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Sobrevivente de explosão: "Não quero plástica. Cicatrizes são parte de mim"

Adriana Lima, sobrevivente de uma explosão - Danielly Vilaca
Adriana Lima, sobrevivente de uma explosão Imagem: Danielly Vilaca

Manuela Aquino

Colaboração para Universa

10/02/2020 04h00

Aquele era um dia de trabalho comum. Adriana Lima, de 38 anos, saiu de casa para ajudar o marido, David Pires de Lima, 36 anos, para fazer impermeabilização de estofados na casa de um cliente. Era seu segundo trabalho: ela também atuava como vendedora. A rotina puxada dos dois tinha como objetivo ajudar a pagar as parcelas da casa própria em Joiville (SC). Mas eles estavam felizes e fazendo aquilo com garra.

Ao final do procedimento de proteção de um sofá e algumas cadeiras, algo comum para eles, houve uma explosão. O morador da casa acendeu o fogão — o que era proibido, pois eles usavam material inflamável. Uma bola de fogo foi em direção ao casal, que teve queimaduras de segundo e terceiro graus. Adriana ficou em coma e só acordou 24 dias depois, com mais da metade do corpo queimado.

Ela conta ao Universa como foi o acidente, seu processo de recuperação e o jeito bom que continua encarando a vida, mesmo com o corpo com marcas.

O dia da explosão

"Na época do acidente, há dois anos, eu e o David tínhamos uma empresa de limpeza e impermeabilização de sofás e eu o ajudava em alguns serviços. Resolvemos empreender nesse setor pois precisávamos de uma renda extra, além dos nossos trabalhos fixos — éramos vendedores em uma dedetizadora — pois estávamos comprando nossa casa.

Em 25 de julho de 2017, eu estava em São Paulo, para onde vou de tempos em tempos para fazer um tratamento no Hospital das Clínicas, desde muito pequena. Tenho espondilite anquilosante, uma doença inflamatória crônica, e febre reumática. As duas me davam dores horríveis nas juntas e na coluna. Tomo essa medicação de seis em seis semanas e faço exames regulares, pois elas são doenças imunossupressoras.

Naquele dia, chegando em casa, meu marido me avisou que um cliente havia mudado o horário de um serviço de impermeabilização de sofá das 4h da tarde para as 7h da noite. Com a mudança, eu poderia ajudá-lo.

Pegamos o carro com nossos dois filhos, Eduardo, com 12 anos, e João Miguel, com 2 na época. Era um prédio baixinho, o apartamento era no primeiro andar. Deixamos as crianças no carro, perto do jardim, pois meu filho mais novo estava dormindo. Era seguro e da janela conseguíamos ver os dois.

Chegamos 7h20 no apartamento e começamos o serviço. Para impermeabilizar, é passado um produto altamente inflamável em cima do sofá em duas mãos: na horizontal e na vertical.

Antes de cada visita, é dado um manual de instruções, pois durante a aplicação e depois, enquanto o cheiro estiver no ambiente, por pelo menos uma hora, não pode haver faísca.

No mercado é possível encontrar o impermeabilizador à base de água, mas a gente usava aquele já fazia três anos, sem nunca ter tido problema nenhum, para reduzir o custo final.

Era um sofá e algumas cadeiras a serem trabalhados. Quando estávamos no final, uma moradora da casa estava na cozinha mexendo em algumas coisas. Nunca pensei que ela fosse usar o fogão, achei que estivesse ciente do manual, do perigo.

Eu estava abaixada quando ouvi aquele barulho típico da boca do fogão e ela dizendo em seguida ao marido: "Amor, está subindo faísca do fogão".

Quando eu ia gritar "não! desliga!", veio uma bola de fogo em cima de mim. Depois que passou, só ouvi meu marido falando "vem, vem, corre". Fiquei atordoada, não vi nada. As luzes se apagaram, tinha muita fumaça e conseguimos correr para porta e ir até o jardim do prédio.

Sem consciência da gravidade

Danielly Vilaca
Imagem: Danielly Vilaca

Até aquele momento, não tinha a mínima noção da gravidade do que tinha acontecido. Não sentia dor por causa da adrenalina. Eu olhava para meus braços e via que estavam vermelhos, mas as queimaduras só se revelam realmente depois de um tempo. Achei que só tivesse machucado as mãos, estava tudo em carne viva.

Fui correndo para ver meus filhos, e foi o meu mais velho, que estava com meu celular, que chamou os bombeiros. Ele foi muito esperto. Depois de 10 minutos, o resgate chegou. Meu marido e o casal de clientes tiveram cerca de 40% do corpo queimado e eu, 65%.

Na ambulância já comecei a sentir muitas dores e ardência pelo corpo. Me colocaram para dormir, pois não estava suportando a dor. Apaguei e fiquei em coma induzido por 24 dias, pois estava com queimaduras de terceiro grau, precisava fazer curativos e não aguentaria acordada. A gente ouve relatos de gente que tem lembranças do coma mas eu não me recordo de nada, de nenhum pensamento.

Quando acordei, me contaram tudo o que havia acontecido e levei um baita susto, pois para mim tinha passado somente um dia. Tanto que olhei para meu irmão e perguntei: 'Você por aqui? Que horas você chegou?'. Ele riu e disse: 'Faz tempo que estou aqui'.

Nesse período, minha mãe, minha cunhada e outras pessoas da família ajudaram a cuidar dos meu filhos. O David ficou 21 dias internado, teve queimaduras de segundo grau, mas acho que ele sentiu mais, pois passou por tudo acordado. Os médicos avisaram para a família se preparar, pois havia poucas chances de eu sair viva daquela.

O entendimento do ocorrido

Depois de saber o que estava acontecendo, veio a fase mais difícil: descobri que minhas mãos tinham sido queimadas, assim como meus dois braços e meus pés, e que estava careca. Me levaram para o banho e pediram para olhar no espelho. Com aquela roupa do hospital, não conseguia ver que o colo e a mama também estavam queimados.

Quando se fica muito tempo deitada e em coma, você desaprende tudo. Não sabia nem engolir, e meu irmão me dava comida na seringa para eu entender como poderia comer novamente.

Aos poucos, fui perdendo os movimentos das mãos. Até hoje estou com dificuldade em movimentá-las, pois, na medida em que a pele cicatriza, ela também endurece. Minha pele não deixa o osso mexer. Passei a fazer sessões de terapia ocupacional para movimento de mãos e pescoço, que também ficou um pouco prejudicado. A recuperação de uma pele queimada consome a energia do corpo e eu me sentia exausta.

Retomada da vida de antes

Contém Amor Fotografia
Imagem: Contém Amor Fotografia

Voltei para casa e estava muito abalada. Coloquei na cabeça que meu marido não iria me aceitar mais, fiquei com medo também de ser rejeitada pelos meus filhos. O David sempre falava que me amava e que nada mudaria. Não mudou, mas por um tempo esse pensamento destrutivo ficou na minha cabeça.

Meu irmão, Robertty Souza, largou tudo e veio cuidar de mim. Ele morava no interior de São Paulo. Foi nessa fase em que só queria ficar no quarto que ele me ajudou muito.

Queria ficar sozinha, sem falar ou ver ninguém. Deixava tudo escuro, tampei o espelho do quarto e pensei em me matar. Quando alguém se suicida, muitos dizem: 'Por que não procurou ajuda?'. Mas não dá, nem de ajuda você quer saber.

Era muito difícil não saber até quando eu iria depender dos outros. Fiz terapia durante um ano para me ajudar e enfrentar a situação.

Além do apoio da minha família e do amor dos meus filhos, consegui sair dessa por meio de uma amiga, que foi um anjo na minha vida. A Cláudia Gonçalves chegou um dia em casa e disse que eu ia sair da cama de qualquer jeito. Ela me pegou e me levou até um lugar lindo da minha cidade, o mirante.

Caminhamos até o alto. Tinha verde para todo lado, e ela me disse que a partir daquele dia iria passar para me pegar às 6h da manhã. Ela tinha um grupo de caminhada que me abraçou de uma maneira tão calorosa...

Resolvi tentar e foi sensacional. Ver a natureza, poder assistir o pôr do sol e os benefícios do exercício me deram outra visão daquele momento. Chegava em casa animada, sentava no sofá para conversar, passei a comer e a vida ficou colorida. Voltei a gostar de me maquiar, de usar minhas roupas e minha autoestima se recuperou.

Trajeto ainda longo

Depois da explosão, passei por três desbridamentos, procedimentos cirúrgico para a retirada de pele machucada. De lá para cá, fiz cirurgias com frequência para refazer a pele por meio de enxertos. A pele nova é retirada do meu corpo mesmo, da minha perna. Ainda faltam nove cirurgias, se não der rejeição.

Em 2018 começaram a aparecer quelóides no meu rosto. Elas não saem, mas melhoram com o tempo. As pessoas me perguntam se não vou fazer plástica e eu respondo que não. Hoje, minhas cicatrizes fazem parte de mim, não sei viver sem elas.

O olhar dos outros, que uma vez já me incomodou, não tem nenhum efeito sobre mim. Se alguém me encara, eu dou um sorrisão e falo: 'Oi, tudo bem?'. Aí quebra o gelo.

Por esse meu jeito expansivo e simpático com as pessoas, me sugeriram de eu contar minha experiência, e eu montei minha conta no Instagram: Sobrevivente de uma explosão.

Comecei a receber mensagens de muita gente do Brasil todo que passou ou passa por isso. Foi algo que me deu muita força também para seguir. Sempre digo para quem me procura que a vida não deve parar por causa das queimaduras.

Sinto dores horríveis que, às vezes, nem com morfina passa, mas não reclamo e sigo em frente. Meu sofrimento ficou lá pra trás."

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