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Garoto que costura nas redes e é alvo de preconceito: "Crochê não tem sexo"

Junior Crocheteiro, como é conhecido, reúne 600 mil seguidores em suas redes  - Arquivo Pessoal
Junior Crocheteiro, como é conhecido, reúne 600 mil seguidores em suas redes Imagem: Arquivo Pessoal

Bruna Alves

Colaboração para Universa

05/02/2020 04h00

Aos 15 anos, Junior Silva faz sucesso nas redes sociais ensinando a fazer crochê. Com técnica e precisão, enquanto costura ele dá dicas de como produzir o artesanato, organiza sorteios e mostra os tapetes, toalhas de mesa, roupas e pelúcias que já fez. Assim, conquistou milhares de seguidores. No entanto, por ser um garoto, começou a receber comentários preconceituosos e maldosos.

Cansado de guardar para si, na semana passada, "Junior Crocheteiro", como popularmente é conhecido, postou um vídeo no Instagram. Nele, o jovem não fala nada, apenas mostra, escritos em papéis, alguns dos comentários que tem recebido.

Compartilhem ?? @whinderssonnunes @priscillaalcantara

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Ao som da canção "Girassol", de Whindersson Nunes e Priscila Ancântara, ele segura cartaz após cartaz, que revelam o preconceito que vem sofrendo. "Isso é coisa de mulher. Vovó!", "Coisa de menina. Você é gay", "Você não pode fazer crochê" são algumas das frases descritas.

No mesmo vídeo, a expressão de tristeza dá lugar ao sorriso quando Junior começa a compartilhar mensagens de apoio que também recebe. "Não entre em depressão, você consegue", "Você é incrível", "Você pode", dizem seus seguidores.

"Qualquer pessoa pode fazer"

A Universa, Junior diz que fez o vídeo porque acha importante divulgar o preconceito. "Eu tentei encorajar as pessoas que passam por isso, para elas não desistirem, não jogarem tudo para o ar, não desanimarem, porque isso acontece mesmo e é considerado 'normal' na nossa sociedade", desabafa o jovem.

Ele afirma também que ser um garoto não o impede de fazer artesanato. "Crochê não tem sexo, qualquer pessoa pode fazer. É algo natural. Uma agulha e uma linha não querem dizer nada. Crochê é para todos e todas", afirma.

Natural de Iaras, no interior de São Paulo, Junior conta que já sofreu muito preconceito, até mesmo do próprio avô, que, inicialmente, teve dificuldade em aceitar o desejo do neto de costurar. No entanto, com o passar dos anos o avô tornou-se um de seus maiores fãs, assim como já eram seus pais. Embora algumas pessoas insistam em criticá-lo por suas escolhas, o crocheteiro aprendeu a lidar bem a situação.

Junior também vende suas peças em uma loja online - Arquivo Pessoal
Junior também vende suas peças em uma loja online
Imagem: Arquivo Pessoal

"Fiquei bem triste já, mas agora não fico mais. Eu recebo cinco críticas e mil elogios. Não vou deixar de fazer algo que gosto por causa do que as pessoas dizem. Sigo sempre com a cabeça erguida", afirma o adolescente, que já é inspiração para outras pessoas.

"É bem legal as pessoas falarem que saíram da depressão porque me viram e voltaram a crochetar. Muitas pessoas falam que eu sou incentivo. Então isso acaba me animando a não desistir do crochê", comenta.

Atualmente, o jovem está morando em São Paulo com o pai, frequenta o segundo ano do ensino médio, e diz não ter sofrido preconceito na escola — o alvo sempre foi nas redes socias.

Paixão pelo crochê começou cedo

O crocheteiro descobriu seu talento aos 11 anos. Ensinado pela avó, pela tia e pela irmã, o passatempo tornou-se uma paixão. A família se surpreendeu com a facilidade de aprendizado e em pouco tempo ele passou a produzir seus próprios tapetes. Desde então, nunca mais largou a agulha e as linhas.

O garoto faz crochê desde os 11 anos - Arquivo Pessoal
O garoto faz crochê desde os 11 anos
Imagem: Arquivo Pessoal

"A primeira vez que eu o vi fazendo, até achei que fosse só naquele momento, mas ele foi se interessando e hoje faz mais coisas que elas que o ensinaram. Foi tudo muito rápido. Quando a gente viu, ele já estava explodindo", conta Denise Vieira Marcolino, 35, mãe de Junior.

O jovem conta que em 2017 foi passar as férias na casa do pai, na capital, e resolveu fazer uma entrada ao vivo em uma rede social quando participava de um grupo de crochê. O vídeo viralizou rapidamente: passou das 118 mil curtidas e teve mais de 3 milhões de visualizações. Depois do episódio, ele começou a fazer os posts e criou a página Júnior Crocheteiro nas redes sociais. Os dedos ágeis do adolescente conseguem produzir um tapete em um dia.

Hoje, dentro da própria casa, Junior tem um ateliê onde costura, guarda os materiais de produção e os artesanatos que fabrica. É nesse cantinho que ele também faz vídeos e tira fotos para postar nas redes sociais. Atualmente, o canal Junior Crocheteiro tem 402 mil seguidores no Facebook, 128 mil no Instagram e 62 mil inscritos em seu canal do Youtube.

Segundo a mãe do jovem talentoso, Junior é motivo de alegria para toda a família. Ele ainda ultrapassou as barreiras conquistando seguidores até em outros países, como Estados Unidos, Japão, Espanha e México.

"Tenho um orgulho muito grande do meu filho. Aonde eu passo o pessoal pergunta dele. Não tenho nem palavras para expressar o quanto sou feliz por isso", diz Denise.

Adolescente quer ser professor e montar uma loja

O que começou por diversão hoje virou fonte de renda. O artesão vende suas peças online e recebe muitas encomendas — ele abriu uma conta bancária para controlar os rendimentos. Um jogo de tapetes para banheiro custa, por exemplo, em torno de R$ 90 e um caminho de mesa, R$ 80. Entretanto, Junior afirma que os estudos vêm em primeiro lugar e diz que sempre conciliou a produção artesanal com a escola.

Ele conta que no futuro almeja ser professor de inglês e português, além de montar sua própria loja de linhas e artesanatos. Isso porque não pretende parar de costurar.
"O crochê é algo muito especial. Eu gosto muito de misturar cores, criar peças. Me diverte. Eu assisto séries, Youtube, mexo no celular, tudo fazendo crochê."

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