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"Filmei porque tinha certeza que ia morrer", diz mãe síria indicada a Oscar

Waad al-Kateab e Edward Watts levaram o prêmio de Melhor Documentário por "Para Sama" - Toby Melville/Reuters
Waad al-Kateab e Edward Watts levaram o prêmio de Melhor Documentário por "Para Sama" Imagem: Toby Melville/Reuters

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa, de Los Angeles

04/02/2020 04h00

Três meses após dar à luz sua bebê Sama, a estudante síria Waad Al-Kateab voltava ao mesmo quarto do hospital improvisado, na cidade de Aleppo, em escombros após anos de guerra civil. Desta vez, ela estava atrás de uma câmera e filmava uma equipe tentando salvar uma mulher grávida de nove meses, atingida por estilhaços de bomba.

A cena está em seu documentário "For Sama", indicado ao Oscar e ganhador do Bafta do último domingo. Por três longos minutos, acompanhamos imagens gráficas do parto de emergência e o trabalho em cima do bebê praticamente morto, até acontecer um milagre.

"Naquela altura, achei que tinha enlouquecido, literalmente", disse Al-Kateab, que passou cinco anos vivendo na cidade bombardeada pelas forças do ditador Bashar al-Assad. "Quando o bebê finalmente abriu os olhos, tirei meus olhos da câmera para ver se era verdade mesmo."

As imagens foram divulgadas no noticiário da época.

Apesar de Al-Kateab não fugir do sangue e mesmo dos cadáveres da guerra civil, "For Sama" é um filme extremamente pessoal e delicado. Aos 20 anos, ela começa a gravar os protestos pacíficos na sua universidade e se apaixona pelo melhor amigo. Os dois se casam, engravidam e resolvem ficar em Aleppo mesmo quando a cidade é sitiada.

O marido é médico e lidera o único dos oito hospitais da cidade que não foi atacado pelas forças russas aliadas de Assad. No meio das ruínas de Aleppo, os moradores tentam normalizar o caos jogando xadrez na calçada ou distraindo as crianças pintando um ônibus destruído. E Al-Kateab captura tudo, incluindo sua gravidez e seus medos de mãe de primeira viagem.

Grávida na guerra

"Estava certa que não sairíamos vivos. A cada momento com a câmera, pensava que poderia ser minha última chance de filmar", disse a diretora de 29 anos, num cinema de Hollywood após a exibição do filme. "Então precisava ser forte para continuar filmando. Porque se eu morrer daqui a cinco minutos, as imagens podem sobreviver sem mim."

O filme é dedicado à sua filha, Sama, numa tentativa de explicá-la os motivos de ficar em Aleppo. A gravidez lhe trouxe novas perspectivas e um estilo de filmar. Ela passa a falar com a câmera, como se deixasse uma mensagem a Sama. "Filmar me dava uma razão de viver e fazer sentido daquele pesadelo todo", disse.

Waad Al-Kateab, ao centro, durante protesto em Nova York contra bombardeio de hospitais na Siria   - JOHANNES EISELE/AFP - JOHANNES EISELE/AFP
Waad Al-Kateab, ao centro, durante protesto em Nova York contra bombardeio de hospitais na Siria
Imagem: JOHANNES EISELE/AFP

"Por ser mulher, ouvi muito não, mas também ouvi muito sim", disse. "Tive acesso a mulheres porque elas me viram grávida e me viram com minha bebê de três meses e depois seis meses. Elas queriam falar comigo porque sabiam que eu entenderia suas experiências."

Al-Kateab contou com ajuda de um diretor inglês, Edward Watts, para selecionar os cinco anos de material filmado. A dupla, que assina junto a direção, passou outros dois anos no processo de edição. Watts explica que seu papel era priorizar a experiência da diretora e dos moradores de Aleppo, criando uma narrativa a qual pessoas de fora da Síria pudessem se conectar.

O conflito continua

O filme lançou uma campanha online pelo fim de bombardeios de hospitais. "Parece absurdo fazer uma campanha por isso, mas no último sábado atingiram um hospital na Síria", disse Watts. "Mesmo um simples tuíte de solidariedade à causa, para dizer aos sírios que vocês sabem o que está acontecendo lá, significa muito."

Na passagem pelos EUA por conta do Oscar, os diretores foram a Washington e Nova York falar com políticos e participar de protestos na sede da Organização das Nações Unidas.

A diretora explicou sua luta no Twitter: "Fui à ONU não porque acho que vai mudar alguma coisa", escreveu. "O mundo nos abandonou por nove anos para sermos mortos de todas as maneiras possíveis. Mas acredito que a coisa mais difícil é ser morto em silêncio. Então continuamos a levantar nossas vozes por aqueles que estão em Idlib."

Idlib, cidade a 60 km de Aleppo, está há meses sob ataque do regime de Assad e forças aliadas russas. Mais de 150 mil tiveram que deixar suas casas só no mês de janeiro. Aleppo também voltou a ser alvo, de maneira que não se via desde 2016, quando Al-Kateab e sua família foram obrigados a deixar a cidade.

Hoje, a diretora vive exilada em Londres e trabalha no canal Channel 4 News, um dos produtores de "For Sama". O documentário foi o que mais recebeu indicações na história do Bafta, prêmio da academia britânica de cinema e TV, na noite de domingo. Recebeu quatro indicações e ganhou melhor documentário.

No Oscar, a dupla concorre com o brasileiro "Democracia em Vertigem", de Petra Costa, e outro filme sobre a guerra civil na Síria, "The Cave". Os três disputam com o favorito "Indústria Americana" (EUA) e "Honeyland" (Macedônia). A premiação acontece no próximo domingo, 9/2.

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