quais as pessoas constroem uma imagem através das fotos. Porém, mesmo antes disso, a atração física já era o caminho inicial para que as relações se desenvolvessem", aponta.

Eu projeto, tu projetas, nós todos projetamos

Entre os participantes do reality, alguns garantem não criar expectativas sobre a aparência e o jeito de seus parceiros. Os psicólogos, no entanto, consideram a afirmação pouco provável. "Todos nós temos um modelo ideal de romance e inconscientemente buscamos por parceiros que se encaixem neste formato. Por isso, principalmente no início das relações, é comum usar a imaginação", ressalta Roberto Debski, médico e psicólogo.

Se a informação sobre alguém está faltando, é mais fácil completá-la na cabeça da forma como é mais conveniente para a relação do que conviver com a dúvida. Por esta razão, muitos podem se frustrar ao perceberem a forma como o outro se comporta ao longo do tempo. Em doses pequenas, é um processo natural e que acontece em praticamente todos os envolvimentos afetivos.

Casar rápido desse jeito é uma loucura?

"Não dá para julgar: duas pessoas que optaram por se casar depois de um curto período de tempo podem ser mais felizes do que um casal que levou anos para tomar a decisão", adianta Pollyana. No entanto, mesmo diante de uma paixão arrebatadora, ela não recomenda ir com tanta sede ao pote.

"Depois do casamento, a tendência é de que tudo se amplie: diante da convivência diária, os defeitos se tornam mais visíveis e as máscaras usadas no início do namoro, para tentar impressionar o parceiro, caem. Por isso corre menos risco de se decepcionar aqueles que conheceram a fundo seus futuros parceiros e que, mesmo ciente das suas pisadas de bola, são capazes de amá-los", garante.

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