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Mulher acusa enfermeira de recusar parto e dá à luz em recepção de hospital

Aliny Gama

Colaboração para Universa, em Maceió

11/02/2020 20h30

Uma mulher deu à luz deitada em cima das cadeiras da recepção do Hospital Regional de Eunápolis, cidade a cerca de 530 km de Salvador, após procurar assistência médica e, segundo ela, ter o atendimento negado por uma enfermeira especializada em obstetrícia, na madrugada do último domingo (9). Apesar do parto improvisado, Andreia de Jesus, 28, e o bebê, do sexo feminino, passam bem e receberam alta hospitalar ontem. A enfermeira foi afastada do centro médico.

A mulher disse que foi ao hospital sentindo contrações e, ao ser examinada por uma enfermeira, foi constatado que ela estava com quatro centímetros de dilatação. Entretanto, segundo ela, a profissional teria dito que não ia auxiliá-la no parto e a mandou para casa. No caminho para a saída, já na recepção, Andreia entrou em trabalho de parto e a filha nasceu em cima de uma fileira de cadeiras, sem assistência das equipes médica e de enfermagem.

"A enfermeira disse que não ia me atender, que não ia fazer parto porque não era obrigação dela. Ela reclamou com o segurança que não era para subir nenhum paciente e mandou que eu descesse, que eu fosse para casa. Quando cheguei na recepção, as dores pioraram e eu disse a minha amiga que precisava ir ao banheiro. Foi quando ela e minha mãe viram que o bebê já estava coroando e nascendo", disse Andreia a Universa.

A mulher contou ainda que não sabia que tinha médico de plantão e que em nenhum momento a enfermeira se dispôs a chamá-lo.

"Se fosse por ela, eu e minha filha teríamos morrido, inclusive minha bebê estava laçada, com quatro voltas do cordão umbilical no pescoço e demorou a respirar", afirmou Andreia, dizendo que não pretende ingressar com ação judicial contra o hospital, mas sim contra a "enfermeira, pois ela foi a culpada de tudo".

"Fiquei desesperada com a situação, mas não tinha o que fazer. Tive minha filha ali mesmo. Quero justiça por ela ter me tratado mal, não ter me dado assistência e nem ter chamado um médico", disse Andreia.

Imagens do parto improvisado circulam em redes sociais. Em uma das gravações enviadas a que Universa teve acesso, a mulher aparece deitada numa fileira de cadeiras da recepção do Hospital Regional de Eunápolis enquanto é auxiliada pela mãe, por uma amiga e uma mulher que acompanhava outra gestante. Andreia pediu que os vídeos não sejam exibidos.

Nas imagens, uma mulher de roupa rosa, apontada como a enfermeira que recusou o atendimento, observa o parto com as mãos dentro dos bolsos e depois sai do local sem prestar socorro. Em seguida, Andreia consegue parir a filha e a menina está com o cordão umbilical envolto do pescoço. A recém-nascida passa quase um minuto sem respirar quando um homem ajuda a fazer manobras e a bebê chora. Depois, mãe e filha são colocadas em uma maca e levadas para dentro do hospital.

Profissionais são afastados, diz hospital

O nome da enfermeira citada pela mulher não foi divulgado pela direção do hospital e nem pelo Coren-BA (Conselho Regional de Enfermagem da Bahia). Universa tentou localizar a defesa dela, durante o dia de hoje, mas não obteve sucesso.

O diretor do hospital, Jairo Augusto Coelho Júnior, informou que os profissionais envolvidos no caso foram afastados logo que a direção tomou conhecimento do ocorrido. Ele destacou ainda que não compactua com "esse tipo de situação" e que "as respostas serão de imediato" e "com punições à altura."

O diretor do hospital enfatizou que já acionou o Coren, o CRM (Conselho Regional de Medicina) e o Ministério Público para que os órgãos façam parte do inquérito instaurado pelo hospital para que "medidas e punições" sejam tomadas.

O Coren-BA informou que soube do caso por meio da imprensa e que ainda não recebeu notificação do HRE. O órgão disse que um enfermeiro fiscal foi designado para ir até o hospital para apurar a denúncia.

"O Coren-BA informa também que já abriu um processo administrativo para apurar se houve desvio da conduta ética por parte da profissional de enfermagem e, após o resultado, tomará as devidas providências", destacou.

Prefeitura vê "erro grave" da equipe médica e de enfermagem

Em nota, a prefeitura de Eunápolis classificou a falta de assistência à parturiente no hospital regional, que é de administração municipal, como um "erro grave e intolerável cometido por parte da equipe médica e de enfermagem de plantão".

"Os profissionais foram afastados imediatamente de suas funções e um inquérito administrativo foi aberto para que as devidas punições legais sejam executadas", informou. A prefeitura finalizou a nota pedindo desculpas "à família e toda sociedade por tão lastimável fato" e afirmou que "esta não é uma conduta admitida pela gestão."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado na primeira versão do texto, Eunápolis não fica a 53 km de Salvador, e sim a cerca de 530 km da capital baiana. O erro foi corrigido.

Violência contra a mulher