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Gorda, saudável e bem acompanhada: quem é a criadora do Lute como uma gorda

Maria Luísa Jimenez Jimenez - Ju Queiroz/Divulgação
Maria Luísa Jimenez Jimenez Imagem: Ju Queiroz/Divulgação

Janaina Garcia

Colaboração para Universa

11/01/2020 04h00

"Filósofa, pesquisadora, ativista gorda e feminista". É assim que Maria Luísa Jimenez Jimenez se apresenta. "Gorda é o contrário de magra, não deveria haver choque algum em dizer isso", afirma ela que trabalha justamente para combater a gordofobia, termo utilizado para descrever o preconceito com pessoas gordas.

Moradora da região da Chapada dos Guimarães, no Centro-Oeste brasileiro, Maria Luísa convive com o problema desde a infância, mas não conseguia dividir seu sofrimento com quase ninguém. Acabou fazendo dele o foco de seus estudos acadêmicos, uma tarefa poderosa, que, aos poucos, foi aliviando suas dores. Mas, ainda assim, ela continuava se sentindo solitária.

Há três anos, isso começou a mudar radicalmente. Ela decidiu extrapolar a universidade e levar o tema para o debate público. Assim nasceu, em 2016, o projeto "Lute como uma gorda", que, além de um blog onde discute o tema abertamente, inclui cursos online, rodas de conversa, entre outros eventos. Desde então, cerca de 10 mil pessoas já foram impactadas pelo trabalho.

"A gordofobia é algo que está em absolutamente todas as instituições: começa na família e vai para a escola, a faculdade, o mercado de trabalho, e todos os tipos de relacionamento: com o namorado, a melhor amiga, os vizinhos", explica.

Gorda já foi elogio

Mas nem sempre foi assim. Maria Luísa conta que, no passado, gordura corporal não era exatamente sinônimo de doença, pelo contrário. "Na Idade Média, ser gordo era sinônimo de riqueza: os magros eram os pobres e miseráveis, enquanto que os nobres eram, em geral, gordos, saudáveis e inteligentes, porque podiam comer", diz.

A ideia negativa que se tem da gordura é uma construção recente. "Na primeira metade do século passado, tinha até propaganda de xarope para ?engordar até 3 quilos por semana?", conta.

Segundo ela, a associação entre gordura e doença ou anormalidade foi impulsionada principalmente pela ciência médica e acabou impactando a sociedade. Ao estabelecer critérios do que é doença e saúde, a medicina acaba enquadrando pessoas diferentes, cada uma com suas particularidades, em um grupo único.

É verdade que um número expressivo de pessoas gordas é acometido por doenças que têm alguma ligação com gordura. Mas também é verdade que há gordos saudáveis e magros muito doentes. Portanto, a associação direta entre gordura e doença não faz sentido.

"Essa crença é, no fundo, uma forma de poder e controle, como defendia o filósofo e historiador Michel Foucault. Afinal considerar a gordura algo feio ou doente faz com que muita gente siga em busca do oposto, a magreza. E, como sabemos, há uma grande e poderosa indústria por trás disso", defende.

Gorda e saudável

Maria Luísa não conhece essa ideia apenas na teoria. Já viveu na prática. Anos atrás, um médico sugeriu que passasse por uma cirurgia bariátrica, um procedimento que ela considerou invasivo e arriscado demais. "A justificativa dele era a de que eu estava gorda. No entanto, mas meus exames estivessem ok", conta ela que já pesava os 125 quilos que mantém até hoje.

A ativista, aliás, tem um estilo de vida considerado bastante saudável. Faz uma alimentação à base de alimentos orgânicos, e mantém, há mais de oito anos, uma rotina de exercícios que inclui aulas regulares de hidroginástica.

"Tenho muitas amigas magras que comem mal, usam drogas, não dormem direito, algumas têm anemia e problemas respiratórios. Mas as pessoas não questionam a saúde delas. O ativismo gordo não tem nada a ver com o questionamento sobre saúde. Lutamos justamente pelo fim da ideia de que gordura é doença e ponto. Mesmo porque nenhum corpo é 100% saudável o tempo todo", diz.

Um novo olhar sobre a gordura

A recomendação para fazer cirurgia bariátrica teve uma repercussão positiva, porém. Foi a partir do episódio que a filósofa passou a olhar de forma mais crítica para o tratamento dado ao gordo na sociedade. E, então, partiu para a academia para estudar o tema.

Atualmente, além da militância, ela se dedica a um doutorado sobre gordofobia e o lugar social do gordo. Os estudos a fizeram entender, por exemplo, o quanto o corpo gordo é dissociado de feminilidade, em um contexto de sedução. "A mulher gorda costuma ser associada à mãe ou a lésbicas, como se a feminilidade fosse exclusividade dos corpos mais frágeis, sobretudo 'mignons' e brancos", diz.

No processo, Maria Luísa percebeu ainda que a gordofobia, muitas vezes, causa mais sofrimento e doença para pessoas gordas do que a própria gordura. "O preconceito social faz com que o gordo se sinta um objeto digno de nojo. As pessoas olham diferente para você no restaurante, ou evitam encostar em você... Uma vez uma passageira em um avião quis trocar de lugar para não relar em mim. Eu achei ótimo, porque tive mais espaço disponível quando ela se mudou. Mas, antes de conseguir me sentir assim, já chorei muito no banheiro, já fiz muita terapia", desabafa.

A culpa é da pessoa gorda ou dos padrões sociais?

Essa estigmatização, não raro, leva o gordo a um sentimento de culpa por não ser aquilo que a sociedade, a medicina, esperam que ele seja. Restam, então, poucas saídas: viver no sofrimento, o isolamento, ou a adesão a procedimentos médicos que prometem enquadrar a pessoa no dito corpo ideal.

"Muitas das mulheres com quem tenho tido contato estão despedaçadas, algumas já tentaram o suicídio. E o ativismo virou uma espécie de salvação porque nos empodera e nos faz ver que não somos culpadas, que existem vários tipos de corpos e que todas temos o direito, como todo mundo, de transformar a realidade", afirma..

Juntas somos mais fortes

Em novembro passado, Maria Luísa participou do primeiro encontro latino-americano sobre gordofobia, em Bogotá, na Colômbia. A experiência não apenas trouxe mais informação para ela, como a colocou em contato com mais novas formas de olhar para o tema.

Lá ela descobriu que há algumas diferenças entre o ativismo contra gordofobia praticado no Brasil e aqueles de outros países que participaram do evento na capital colombiana. Chamou a atenção dela, por exemplo, o debate sobre "gordas maiores e gordas menores" que acontece principalmente aqui no Brasil.

"A gorda maior, que, de acordo com o que eu tenho estudado, é a mulher que usa manequim acima de 56, ou 58, enfrenta muito mais problemas de acessibilidade. Eu, por exemplo, tenho muitas dificuldades quando viajo de avião. Chego ao meu destino toda roxa. Isso também acontece quando vou a hotéis e não consigo entrar nos boxes para o banho, porque eles estão cada vez menores", explica.

A pesquisadora também viu bons exemplos de pessoas que transformaram a dor em algo criativo. "Vi no encontro em Bogotá as pessoas se cuidando, se amando. Foi a maior lição para mim. O coletivo muda coisas, as transforma, especialmente se é um ativismo pelo afeto. Esses corpos estão tão doloridos e tão machucados pelo preconceito que, quando são atendidos com amor, tudo muda - e aí se reage de outras formas e se vê que a vida pode fazer muito sentido. A minha, agora, está cheia de sentido."

Maria Luísa gosta de fazer uma analogia entre o lugar onde vive, a Chapada, e o ativismo. Há milhares de anos, a região, que hoje tem rios e cachoeiras, também era banhada pelo mar. Reza uma lenda local que existia um lugar, considerado um paraíso, onde o mar e as cachoeiras se encontravam. Ali, baleias se reuniam de sete em sete anos, sete meses, às vezes sete dias, para cantar e dançar.

"A cada encontro, surgiam mais baleias, de lugares mais distantes e mais sofridos. Depois desse ritual, tudo mudava: elas se fortaleciam e voltavam para suas casas. Meu ativismo é assim: nunca um caminho fácil, mas, agora, não estou mais sozinha."

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