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Índia de iPhone: "Brancos ficam ofendidos ao ver que temos vidas modernas"

Jéssica Tôrres: conta no Twitter para falar de questões indígenas - Reprodução/Instagram
Jéssica Tôrres: conta no Twitter para falar de questões indígenas Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

De Universa

19/01/2020 04h00

"Hoje em dia, até índio tem iPhone."

Esse era o tipo de comentário que Jéssica Tôrres, 22, mais recebia em suas redes sociais. A jovem, mais conhecida como Jé Hãmãgãy (o apelido é da etnia Tikmu´un, da qual é descendente, e significa onça), dividia com seus seguidores imagens de ilustrações e peças de artesanato feitas por ela, com temática indígena, além de fotos do seu cotidiano.

Até que decidiu pegar seu smartphone —da marca Motorola — e criar no Twitter a conta @indiadeiPhone. Agora, para falar de questões relacionadas à sua origem, aos povos originários brasileiros e a preconceitos cristalizados, como a frase que abre a reportagem e carrega uma conotação de surpresa pelo fato de indígenas estarem adaptados à modernidade.

"Os brancos ficam ofendidos quando nos veem tendo vidas como a de qualquer cidadão. É uma visão racista e vem do romantismo na literatura, que retratava o índio pelado, com cocar, falando mal o português. Exigem que mantenhamos esses costumes de séculos atrás", diz Jé.

(E aí vem um mea culpa: eu, branca, comecei a entrevista com Jé perguntando sobre a aldeia em que ela vivia. Não me ocorreu que ela poderia não morar em uma. E não mora.)

Jéssica vive em Lagoa Santa (MG) e cursa o último ano da faculdade de museologia na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Belo Horizonte (MG). Nasceu na capital mineira e tem ascendência indígena tanto por parte de pai quanto de mãe. As mais fortes lembranças são do avô paterno: histórias, língua, hábitos. Fala inglês, além de português, e está aprendendo um pouco da língua da etnia da qual é descendente, Tikmu´un. Também conhecidos como Maxakali (nome dado pelo homem branco), ocupam a região nordeste de Minas Gerais. Segundo o levantamento Povos Indígenas do Brasil, do ISA (Instituto Socioambiental), o último dado populacional da etnia é de 1997, em que se registrou 802 pessoas de origem Tikmu´un.

Vive na cidade, mas costuma fazer uma espécie de intercâmbio em aldeias pelo país. "É como se fosse uma visita familiar, passar alguns meses na casa de um parente que mora longe", compara. A viagem mais recente foi entre outubro e dezembro para a aldeia São José, da etnia Krikatí, no Maranhão.


Ofensa aos tupiniquins

A primeira vez que Jéssica diz ter ganhado repercussão no Twitter, rede em que tem cerca de 26 mil seguidores, foi quando fez uma postagem questionando o uso da palavra tupiniquim para se referir a uma versão brasileira —e, por isso, menor— de algo estrangeiro, como um filme, um artista, um político. "Os tupiniquins já reclamam disso há muito tempo. É difícil porque a gente está sempre falando o óbvio."

"Nem eu entendi porque tanta gente começou a me seguir", lembra. Hoje, porém, já formulou uma opinião. "Percebi que as pessoas não indígenas têm interesse em saber mais sobre a nossa cultura, mas com uma linguagem mais jovem, com vídeo, de um jeito mais objetivo, como a rede social faz. Muita gente me escreve dizendo que não sabia de tal coisa sobre a qual eu escrevi e fala que me segue para aprender", diz.


Militância não é mimimi

Integrante do CMACI (Comitê Mineiro de Apoio à Causa Indígena), Jéssica passou a levar as questões do momento, mas que muitas vezes já são discutidas há anos entre os membros das comunidades, para as redes sociais.

Uma delas é sobre usar fantasias de índio no Carnaval: "Não é homenagem. Assim como 'blackface', fantasia de empregada, de nega maluca. A pessoa quer usar aquele momento para destilar racismo. Todo mundo ri, ninguém critica quando vê alguém fantasiado falando 'mim isso', 'mim aquilo', se comportando como um Neandertal".

"Não é ser politicamente correto. Estamos pedindo respeito."

Causas da mulher indígena

Um dos grandes problemas das mulheres indígenas, segundo Jéssica, é a sexualização. "Nós ouvimos coisas como: 'Deve ser selvagem na cama'", diz.

"O racismo afeta tudo. Começa na autoestima da criança, com os comentários preconceituosos na escola. Depois, na fase adulta, mulher passa pela hipersexualização. O homem é visto como irracional. Também tem o estereótipo de o índio ser preguiçoso. Vai minando a autoestima. Tudo isso são microagressões."

Ela também questiona o discurso de que toda mulher deveria ser feminista. "O conceito de feminismo foi criado da perspectiva da maioria racial, ou seja, foi um movimento criado por pessoas brancas, mas que, até hoje, não consegue suprir questões de outros grupos", diz Jé.

"Queria que a relação entre brancos e indígenas fosse de mais respeito."

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