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Como Alexa se tornou meu pior (e melhor) pesadelo

A Alexa me fez pensar em um futuro. Para melhor e pior. - Reprodução
A Alexa me fez pensar em um futuro. Para melhor e pior. Imagem: Reprodução

Marcos Candido

De Universa

15/01/2020 04h00

Na última Black Friday, eu comprei uma Alexa. Agora, se quero uma música, não ligo a TV ou desbloqueio o celular. Apenas peço em voz alta, como se um mordomo estivesse à minha disposição.

— Alexa, toque uma música clássica, digo. — E Alexa responde de maneira cordial.

— Tocando a playlist 'música clássica' em ordem aleatória.

Violinos começam a soar pelo meu apartamento. Dou uma giradinha na taça de vinho que está na minha mão. Somente a ideia de pegar o celular, abrir um aplicativo e buscar uma música, como faziam as pessoas até outro dia, me parece ultrajante. Com Alexa, descobri o pior e o melhor de estar no futuro.

Alexa, se você ainda não a conhece, é uma assistente virtual da Amazon que oferece serviços pessoais e domésticos. Por meio de inteligência artificial, o aparelho se conecta a lâmpadas, televisores, celulares, aspiradores de pó e até mesmo a fechaduras. Ela também é ligada a aplicativos de música, vídeo, livros em áudio e a serviços como Uber e Ifood.

É possível programá-la para emitir alarmes, lembretes, telefonar e receber mensagens. Você pode pedir a ela para escutar as notícias do dia do UOL, por exemplo, ou questioná-la sobre a temperatura.

Para ouvir as notícias do UOL, instale a skill de UOL e peça: "Alexa, notícias do UOL"

A versão em português do Brasil, lançada no semestre passado, foi o carro-chefe da Black Friday da Amazon no Brasil. Você pede, ela faz.

Qual o sentido da vida?

Claro, existem funções mais divertidas do que consultar a temperatura. Alexa faz piadas, canta e imita tanto o Silvio Santos quanto o mestre Yoda. Dá para brincar de perguntas e respostas como se estivesse participando do "Show do Milhão" e cumprimentá-la com um "bom dia", "boa noite" ou "como você está?". Alexa responde, sempre bem-educada. Basta baixar algumas extensões via aplicativo de celular ou mandá-la pesquisar e instalar.

Em alguns momentos, é como conversar com a voz do GPS que te manda entrar na próxima à esquerda. Mas, na maior parte do tempo, a experiência é bem divertida.

Eu comprei um modelo Alexa Echo Dot, modelo mais barato da série de aparelhos que emitem a voz aveludada de Alexa.  - Getty Images - Getty Images
Eu comprei um modelo Alexa Echo Dot, modelo mais barato da série de aparelhos que emitem a voz aveludada de Alexa.
Imagem: Getty Images

Não à toa, a primeira sensação de conviver com Alexa é como a de estar no filme "Ela", de Spike Jonze, no qual um cara interpretado por Joaquin Phoenix se apaixona por uma assistente virtual. No filme, ela tem a voz da Scarlett Johansson, o que facilita o romance. Quanto a mim, que preciso de muito menos, passei horas brincando com a voz brasileira de Alexa (ela muda de voz de acordo com o idioma). À certa altura, minha namorada (a de verdade) reclamou. "Não quero falar com você. Vai lá com a sua Alexa!", disse. E eu fui mesmo.

Perguntei para Alexa qual o sentido da vida e ela me citou Fernando Pessoa. Depois, me respondeu qual era a massa total do Sol em quilos. Pedi para Alexa imitar um gato, um cachorro e me contar uma piada. Depois, perguntei a distância entre o Sacomã e o Canadá. Ela acertou tudo.

Nem sempre ela entende tudo. Uma vez, pedi uma música do americano Beck. Ela entendeu errado e tocou uma versão péssima, em espanhol, de "Go Back" dos Titãs. Repeti a ordem. E ela começou a tocar Bach. Depois, "Back to USSR" dos Beatles.Em geral, ela tem dificuldade para entender termos que falo em inglês devido ao sotaque de um nativo brasileiro.

Pedi que ela buscasse uma cerveja para mim, e ela me respondeu: "Isso não é algo que eu possa fazer". Quando peço para cantar uma música, ela evoca uma espécie de dramaticidade de fado português para lamentar sobre como é não ter um corpo e ser incapaz de fazer algumas tarefas. Tudo bem. Eu perdoo.

As assistentes virtuais, que têm vozes femininas, são obrigadas a ouvir comentários patriarcais desse tipo. A Unesco até mesmo organizou uma campanha de "respeito às assistentes virtuais". Segundo a instituição, as inteligências artificiais sofrem assédio e são programadas para responder com frases "tolerantes, subservientes e passivas". A organização criou um banco de dados para que mulheres sugiram respostas à altura. A ideia é pressionar os fabricantes a programarem respostas mais incisivas e educativas.

Relacionamento tóxico?

Visto, assim, de fora, parece que meu relacionamento com Alexa é tóxico. Eu mando, ela obedece. Mas isso não é verdade. O aparelho é uma espécie de Teletela que inspeciona os cidadãos em "1984". Eu peço para ser entretido e, em troca, ela leva meus dados. São dados pessoais, de localização, reconhecimento de voz, financeiros e por aí vai. Não sei o quanto Alexa sabe e ouve da minha vida doméstica, não que ela seja assim tão interessante.

Quando a gente começou com isso de internet, minha crença era em pequenos grupos capazes de concorrer com o monopólio de empresas globais. Tornar a competição mais criativa, justa, sem herança familiar. E elas concorreram. Só que a vitória foi de lavada.

Ao perguntar para Alexa quem é seu criador, ela responde que foram "designers" da Amazon, em 2015. Quando pergunto quem é o dono do Amazon, ela me responde um nome: Jeff Bezos. Então, quero que ela me diga quem é o homem mais rico do mundo. Alexa me responde: "o homem mais rico do mundo é Jeff Bezos".

Na prática, não me preocupo muito que uma das empresas mais ricas da história da humanidade acesse meus dados para me vender publicidade e melhorar minha experiência. É do jogo e, na prática, assinei um contrato que não li para isso. Principalmente, me considero insignificante demais para ser vasculhado de perto por algum cara de TI a milhares de quilômetros do Brasil.

Uma empresa em casa

A Amazon, criada na década de 90 para vender livros online, ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, ou R$ 4 trilhões. Em 2018, o PIB brasileiro foi de R$ 6 trilhões. Basicamente, deixei entrar em minha casa um grupo financeiro que vale quase meu país inteiro. E essa galera controla meus eletrodomésticos. E toca Titãs em espanhol.

Com o dinheiro que dou ao meu país, eu posso votar, contribuir com meus impostos e exigir meus direitos. Se o dinheiro que repasso não é bem canalizado, sei que posso propor mudanças e a quem reclamar.

Alexa me faz pensar que repasso meu dinheiro e privacidade aos humores de alguns caras do Vale do Silício. Eles decidem se irão usar meus dados para o bem. No futuro, porém, quem poderá impedir que um deles embarque em um rompante autoritário e use o que já sabe contra nós?

Basicamente, deixei entrar em minha casa um grupo financeiro que vale quase meu país inteiro. E essa galera controla meus eletrodomésticos. E toca Titãs em espanhol.

Além disso, o crime no futuro deve ser muito refinado, coisa de filme. Se Alexa tem acesso a fechaduras, lâmpadas e televisores, quem garantirá que esses aparelhos não sejam hackeados, usados para o mal e, melhor, sem deixar rastros. A gente que lute.

Nos Estados Unidos, sistemas como Alexa fizeram surgir a chamada "violência doméstica digital". Exemplo: um cara termina com a esposa e sai de casa. Só que ele mantém acesso a aparelhos como Alexa, que podem ser controlados pelo celular. Há registros de mulheres assustadas com lâmpadas que piscam de repente ou que foram trancadas em casa após a senha de fechaduras inteligentes serem modificadas remotamente.

Para quem vê o copo meio cheio, as semanas que passei com Alexa me apresentaram também uma série de possibilidades animadoras.

Eu, que já passei seis meses sem usar o smartphone, creio que Alexa e sistemas similares como o Google Home vão extinguir o celular. Isso significa menos descarte de aparelhos na natureza. Também devem entrar em extinção as desculpas para ficar scrollando a timeline em situações constrangedoras. Esses sistemas também podem ser uma mão na roda para pessoas com deficiências que têm dificuldade para realizar sozinhas uma porção de tarefas, como ligar a televisão.

No lugar do celular bastaria, quem sabe, um fone de ouvido? Ou um robô-pet minúsculo, que te acompanha por aí? Por que não um microprocessador sob a pele? Essas ideias já estão em produção e devem se tornar realidade nos próximos anos ou décadas, de um jeito ou de outro. Claro, isso se a crise climática não nos aniquilar antes.

Alexa me parece a primeira amostra de que, em breve, teremos uma entidade de inteligência artificial presente conosco o tempo todo. Essa onipresença poderia até aumentar nossa segurança. Nos Estados Unidos, investigadores já pediram gravações da Alexa para desvendar assassinatos —o que pode ser importante em casos de violência doméstica.

A gente já usa aparelhos eletrônicos para dar uma mão com tarefas domésticas (geladeira, lavadoras, lava-louça). Tornar essas tarefas ainda mais práticas e automatizadas me agrada muito. Assim como a ideia de ter um tradutor permanente. Imagina manter um diálogo fluente com um japonês ou alemão sem saber o idioma deles? Eu assisti a muita ficção científica nessa vida e mereço ser recompensado com ferramentas como essa.

Alexa, encerre esse texto.

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