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O que a participação de Babu no BBB tem a nos mostrar sobre racismo

Reprodução/Globo
Imagem: Reprodução/Globo

Ana Bardella

De Universa

05/02/2020 04h00

O assunto que vem sendo mais discutido no BBB 20 é o feminismo. No entanto, outra questão social merece destaque dentro da casa: o racismo. O participante Babu Santana é um dos que mais costumam tocar assunto.

Logo na sua apresentação o ator valorizou as origens, dizendo que "estava na hora de um preto favelado ganhar o BBB". Já na convivência com os colegas, falou das dificuldades que enfrenta no mercado de trabalho — algo que se reflete na condição financeira da sua família. Relembre os momentos em que a participação do ator apontou aspectos do racismo no reality:

Reconhecimento limitado

Mesmo com mais de 19 anos de carreira e sendo um ator premiado — entre suas conquistas está o 'Grande Prêmio do Cinema Brasileiro', como melhor ator pelo protagonista do filme 'Tim Maia'- Babu se queixou da dificuldade em conseguir papéis na televisão. Em uma das conversas que teve com Manu Gavassi, disse também que quase nunca é chamado para participar de um evento. "Só com muita sorte ou comprando", falou. De acordo com Maisa Elena Ribeiro, mestre em psicologia, pesquisadora nas áreas de políticas públicas e sociais e docente da Unisal, a queixa está relacionada ao racismo institucional.

"Existe uma desigualdade na representatividade de pessoas negras nos espaços e um deles é a mídia. Para percebê-la na prática é só pensarmos no lugar social das pessoas negras: onde elas estão? Quais funções desempenham? Quais personagens costumam fazer nos filmes, novelas: quem são os galãs e quem são os protagonistas? Somos menos valorizados", aponta.

"Pesquisas recentes mostram que quanto mais altas as hierarquias de poder, menor o número de pessoas negras ocupando-as. Ou seja: quem faz a inserção de pessoas no mercado de trabalho, na maioria das vezes, são as pessoas brancas, que nem sempre se apropriam dos estudos e discussões sobre o racismo e, por isso, acabam reproduzindo estes comportamentos por falta de conhecimento."

Solidão e sensação de deslocamento

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Imagem: Reprodução/Globo

Babu já revelou que se sente deslocado na casa. Quando ganhou "o anjo", que dá ao participante a oportunidade de imunizar alguém do reality, escolheu dar o presente a Thelma Assis, que também é negra. "Vou dar o anjo para essa mulher preta médica", disse, deixando subentendido que, na sua visão, ela é uma das pessoas mais próximas a ele na casa. Em outro momento, Mari Gonzalez perguntou se ele tinha "preconceito" com os convidados famosos e ele retrucou dizendo que não, porque também era um deles.

Maisa analisa: "Quando uma pessoa negra cresce profissionalmente e ocupa um espaço de visibilidade e prestígio, tende a se sentir só, uma vez que a maior parte dos seus colegas será branca. Se isso se soma à falta de empatia e acolhimento para entender as vivências que esta pessoa traz, pode resultar no sentimento de solidão", avalia.

"Quando alguém negro se queixa de uma situação racista ou fala de algo doloroso do passado, é preciso levar em conta que não foi a primeira vez que passou por algo do tipo. É a história de uma vida inteira que deve ser considerada", diz.

Queixas ainda são vistas como "vitimismo"

Algumas das falas de Babu repercutiram na internet. Ele se queixou de ter passado por uma fase difícil financeiramente, na qual se alimentava de "pão com manteiga". Em outro momento, defendeu sua permanência no jogo com o argumento de que era "um artista desempregado que precisava ficar mais um tempo ali". Alguns comentários começaram a circular pelas redes sociais, afirmando que ele estaria se "vitimizando".

Na visão da psicóloga, o uso da palavra é uma grande injustiça. "É uma falta de conhecimento e de sensibilidade. Alguns autores buscam entender porque o termo ainda é tão utilizado. Uma das correntes relembra o mito da democracia racial: a ideia fantasiosa de que no Brasil não existe racismo, que todos convivemos de forma harmoniosa. Mas a verdade é que o racismo existe e é explícito: basta olhar para os números de assassinatos de jovens negros. No Mapa da Violência, vemos que o número de feminicídio de mulheres brancas diminuiu, mas o de negras aumentou. Os negros são a maioria da população carcerária, maioria de trabalhadores informais ou em condições precárias", relembra.

Ela também cita o medo de pessoas brancas perderem o seu lugar histórico de privilégios: "Pode ser uma das razões pelas quais tentam desqualificar os discursos de raça, principalmente quando ele escancara as desvantagens sociais. Trata-se de um argumento superficial e mentiroso", diz.

Racismo adoece

Quando Babu falou sobre não ser convidado para eventos com Manu Gavassi, disse também que este tipo de atitude contribuiu para o agravamento da sua depressão.

"É preciso entender que o racismo tem impactos na saúde mental e física das pessoas. Ele pode gerar tristeza, angústia, ansiedade exagerada, medo, desconfiança, dificuldade nas relações sociais e afetivas, vergonha, dificuldade de aprendizagem, baixa autoestima e outros agravos de saúde", exemplifica.

Por estas e outras razões, a profissional defende o combate ao racismo com atitudes que passam pelo âmbito individual e coletivo.

"Muitas vezes a pessoa não consegue identificar o que sofreu. As pessoas acham normal, por exemplo, entrar na sala de uma faculdade e ver poucos ou nenhum negro. Isso é uma consequência da desigualdade, da falta de oportunidades ao longo da história", afirma. Ela defende que casos de racismo sejam sempre denunciados.

"Também precisamos resgatar e valorizar a história e a cultura afro-brasileira e investir no fortalecimento de políticas afirmativas, tais como as cotas nas universidades, que são uma reparação histórica. Tudo isso, aliado ao conhecimento, ajuda no combate ao problema."

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