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Ela tem um tumor raro: "Já que resta pouco tempo, decidi gastá-lo viajando"

Fabiana foi ao Vaticano e recebeu uma bênção do papa - Arquivo Pessoal
Fabiana foi ao Vaticano e recebeu uma bênção do papa Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Machado

Colaboração para Universa

15/02/2020 04h00

Em 2014, a publicitária Fabiana Azzolini foi diagnosticada com tumor metástico. Ela tinha, à época, 40 anos. Os médicos deram a Fabiana uma estimativa de vida de um ano e meio, no máximo.

Diante dessa perspectiva, a publicitária recusou-se a ficar lamentando seu destino. Resolveu mudar drasticamente sua maneira de viver e passou a aproveitar cada dia como se fosse realmente o último.

Contrariando as expectativas médicas, ela leva a vida intensamente viajando pelo mundo. Em cinco anos conheceu mais de 10 países e recebeu até a bênção do papa Francisco. Ela conta aqui sua história:

"Foi em setembro de 2013 que comecei a perceber que algo não estava bem. Com crises de vômito, procurei um médico acreditando ser gastrite causada pelo estresse do trabalho. Na época eu trabalhava em uma importante agência de publicidade, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, e tinha uma vida muito agitada. Viagens a trabalho e atendimento a clientes tomavam praticamente todo o meu tempo.

Fabiana Azzolini Vale Nevado - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Depois do câncer, ela conheceu a neve
Imagem: Arquivo Pessoal

Fiz alguns exames que apontaram que o que eu sentia se tratava de esteatose hepática, que é acúmulo de gordura no fígado, e que havia uma hérnia no meu esôfago. A indicação era cirúrgica. Mas, como o fim do ano estava próximo, meu trabalho tomava todo o meu tempo. A correria era tanta que decidi por adiar o procedimento para 2014.

Oito meses depois, já com os sintomas agravados, fui para a cirurgia. Durante o procedimento, os médicos perceberam que havia um tumor localizado atrás do meu estômago. Esse era apenas o começo de tudo pelo que eu iria passar.

Tumor raro com metástase

O tumor foi retirado e a biópsia constatou que se tratava de um tumor maligno raro chamado estromal gastrointestinal, que já havia dado metástase. Minha cunhada estava comigo quando a notícia foi dada. Ela se abalou, mas eu não.

Acho que estava tão confiante que nem consegui entender a gravidade da minha doença.

Saí do consultório médico e seguimos para a casa da minha mãe em Araraquara. No caminho, ela me perguntou como eu daria a notícia para a minha mãe, que já era uma mulher de idade. Lembro que falei que não iria contar, afinal era um 'tumor bonzinho' e eu me recuperaria rápido.

Nesse momento minha cunhada estacionou o carro. Olhando nos meus olhos, perguntou se eu não havia entendido o que os médicos disseram e me explicou o quanto meu câncer era grave. Foi nesse momento que a minha ficha caiu. Fui chorando até em casa.

A decisão de mudar de vida

Fabiana Azzolini em Punta Cana - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Em Punta Cana, nadando com golfinhos
Imagem: Arquivo Pessoal

A partir daí começou a luta contra a doença. A cada sessão de quimioterapia eu me sentia mais fraca. A cada nova cirurgia para retirar um tumor que já havia se alastrado para outra parte do corpo sofria um baque. Os médicos disseram que eu teria no máximo mais um ano e meio de vida.

Já que o tempo era pouco, resolvi passar esses meus dias fazendo o que mais gosto: viajar.

Até então eu só viajava a trabalho e tinha ido para o exterior apenas uma vez. Não conhecia a neve e tinha o sonho de visitar vários países. Então minha rotina mudou.

Há períodos em que o tratamento me deixa muito abatida e fraca, aí preciso ficar quieta em casa, me cuidando. E a rotina de visitas ao hospital é intensa.

Mas, no intervalo entre uma cirurgia e outra, entre uma quimioterapia e outra, eu aproveito para ser feliz.

Já visitei, entre outros lugares, Chile, Argentina, Uruguai, Espanha, Inglaterra, Itália e Portugal, além de conhecer diversos lugares do Brasil que eu tinha muita vontade, como Bonito e Gramado. Conheci a neve e escalei um vulcão.

Fabiana Azzolini em Pisa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Em Pisa, com a famosa torre italiana
Imagem: Arquivo Pessoal

E não é porque tenho um câncer que me privo e fico quietinha no hotel. Tomo alguns cuidados e levo sempre minha mala de remédios e os atestados médicos, é claro, mas adoro passear e conhecer as cidades e culturas para onde vou.

Desejo de conhecer o papa

Em março do ano passado, fui até o Vaticano. Tenho muita fé e queria conhecer o papa. Fiquei sabendo que ele faria uma audiência papal, mas, como a data estava muito próxima, não consegui o ingresso, que tem que ser solicitado por e-mail com antecedência.

Mesmo assim fomos até o local onde ele estaria na tentativa de conseguir entrar na fila e, assim, ganhar um dos convites que eram distribuídos lá para a população. Estávamos eu e uma amiga, e a gente não conhecia bem o local. Não encontramos onde era feita essa distribuição.

Sem esperanças, sentei e comecei a chorar. Estava ali tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante. Foi aí que uma freira viu meu desespero e se solidarizou, me dando um convite. Eu ia ver o papa.

Com um cartaz dizendo que eu era brasileira e contando um pouco da minha história, fiquei bem perto de onde ele passaria. Ele chegou, circulou pela praça São Pedro e, quando ia embora, uma surpresa: olhou para mim, leu meu cartaz e se aproximou. Ele me deu a bênção e um terço de pérolas, que fica ao lado da minha cama e me acompanha em todas as minhas cirurgias desde então.

Viagens me fortalecem

Sou acompanhada por amigas em todas as minhas viagens. Acredito que o que me fortalece para enfrentar essa doença é justamente essa minha paixão por viver e por viajar. Logo que chego de uma viagem, já começo a guardar dinheiro e a planejar a próxima. Viajo pelo menos duas vezes ao ano, e só não vou mais porque o dinheiro não dá mesmo.

Ainda não planejei a próxima viagem porque vou passar um período de tratamento. Vou tomar uma medicação mais forte e é importante eu ficar em casa e na minha cidade para que os médicos me acompanhem de perto.

Em janeiro passei por mais uma cirurgia, a sexta já. Os ovários e o útero foram retirados porque havia um tumor neles.

Então entre uma viagem e outra, entre uma diversão e outra, levo umas rasteiras da vida. A cada novo exame vem a apreensão de um outro tumor aparecer e uma nova cirurgia ter que ser feita.

Mas, já que tenho que enfrentar tudo isso, que seja sorrindo, maquiada e linda!"

Minha história