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Alunos protestam contra assédio em escola tradicional; estudante é expulso

Alunos protestam contra assédio na escola - Arquivo Pessoal
Alunos protestam contra assédio na escola Imagem: Arquivo Pessoal

Maria Fernanda Ribeiro

Colaboração para Universa

22/02/2020 13h01

Alunos do Ensino Médio da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), uma das mais tradicionais instituições particulares de São Paulo, se uniram e realizaram ontem um protesto contra um caso de assédio que estaria ocorrendo dentro da escola. Um aluno teria assediado outras cinco meninas e o caso terminou em expulsão.

De acordo com os relatos coletados por Universa, o assédio acontecia desde o começo do ano, mas o caso só foi levado para a diretoria nesta semana, pois o adolescente ameaçava as vítimas de "acabar com a vida" delas caso contassem para alguém.

No entanto, as meninas — que já estavam com medo de andarem sozinhas pela escola e combinavam diariamente de circularem juntas como forma de proteção — criaram coragem para denunciar. O colégio Fecap é uma instituição sem fins lucrativos, fundado em 1902, e que forma jovens em cursos técnicos. Atualmente conta com 656 alunos, sendo que 223 ingressaram este ano.

Aluno teria beijado garotas à força

"Nossa filha trouxe para casa o fato de que havia um menino que desde a primeira semana de aula vinha assediando — falando coisas, arrastando para dentro do banheiro, prensando contra a parede e beijando à força — algumas meninas", relata uma das mães, que preferiu não se identificar.

"Nossa filha não havia sofrido nenhuma tentativa de violência por parte dele, mas conhecia algumas das meninas que sim, e que estavam sendo ameaçadas caso contassem para alguém. Mas elas não se intimidaram e expuseram o garoto, levaram o caso a uma coordenadora e exigiram da escola a expulsão dele."

A história se espalhou e os meninos do colégio se juntaram a elas. Foram cobrar do adolescente que estava sendo acusado que ele pedisse desculpas às meninas imediatamente, caso contrário poderia sofrer consequências. De acordo com o relato dos alunos, a partir daí a diretoria interveio e teria suspendido o aluno por um dia, dando o caso por encerrado.

No entanto, o diretor da escola Marcelo Krokoscz, afirma a Universa que, no momento dessa medida, a situação havia chegado até ele havia menos de 12 horas — e um trabalho de resolução de conflito ainda estava em andamento para que a decisão fosse não apenas assertiva, como também justa.

Estudantes protestaram e pediram expulsão

Os estudantes não se contentaram com a medida. Achavam que o caso era para expulsão, e decidiram fazer um protesto na hora do intervalo, na quadra. "A Fecap tem regras bem mais rígidas para casos muito menores. Não é justo. Sem contar que todas as meninas ficaram desesperadas em saber que ele seria somente suspenso e um dia depois já estaria na escola de novo. A gente não queria mais ele ali e sentíamos que ele estava sendo mais protegido do que as vítimas", relatou uma das alunas, que preferiu não se identificar.

O diretor então chamou um grupo de alunos para conversar e, juntos, entender melhor a situação. Enquanto isso, sem clima para aula, os demais alunos permaneceram nos corredores com gritos de "expulsa".

Cerca de uma hora depois, o grupo de representantes voltou com a resposta: o aluno seria de fato expulso. "Foi um dia de luta para nós, mas vencemos", afirmou a aluna. "Sabe o que é o mais legal? A gente ouviu de uns funcionários que a gente não conseguiria nada, mas a gente se juntou e está aí o resultado."

Primeiro caso de transferência compulsória por assédio

Segundo Krokoscz, foi o primeiro caso de "transferência compulsória" por assédio. "O que aconteceu no meio desse processo todo é que a situação circulou entre os alunos e eles espontaneamente quiseram se manifestar, mostrando um sentimento de aversão a essas condutas de assédio", afirma o diretor.

"Uma coisa muito bem-vinda, muito clara, que a nossa escola apoia. Nesse caso específico, as evidências eram muito contundentes e, em comum acordo com a família, decidimos que era melhor que ele mudasse de escola."

O diretor afirma ainda que ações como envolvimento com drogas, calúnia, difamação, bullying, preconceito e qualquer tipo de assédio são consideradas reprováveis e estão regimentalmente fundamentadas. "Todas essas questões são reprováveis e, dado o grau de severidade delas, são punidas até mesmo com uma transferência compulsória. Os alunos são orientados sobre isso, recebem manual e há um trabalho permanente semanal em sala de aula em que esses assuntos são tratados."

"Como mães e pais, estamos muito orgulhosos desses alunos. Orgulhosos dessas meninas que não aceitam mais viver com medo e vergonha pelo simples fato de serem mulheres. Que não aceitam mais ser ou posar de vítimas, porque são fortes e estão unidas contra qualquer predador", afirma a mãe ouvida por Universa.

"Estamos orgulhosos também desses meninos que não aceitaram ser generalizados e nivelados ao que existe de pior no gênero masculino. E por fim, estamos extremamente esperançosos ao ver nossos filhos unidos para enfrentar o 'sistema' — no caso, a escola — com estratégia, coragem e, acima de tudo, razão."

Violência contra a mulher