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Por que algumas mulheres boicotam a relação quando está ficando séria?

Mulheres boicotam relacionamento - iStock
Mulheres boicotam relacionamento Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

13/01/2020 04h00

Inventar desculpas para não comparecer a um encontro, ignorar mensagens e ligações, passar a implicar com o par - com crises de ciúme, por exemplo - e começar a achar defeitos na relação ou na pessoa são algumas das sabotagens que muitas mulheres lançam mão na hora de "azedar" um namoro que parece promissor.

Nem sempre esse processo é consciente, claro, mas trata-se de uma artimanha que muitas colocam em prática de maneira recorrente. O medo de repetir erros de relações anteriores, principalmente as tóxicas ou abusivas, é uma justificativa, mas não a única. Existem várias explicações para essa conduta e todas exigem um exercício de autoconhecimento honesto, muitas vezes doloroso, para compreender o que há por trás desse comportamento e, assim, superá-lo ou pelo menos aprender a lidar melhor com ele.

Embora a autoproteção seja a razão apontada pela maioria das pessoas, as causas reais de comportamentos de autossabotagem são complexas, variadas e profundamente enraizadas. Para a psicóloga clínica Patrícia Atanes, uma das principais razões pelas quais as mulheres sabotam seus relacionamentos é o medo da intimidade. "Todo mundo quer e precisa de intimidade, mas para algumas pessoas ela pode estar ligada a experiências negativas, levando a evitar ou romper envolvimentos amorosos", diz.

O medo da intimidade, segundo Patrícia, geralmente vem de relacionamentos parentais difíceis ou abusivos e de traumas na infância - físicos, sexuais e/ou emocionais. "A maior crença profunda, limitante e embutida nas mulheres que temem a intimidade é a de que as pessoas que se aproximam sempre têm outros interesses e não são confiáveis", observa.

Como as primeiras relações de confiança com os pais ou responsáveis foram rompidas pelo abuso, as mulheres que temem a intimidade acreditam que todos que as amam inevitavelmente as magoarão. "Quando crianças, elas não podiam se livrar desses relacionamentos. Como adultas, têm o poder de acabar com relações ou evitá-las, mesmo quando não são inerentemente abusivas", pontua a psicóloga, que subdivide esse medo em dois tipo, o de abandono e o de dependência.

"No primeiro, as mulheres têm medo de que aqueles que amam as deixem quando estiverem mais vulneráveis. No segundo, se preocupa com a possibilidade de perderem sua identidade ou capacidade de tomar decisões por si mesmas. Esses dois medos levam a comportamentos do tipo 'ata-desata, junta-separa, começa-termina' e geralmente surgem juntos", salienta.

O exemplo negativo na infância se torna ainda mais concreto se a mulher viveu uma relação ruim, causando uma ferida emocional difícil de cicatrizar. "Se na vida adulta a mulher comprova que seu medo é real ao viver uma situação de dor, é enorme a chance de criar verdades absolutas na mente como 'homens não prestam', 'todos os homens traem' ou 'eu não sou boa o bastante' e passar a tentar se proteger de novas decepções de todas as maneiras", opina a terapeuta de relacionamentos Rosangela Matos, do Instagram @descomplicandorelacoes.

Já Marina Simas, psicóloga e sócia-diretora do Instituto do Casal, em São Paulo (SP), considera a mania de idealizar um parceiro outro fator importante. "Elas sempre querem mais. Buscam viver um conto de fadas, tudo muito especial, e não se contentam com a realidade. Precisamos lembrar que as relações são construídas de forma conjunta e um casal que funciona bem significa que ambos se desenvolvem, fazem planos conjuntos, alinham expectativas e desenham o futuro. Nada vem pronto", fala.

Como romper as barreiras?

Na ótica de Patrícia, autoconhecimento é a palavra-chave para entender o boicote e exterminá-lo. "É natural do ser humano querer se proteger, mas fugir não é a solução. A melhor saída é ter uma ideia de quem você é e como age num relacionamento e avaliar qual a melhor forma de mantê-lo e ser bem-sucedida nele. Afinal, se souber quem você é verdadeiramente num relacionamento, seu parceiro também terá a chance de conhecê-la e, juntos, poderão quebrar o padrão de sabotagem", conta.

Observar a si mesma e analisar os padrões de comportamento é um passo importante. "Seja sincera consigo mesma e enfrente todas as maneiras pelas quais você pode, devido a esses comportamentos, ter abusado ou ferido seus parceiros por causa do medo da intimidade. Caso contrário, está fadada a repetir os erros", diz Patrícia. Não há problema em obter ajuda da psicoterapia, uma ferramenta importante para identificar e compreender processos que sequer, muitas vezes, nos damos conta.

Ver os acontecimentos de outra maneira e repetir coisas boas sobre si mesma para melhorar sua autoestima, segundo Rosangela, também são etapas fundamentais, da mesma maneira que tirar o foco da relação, se ocupar com coisas que gosta e deixar que tudo flua é um caminho para quem deseja aos poucos diminuir a sabotagem.

Na opinião de Marina, é fundamental ainda se dar a chance de experimentar e ver como a relação vai ou não engrenando. "Porém, se chegar à conclusão que quer ficar solteira é importante entender que trata-se de uma opção que deve ser respeitada, independente de qual o motivo", avisa. "É bom escolher confiar. Afinal de contas, se o outro estiver mentindo em algum momento isso virá a tona, mas será que vale a pena perder tempo e energia pensando nisso durante horas do dia?", questiona Rosangela.

De acordo com Alexandre Bez, psicólogo especializado em relacionamentos, de São Paulo (SP), é imprescindível prestar mais atenção às ações do que às palavras na hora de confiar em alguém. E, ainda, não comparar a relação atual com as anteriores em busca de pistas sobre o que pode ou não acontecer. "O padrão pode ser quebrado a partir do momento em que não houver associações com o passado! É preciso se conscientizar de que cada relação é única.

Se duas pessoas que terminaram uma relação reatarem após um intervalo longo, não serão as mesmas de antes", comenta Alexandre, que destaca: "É possível, também, que inconscientemente a mulher sabote os namoros porque não quer perder a liberdade de solteira", explica.

Se houver essa conclusão, não há problema algum: melhor encarar a verdade e admitir e assumir o que a faz feliz de verdade. É comum que a "lista infinita de namoros que não dão certo" seja, no fim das contas, uma maneira de dar a impressão de que se relaciona e se importa em arrumar alguém. Embora o status de compromisso das mulheres ainda, infelizmente, seja alvo de uma certa pressão social, nada melhor do que ligar o dane-se e ser feliz à sua maneira, certo?

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