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Álcool, vítimas de assédio e agressão: o trabalho de quem acolhe os foliões

Bloco Tarado Ni Você, que saiu no sábado de Carnaval no Centro de São Paulo  - Nelson Antoine/UOL
Bloco Tarado Ni Você, que saiu no sábado de Carnaval no Centro de São Paulo Imagem: Nelson Antoine/UOL

Laura Reif

Colaboração para Universa

24/02/2020 04h00

Quem está se divertindo nos bloquinhos do Carnaval paulistano provavelmente deve ter visto foliões com adesivos colados sobre as fantasias com frases como "Meu corpo, minhas regras" ou "Sambando na cara do machismo". Eles não foram parar ali à toa. As mensagens contra o assédio foram espalhadas pelos Anjos do Carnaval, voluntários que participam de uma ação realizada pela Prefeitura de São Paulo em parceria com o Catraca Livre. O objetivo, porém, vai além de divulgar as ideias.

A ação, que ocorreu no pré-Carnaval e vai se estender durante e após ele, enquanto 15 milhões de foliões curtem a festa, conta também com 20 tendas de acolhimento espalhadas pela cidade. Todas estão localizadas ao lado dos postos médicos nas regiões com maior circulação de gente, por onde passam os megablocos, que concentram mais de 40 mil pessoas.

Essas tendas atendem grupos vulneráveis, primordialmente mulheres, mas este ano a campanha se estende também a quem sofreu LGBTfobia e racismo. Universa acompanhou o sábado de Carnaval da tenda localizada na Praça da República, ponto de maior movimento do dia, por onde passaram blocos como Tarado Ni Você e Minhoqueens. Dez pessoas compareceram ao local buscando ajuda.

Um dia na tenda

Logo cedo, uma mulher de 21 anos apareceu com um carrinho de bebê e umas poucas sacolas com pertences pessoais. Ela havia chegado no Centro de São Paulo na noite anterior com o filho de cinco meses. De Santa Catarina, pretendia ir à Bahia, mas não tinha onde ficar e, ao se deparar com a multidão do Carnaval, não sabia para onde ir. Avistou a tenda e foi pedir ajuda.

As tendas de acolhimento contam com produtoras (da Secretaria Municipal da Cultura), os Anjos (voluntários e voluntárias do Catraca Livre), advogadas (designadas pela Comissão Estadual da Mulher Advogada e OAB), psicólogas e assistentes sociais (pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania).Todos estão preparados para acalmar, ouvir e orientar vítimas de violência.

Na tenda da República, a coordenadora de Políticas para Mulheres Ana Cristina de Souza entrou em contato com a Assistência Social da Prefeitura, mas o serviço não conseguiu chegar ao local por causa das vias fechadas no Carnaval.

"Providencialmente estamos aqui com a Guarda Civil Metropolitana. Precisamos tomar outra diretriz para remanejá-la para o serviço de acolhimento. A comandante Elza [Paulina de Souza, da GCM] disponibilizou uma viatura e conseguimos", explicou Ana. "Agora ela vai ser encaminhada para um serviço de acolhimento especializado para mulheres e crianças para ser inserida no serviço de proteção. Ela vai permanecer na Casa da Mulher Brasileira, que é nosso apoio, e lá serão feitos os outros encaminhamentos."

"A equipe só vai sair de perto dela quando for atendida, não deixa ela sozinha. Como primeira comandante mulher da guarda, me sinto muito honrada por esse trabalho. É o trabalho do meu coração", diz Elza.

Agressão e conversas

Em relação ao Carnaval do ano anterior, a ação ganhou mais estrutura. Ela teve início em 2019 com o Ônibus Lilás, unidade móvel para atendimento a mulheres vítimas de violência, que ficava estacionado onde megablocos passariam. O veículo contém salas para atendimento psicológico, wi-fi, informativos sobre violência contra a mulher, ISTs e guias de serviço da prefeitura para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Em 2020, além das tendas, o ônibus continua em ação, desta vez com um cartaz grande exibindo um "violentômetro", que explica diferentes graus de assédio. Este ano, ele se encontra na Praça da República.

Um caso de agressão chegou à tenda no sábado de Carnaval. Uma foliã foi agredida pelo irmão. Chorando e com o nariz visivelmente machucado, ela se abriu e contou que as agressões são recorrentes. O namorado a acompanhava no dia e não estava com ela na hora do atendimento.

A vítima disse que ele prefere não se intrometer para não causar problemas com a família e ela também nunca denunciou por medo de criar atritos. Ela foi orientada a conversar com o namorado sobre o assunto, pois apoio é fundamental para uma mulher em situação de violência, especialmente para realizar uma denúncia. Após se acalmar, porém, voltou para a folia.

Algumas horas depois ela retornou à tenda com o namorado, mas para buscar a tiara de flores que havia esquecido ali. Preocupada, a atendente que falou com ela foi entregar a tiara e recebeu um abraço da mulher, que demonstrava gratidão por ter sido ouvida. Conversar pareceu ser um bom remédio, mesmo em casos em que as vítimas não quiseram formalizar uma denúncia — e em outros também.

Uma mulher que estava passando mal buscou o local "só para conversar", pois havia bebido muito e estava ansiosa. Pouco tempo e alguns copos de água depois, já estava pronta para ir a outro bloco.

Abuso e menores

No fim de semana do pré-Carnaval, no mesmo local, foram realizados cerca de 50 atendimentos, sendo 10 casos de assédio. Um episódio que comoveu a equipe foi o de uma menina de 15 anos que sofreu abuso de um vendedor de bebidas alcoólicas durante a festa. Ela buscou ajuda na tenda do acolhimento, onde passou com psicóloga e advogada, que a orientaram a fazer um Boletim de Ocorrência.

Após muita conversa, elas tranquilizaram a menina, mas ela não quis fazer a denúncia porque já havia sofrido abuso em casa quando era mais nova e tinha medo de os pais não acreditarem.

Os menores de idade que passam pelo posto médico, normalmente por uso excessivo de bebidas alcoólicas e drogas, são encaminhados às tendas. Lá, as responsáveis cuidam e observam a situação, além de colocar uma pulseira de identificação neles.

Pais que estão na folia com as crianças também podem passar ali para pedir a pulseira e garantir a segurança dos filhos. Eles disponibilizam 5 mil pulseiras de identificação para evitar desaparecimentos, com espaço para inserção do nome da criança, idade, nome dos pais/responsáveis e ao menos um número de telefone para contato.

Prevenir em vez de remediar

Um menino de 15 anos foi levado à tenda sem condições de responder. Lá, ele passou mal, tomou água e recuperou-se após algumas horas. "Coloca tudo pra fora que é bom", brincou Nicolle Mahier, terceirizada pela Prefeitura para trabalhar no local. Ela é diretora comercial, travesti e militante, e chegou ao projeto por meio do Coletivo AzMina. Em pouco tempo, dois amigos do menino o encontraram.

Nicolle chama atenção pela personalidade extrovertida e atenção aos mínimos detalhes. Logo no início do dia, enquanto o grupo de dez voluntários se preparava para sair em meio à multidão, ela pedia para recolher pedaços de madeira da rua, que poderiam ser usados para agressões durante a festa. Também fez questão de deixar os preservativos femininos e masculinos que estavam pendurados nas grades em frente ao local devidamente expostos, pois estavam cobertos por causa da garoa que caía no primeiro dia de Carnaval.

Ela frisou a importância de prevenir casos de abuso, em vez de remediar. Os anjos, aqueles que distribuem os adesivos pelo bloco, fazem muito mais do que isso. Eles identificam mulheres que podem correr risco como, por exemplo, as que estão alcoolizadas ou em uma situação de violência. Também dão dicas de segurança enquanto colam as mensagens nos foliões, como: "Bom Carnaval! Guarda esse celular, hein?".

"Tem gente que não entende nada"

Universa acompanhou também a distribuição de adesivos. A advogada da tenda da República, Carolina Fichmann, indicava o local de acolhimento às mulheres e grudava os adesivos nos coolers dos vendedores de bebidas. Após uma pequena dissertação sobre a campanha contra assédio, ela recomendou a dois vendedores que indicassem o caminho às vítimas, caso vissem algo. Um deles respondeu: "Claro. E seu telefone, tem aqui [no adesivo] também?".

"Tem gente que não entende nada", respondeu Carolina e continuou seu caminho em meio aos foliões. "O que é essa tiara 'Elas que Lutem'? Deveria ser 'Eles que Lutem'!" Observou enquanto fazia o caminho de volta à tenda.

Nicolle disse que a atenção em identificar potenciais casos de assédio é um dos principais focos do atendimento. Sem colocar a culpa na mulher, ela explicou que as vítimas estão muito mais suscetíveis a sofrer abuso se estiverem sem condições de consentir ou reagir, como acontece muito no Carnaval por causa do uso de entorpecentes e bebida alcoólica.

"Quando a gente tem menos casos de assédio atendidos, não sei se fico mais feliz ou mais triste. Acho que fico mais alegre porque é sinal que o que o trabalho de prevenção foi feito, e não porque deixaram de denunciar", afirma. Quando a pessoa está alcoolizada, ela é orientada a ir para casa antes de entrar em situação de vulnerabilidade. Nesse caso, é acompanhada até a catraca do metrô por dois bombeiros.

"Três garotas de 14 anos com saias de tule brilhante entraram na tenda acompanhadas de uma das funcionárias. Elas foram protegidas por capas de chuva e em pouco tempo já estavam sendo acompanhadas até o metrô.

Quem estiver em um megabloco e precisar buscar ajuda, a dica é localizar o balão que sinaliza o local de atendimento médico do bloco. Chegando lá, é só perguntar pela tenda do acolhimento.

Violência contra a mulher