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Mães e filhos

Associação Monte Azul, que deu origem à Casa Angela, completa 40 anos em SP

Silvana e Marina: hoje ela tem 10 anos - Arquivo Pessoal
Silvana e Marina: hoje ela tem 10 anos Imagem: Arquivo Pessoal

Paulo Moreira

Colaboração para Universa

06/01/2020 04h00

"Eu cheguei no hospital com três dedos de dilatação e o médico deu um remédio para parar. Passei a noite toda com dor e, no dia seguinte, outra médica disse que era maldade, que era para ter nascido no dia anterior. É como se o seu filho fosse só mais um ali dentro. Um número", conta Silvana da Silva Gonzaga, 46, sobre seu quinto parto.

Ela se emociona, no entanto, ao lembrar de todo o processo que levou sua sexta criança, Marina, que hoje tem 10 anos, a abrir os olhos pela primeira vez. O parto foi o primeiro a acontecer no centro de parto natural, Casa Angela.

O local pertence a uma iniciativa maior, que existe desde 1979, chamada de Associação Comunitária Monte Azul, fundada pelas alemãs Ute Craemer e Renate Keller. "Do nosso ponto de vista, academicamente comprovado, o primeiro momento da vida da criança é um dos momentos mais importantes do desenvolvimento do ser humano, tem que ser envolto em amor e cuidados", explica Ute.

A casa de parto

Angela Gehrke da Silva começou a realizar os partos na favela ou dentro da própria casa, ainda nos anos 1980. Começou a dar palestras, sempre incentivando o parto natural. Em 1997, ela fundou a Casa de Parto Monte Azul, a primeira da cidade. O espaço encerrou as atividades dois anos depois, mas, em seguida, após o falecimento de Angela, a região ganhou uma nova Casa, dessa vez em homenagem à parteira alemã.

Anke Riedel era uma das voluntárias que trabalhava com Angela. Ela voltou para a Alemanha, cursou medicina, voltou e abriu a Casa Angela, com um dos protocolos mais reconhecidos em parto humanizado no país.

Uma criança esperada

"Nossos filhos são recebidos de verdade, são tratados como uma criança que é esperada, desejada, amada. Não é 'mais uma que chegou'. Não tenho palavras para falar do atendimento, como eles tornam emocionante o momento. Foi um sonho para mim e para o meu esposo. Ele viu a filha dele nascer, pôde ficar olhando nos meus olhos e cortou o cordão umbilical da filha", descreve Silvana, emocionada.

Ela garante que o parto fez a diferença na vida de Marina, quando comparado aos outros cinco filhos que teve. O mais velho tem 27 anos. "A Marina foi esperada, foi recebida, é inexplicável. Eu sinto a diferença dela para os outros, uma luz diferente. É uma coisa muito linda (o trabalho), a espera, o carinho de receber. Mesmo com todo aquele processo de dores, é diferente. Tudo isso passou para ela. A chegada foi maravilhosa".

Convênio com Prefeitura e comunidade local

Marina foi a primeira dos mais de 300 bebês que vêm ao mundo, por ano, na Casa Angela. A casa de parto natural acolhe, prioritariamente, gestantes da região, mas também de outros locais, inclusive com encaminhamento do SUS, com parceria estabelecida com a Prefeitura de São Paulo no fim de 2015.
As mães da região e as que são encaminhadas pela Prefeitura recebem atendimento gratuito, já outras mães podem entrar com pagamento, mas cada caso é analisado separadamente.

"Tem algo para dar?"

Ute chegou ao Brasil para lecionar e diz que tudo mudou em sua vida quando atendeu à porta e encontrou uma criança que perguntou "tem alguma coisa para dar?". Assim, em 1979, nasceu a organização Monte Azul, em parceria com outros voluntários. A instituição atende cerca de 7,5 mil crianças, jovens e adultos, por ano, nas áreas de educação, cultura e saúde, orientada pelo pensamento antroposófico, área de atuação de Ute.

Na medicina, o atendimento consiste em práticas de medicina alternativa e ciência natural. A Casa Angela faz parte deste guarda-chuva. Ela observou o crescimento da favela Monte Azul, que era uma das regiões que mais recebia migrantes vindos do Nordeste. "O projeto começou na minha casa, no auge da ditadura militar. Evoluiu bastante, hoje já temos gerações que vivenciaram a favela urbanizada, mas no início era aquela de base mesmo, com casas de madeira". Por meio dos programas educacionais e também de saúde, as pessoas tiveram oportunidade de estruturar um futuro diferente. "Cada um tinha mais condições de descobrir o seu próprio talento, algo impensável antes".

Ute acredita que ainda muito precise ser feito, e que está longe do ideal, pois ainda é uma favela, com todas as suas mazelas. "Mesmo assim, é uma maneira melhor de se viver do que há 40 anos, ou em que muitos lugares".

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