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"Lute como uma mulher": ela cria camisetas para fortalecer causa feminista

Karina Gallon, a designer que criou a Peita - Munir Bucair Filho/Divulgação
Karina Gallon, a designer que criou a Peita Imagem: Munir Bucair Filho/Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

04/02/2020 04h00

Quem o feminismo representa, o que propõe e como pode influenciar mais pessoas? É com base nesses questionamentos e com foco em quem nunca teve a oportunidade de estudar e conhecer esse movimento, ou em quem não sabe como expressá-lo no dia a dia, que a designer Karina Gallon, de 32 anos, moradora de Curitiba (PR), criou há três anos a Peita, marca de camisetas-manifesto.

As peças, estampadas sem imagem e apenas com dizeres curtos e objetivos que incitam as mulheres a lutarem pelos seus direitos e contra o machismo, foram inspiradas a princípio por cartazes nos quais Karina prestava atenção durante manifestações de rua. Na época, como ela estava sem um emprego fixo, percebeu que poderia fazer dessas peças um negócio — e, ao mesmo tempo, uma ferramenta política que pudesse estar presente em qualquer espaço.

"Percebi que, se unisse o que sei sobre design, feminismo e militância, poderia de maneira simples e popular abrir um caminho que fosse menos teórico e mais prático — e que servisse também de representação para mulheres invisibilizadas, como as que são pobres, negras, trans, indígenas, deficientes físicas e que lutam por necessidade, não por escolha", conta ela.

Sucesso nas manifestações: o primeiro estoque foi vendido em poucas horas - Divulgação Peita
Sucesso nas manifestações: o primeiro estoque foi vendido em poucas horas
Imagem: Divulgação Peita

Depois de pedir ajuda de dois amigos, a designer Cris Pagnoncelli e o tipografista Eduilson Cohan, Karina produziu cerca de 20 camisetas, que postou no Instagram e levou para uma manifestação em Curitiba no Dia Internacional da Mulher, em 2017. Ela queria testar se o conceito e o produto teriam — ou não — aceitação.

Àquela altura, tudo era feito de maneira improvisada, porque Karina não tinha espaço próprio, fornecedor, site, e tampouco entendia de confecção ou como funcionava uma empresa. "As camisetas eram todas feitas à mão, uma a uma. Depois eram empilhadas em cadeira, mesa, varal, era tudo muito caseiro", recorda. Mas não demorou muito para o negócio deslanchar.

Linha de produtos-manifesto

Com a empresa formalizada, Karina estruturou e inaugurou um e-commerce — e precisou aprender a lidar com o lado operacional da fabricação das peças. Se no início eram vendidas camisetas com apenas uma frase, "Lute como uma garota", um lema conhecido dentro do movimento feminista, com a crescente demanda vieram outras 37 versões.

Jogue como uma mulher: apoio das atletas da seleção de futebol - Divulgação Peita
Jogue como uma mulher: apoio das atletas da seleção de futebol
Imagem: Divulgação Peita

"Desenvolvi parcerias com marcas, ONGs e instituições sociais comprometidas e envolvidas com feminismo e direitos da mulher, e assim vieram outras ideias para as frases, que estão conectadas, conversam entre sim, embora possam ter contextos distintos", explica Karina.

Como a Peita se posicionou como uma marca de protesto, sendo muito influenciada pelo contexto sociopolítico em que o Brasil vive, logo as consumidoras passaram a relatar que nem sempre conseguiam usar as camisetas onde queriam, como em empresas e escolas. Para contornar a situação, Karina lançou outros itens, mais discretos, mas com o mesmo potencial de empoderar e conscientizar, como ecobags, canecas, lenços, adesivos e bottons.

Mesmo assim, o principal produto da marca continua sendo as camisetas, que são vendidas, independentemente de tamanho e cor, por R$ 65. Itens menores, como as canecas, custam R$ 35.

Linha de produção feminina

O público-alvo predominante da Peita é composto por mulheres, mas, como as peças são agênero, elas também servem para homens. Karina diz que é importante haver essa abertura, pois acredita que a desconstrução do machismo não acontecerá apenas com o engajamento feminino.

"A masculinidade tóxica também os prejudica. Por isso, precisamos trazê-los para o nosso discurso, para que se conscientizem, usem as peças entre os amigos e nos apoiem", esclarece.

Além disso, por defender que as mulheres ocupem cada vez mais o espaço empresarial, a empreendedora estabeleceu uma cadeia de produção composta exclusivamente por elas. Dessa maneira, a empresa não só se mantém fortalecida como as funcionárias têm a oportunidade de se apoiarem e crescerem juntas. Hoje, fazem parte de sua equipe direta sete mulheres, além de colaboradoras nas áreas de costura, entrega de encomendas e jurídico.

Meta é ser produto de exportação

De sua criação até hoje, a Peita já lançou quase 60 produtos e conseguiu, com o apoio de parceiras, pontos de revenda em Curitiba, São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Brasília, Recife e Manaus. "Quando nos pedem para ser ponto de revenda, o que necessariamente não precisa ser uma loja de rua, solicitamos um vídeo para conhecer melhor essas mulheres e sentir se elas têm relação com o que propomos, ou não", conta Karina.

A meta para este ano é estabelecer as vendas também no Rio de Janeiro e impulsionar as exportações, pois a empreendedora quer atingir as feministas que moram fora do país. Ao mês, ela vende, em média, 600 camisetas, mas esse número aumenta em março, no fim do ano e em datas pontuais, como durante as eleições.

Recentemente, a Peita também lançou a frase "Jogue como uma garota", que ganhou visibilidade nacional depois de receber apoio das jogadoras brasileiras da Copa do Mundo de Futebol Feminino 2019. No momento, a marca está organizando um campeonato feminino de futsal amador, que promove anualmente em Curitiba e, desde outubro passado, vem divulgando uma série de minidocumentários sobre histórias de líderes e militantes indígenas do Paraná.

"A série vem para ajudar na divulgação da frase 'Lute como uma garota' lançada pela Peita nas línguas guarani e kaingang. O lucro das peças em guarani vai para o movimento Jera Rete, que leva informações sobre saúde, direitos das mulheres, demarcação de terras e educação para aldeias mais afastadas. Já o lucro em kaikang vai para a construção de um refeitório infantil na aldeia Kakané Porã, na periferia de Curitiba", afirma Karina.

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