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Com festival, haitiana quer transformar Salvador em polo do "cinema racial"

Fabienne Colas trará Black Film Festival a Salvador - Divulgação
Fabienne Colas trará Black Film Festival a Salvador Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

13/01/2020 04h00Atualizada em 15/01/2020 15h43

Salvador recebe em novembro deste ano dois eventos culturais com foco na valorização da negritude: o Black Film Festival (BFF) e a festa Afropunk — referência na cena alternativa de cultura negra.

Por trás do festival está Fabienne Colas, haitiana que iniciou sua carreira como atriz e, ao chegar ao Canadá, em 2003, resolveu construir uma cena de cinema em que pudesse trabalhar e estimular a produção de diretores e cineastas locais.

Tomar a frente de iniciativas enquadradas como "cinema racial", conta Fabienne, revela sua batalha como uma mulher negra e atuante no mercado artístico. "Eu conto minha história para entenderem que não foi fácil para mim. E quando você é uma mulher, e uma mulher negra, ninguém vai te dar nada numa bandeja de prata. Você vai precisar lutar, trabalhar muito", disse ela, em entrevista para Universa.

Será a primeira vez que o Black Film Festival — que será realizado pela Giros Filmes e pela Zaza Productions e que é filiado aos festivais de cinema negro canadenses da Fabienne Colas Foundation — acontecerá no Brasil e a escolha de Salvador está cheia de significado: é a cidade com mais pessoas negras fora do continente africano, segundo dados do IBGE de 2015.

Rainha dos Festivais

Fabienne fala durante lançamento do Black Film Festival, em dezembro de 2019, em Salvador - Divulgação/Wendell Wagner
Fabienne fala durante lançamento do Black Film Festival, em dezembro de 2019, em Salvador
Imagem: Divulgação/Wendell Wagner

Fabienne Colas é uma referência no cenário do cinema negro e independente pelo mundo.

Reconhecida como uma das 100 Mulheres Mais Poderosas do Canadá em 2019, ela fundou em três países oito festivais da sétima arte, entre eles, o Festival Internacional de Cinema Negro de Montreal -cidade canadense em que vive atualmente, o de Toronto e Halifax, de Nova York e em Porto Príncipe.

Uma de suas primeiras investidas na promoção de iniciativas pela diversidade cultural e valorização da cultura negra foi a criação da Fundação Fabienne Colas, ao lado dos sócios Réal Barnabé e Emile Castonguay. A proposta da instituição, sem fins lucrativos, é "construir pontes através das artes".

Confira os principais trechos da conversa com Fabienne a seguir.

Como ocupar um lugar de poder e excelência no mercado audiovisual no mundo?

Não foi fácil para mim. Eu vim do Haiti para Montreal em 2003. No meu país, eu era uma atriz muito popular, tinha recebido muitos prêmios, e vim para começar tudo de novo aqui. Infelizmente, todas as portas estavam fechadas para pessoas como eu.

Eu não pegava papéis tão representativos quanto eu pensava que poderiam ser oferecidos. Então, eu rapidamente entendi que eu não teria a carreira que eu queria na TV ou no cinema. Foi quando eu pensei: 'Quer saber, vou trazer todos os filmes do Haiti em que eu atuei para que as pessoas vejam que tipo de atriz eu sou, como eu trabalho e elas descobrirão um 'cinema racial'. Só que nenhum festival selecionou os filmes.

Foi quando eu percebi que precisávamos mudar como as coisas eram, como as pessoas pensavam. Decidimos criar a Fundação Fabienne Colas (que já existia no Haiti, mas com uma missão diferente) no Canadá. Para celebrar a arte das pessoas de cor. Hoje, a fundação é que promove os festivais, programas e iniciativas para dar suporte aos mais de 200 artistas, para quem oferecemos workshops, subsídios.

E, no caminho, ainda tive a oportunidade de dirigir meu próprio filme, em 2008 e de atuar em alguns poucos filmes na TV e no cinema.

E como foi conquistar esse lugar sendo mulher e sendo negra? Acha que sua posição é de representatividade?

Eu conto minha jornada para você entender que não foi fácil para mim. E quando você é uma mulher, e uma mulher negra, ninguém vai lhe dar nada numa bandeja de prata. Você vai precisar lutar, trabalhar muito. Você não terá o que quiser na vida. Mas terá o que tiver a audácia de ir atrás, de pedir, de negociar.

Isso para todas as mulheres e especialmente para as negras. Eu aprendi isso da forma mais dura, que você precisa usar sua voz para você mesmo e para outras pessoas que não têm voz. Então, essa é minha missão, amplificar a voz das outras pessoas que não sabem advogar por si próprias, que não tiveram a oportunidade de mostrar o trabalho, vender seu produto. É por essa razão que estamos trabalhando para colocar o festival no mundo e por isso que estou tão feliz de trazer o festival para Salvador.

Espero que as artistas negras se inspirem por minha jornada e pelo festival. E que saibam que podem sair e conquistar o mundo porque não temos falta de talento, temos lacuna de oportunidades.

Se nós quisermos criar coletivamente, temos que ter a certeza de que todo mundo vai conseguir.

Salvador tem a maior população negra fora de África. Como a arte pode ajudar a mobilizar negros na diáspora?

A arte é poderosa e o cinema é uma das mais fortes no sentido de colocar as pessoas juntas. Ao assistir uma hora e meia de um filme, seja documentário, animação, a pessoa é levada a uma jornada com a perspectiva de outra pessoa. E quem está na sala do cinema naquele momento divide a mesma história. Nós rimos e choramos juntos, somos transformados e educados juntos.

O Black Film Festival vai ser o primeiro em Salvador. É histórico, não é pequena coisa. É importante para aquela bonita cidade, que já é conhecida pela arte, música, comida, arquitetura, mas não ainda pelo cinema. E nós queremos posicionar Salvador como uma cidade do cinema, onde filmes negros são rodados. E ainda acredito que a arte coloca todo mundo junto, e pode atrair turismo também. Tanto que estamos trabalhando com a Secretaria de Turismo de Salvador.

Por que fazer o Festival no Brasil?

Evento, em novembro, aguarda confirmação de datas; as inscrições de filmes ainda não foram abertas - Divulgação/Wendell Wagner
Evento, em novembro, aguarda confirmação de datas; as inscrições de filmes ainda não foram abertas
Imagem: Divulgação/Wendell Wagner

Primeiro, é necessário realizá-lo em Salvador, que precisa estar nesse movimento da indústria dos filmes. E acho que o contexto global o faz relevante. Quero dizer, os artistas estão sempre produzindo, em bons ou tempos ruins.

[Realizar o festival é uma forma de dizer que] Nós estamos com eles, como um: 'Ei, nós estamos aqui? E quer saber? Vamos lá, vamos provar que essas pessoas estão erradas, provar que conseguimos produzir algo grande, apesar do contexto atual'.

Eu acho que o Brasil está numa boa posição na América Latina para liderar o front e mostrar que esse pode ser um grande festival negro.

Em novembro, também acontece a primeira edição da Afropunk no Brasil, em Salvador. Foi combinado?

O festival é independente do Afropunk, mas acho que Salvador abrigar os dois eventos é uma ótima notícia. Vai chamar a atenção do mundo para lá. Então, vamos usar isso para que o mundo saiba mais e coloque o país no movimento artístico mainstream. Isso é fantástico, e vamos trabalhar juntos.

Parece que vivemos um tempo em que o racismo e outras formas de preconceito estão mais assumidos. O que pensa sobre o assunto?

Eu realmente acredito que o racismo e os preconceitos estão em lugares onde há o medo — o medo do outro. Então, quanto mais conhecemos o outro, sabemos sua história, menos temos medo um do outro ou odiaremos o outro. Porque aí entenderemos a perspectiva e a história do outro. Como acredito no poder da arte, o cinema é isso: permitir que conheçamos melhor uns aos outros, para nos entendermos, nos amarmos.

Como o cinema pode contribuir para essa transformação?

O cinema faz isso: incentiva o amor em uma comunidade. Nos movimentos que fazemos no Canadá, nos Estados Unidos, vemos transformações. As pessoas vão ver o filme e conversam entre si. É ótimo ver esse entendimento coletivo.

Por isso que o festival de Salvador é necessário, porque vivemos num tempo em que precisamos mais do que nunca estar juntos, precisamos entender o outro lado. Para mim, é o único meio pelo qual poderemos viver em paz e juntos a longo termo.

O Brasil passa por um momento de embate na cultura, com desmontes que partem do governo. O festival é um evento de resistência ao valorizar a cultura brasileira, especialmente negra?

Agora é o melhor momento para fazê-lo. Como eu disse, artistas estão sempre produzindo, em tempos bons e ruins. Agora não é exceção. E eu estou feliz de ver que temos grandes produções de vários lugares do Brasil. Então, eu incentivo as pessoas para que produzam, ainda que seja difícil, que tenha menos dinheiro. Procurar um jeito de continuar contando histórias, esse é o melhor jeito de resistir. Continuar existindo, produzindo.

O que espera do mercado cinematográfico negro mainstream e independente em 2020?

O que eu espero é que cineastas e produtores sejam autênticos e que contem histórias que importam para eles, em filmes universais e que reflitam a realidade de onde eles vêm. Não devemos nos forçar a fazer filmes que preencham um determinado tipo de narrativa. Devemos fazer histórias que são próximas a nossa própria realidade, como a sentimos. É a única forma com que transcenderemos territórios, tocaremos pessoas, quanto mais a história for autêntica.

Vê tendência em que mais filmes debatam a questão racial?

Sim, nos últimos anos, é possível ver alguns cineastas falando sobre coisas que vivem no dia a dia, no Canadá, Haiti, em alguns países na África, nos Estados Unidos, no Brasil. E não é só sobre as questões raciais, mas sobre religião, questões LGBTQ, as condições das mulheres...Eu encorajo todo mundo que sinta a necessidade de contar histórias assim: faça. Mas eu não quero pessoas tentando contar histórias em que não acreditam ou com as quais não se relacionam.

A ideia não é pegar a tendência e dizer: 'Vamos falar disso, porque é popular', mas 'Quero fazer esse filme sobre o que ninguém sabe ou sabe, mas pode ver de outra perspectiva'. É isso que interessa. Veja tendência, mas seja você mesmo.

Você já esteve em Salvador. O que acha inspirador da cultura brasileira?

Em Salvador, vi exatamente o que eu lia o tempo inteiro. Fui ao museu do Carnaval, vi uma parada com celebração de Natal. Eu acho que é um lugar em que todo mundo deveria ir pelo menos uma vez na vida. Porque é rico, diferente. É autêntico. E ao trazer o Festival, me sinto honrada de ser a mensageira disso.

Além disso, uma coisa que eu sempre amei é o futebol brasileiro. Pelé é meu ídolo, o Haiti é apaixonado por ele. E eu digo que a minha melhor lembrança é a Copa de 1994. Quando o Brasil ganhou da Itália. Eu me lembro de todos os nomes dos jogadores. Foi com isso que cresci.

Além disso, eu amo samba, bossa nova, comida brasileira. Temos alguns restaurantes no Canadá, mas em Salvador é muito melhor, é claro. Eu amo também caipirinha. Isso todo mundo deveria descobrir. Por isso, estou muito feliz de trazer amigos, jornalistas e cineastas com a gente para o evento. Vai ser uma superfesta.

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