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Ela ganhou prótese após ter mãos decepadas por ex: "Agora posso me pentear"

A ex-diarista Geziane Buriola da Silva sofreu tentativa de feminicídio - Arquivo Pessoal
A ex-diarista Geziane Buriola da Silva sofreu tentativa de feminicídio Imagem: Arquivo Pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

29/12/2019 04h00

A ex-diarista Geziane Buriola da Silva, 33, viu sua vida mudar no dia 10 de abril de 2017, quando sofreu uma tentativa de feminicídio pelo ex-marido, em Campo Novo do Parecis, a 397 quilômetros de Cuiabá. Ela teve as duas mãos decepadas ao tentar se defender de golpes no pescoço.

Agora, quase três anos depois do crime, Geziane alcançou seu maior sonho: ganhou duas próteses para os braços depois de mobilização de internautas. "É uma felicidade sem explicação. Tenho tanta vontade de pentear meu cabelo e assinar meu nome sozinha. Agora vou poder fazer isso", conta.

A vaquinha virtual arrecadou R$ 114.858 em três meses e teve participação de 2.238 pessoas. O dinheiro é o suficiente para Geziane ter duas próteses e duas luvas de silicone para usá-las no dia a dia. A ideia surgiu a partir do site Voaa, destinado exclusivamente para ajudar pessoas em dificuldade.

Geziane nutria o sonho das próteses desde que saiu do hospital, depois de ficar dois meses internada. Desses, 20 dias foram vividos em coma induzido. Além das mãos decepadas, ainda sofreu cortes pelo corpo. A ex-diarista calcula ter mais de mil pontos cirúrgicos decorrentes dos ferimentos.

As próteses contam com tecnologia mioelétrica, capaz de responder movimentos dos músculos do braço. A previsão é de que ela as receba até o fim de janeiro para iniciar o processo de fisioterapia.

"Em me sinto muito feliz em saber que gente de todo lugar me ajudou. No mês que vem vou experimentar a prótese e fazer fisioterapia para me adaptar a ela. Se tudo ocorrer bem, vou usar diariamente", diz.

Em busca de uma vida normal

Com a doação, Geziane espera ficar menos dependente dos outros. Para afazeres do cotidiano, como pentear o cabelo e preparar comida, ela conta com auxílio de parentes, amigos e dos filhos, de 13 anos e de 9 anos.

"Pretendo escrever meu nome em uma nova identidade. Atualmente, quem assina por mim é minha mãe. Também quero arrumar os meus cabelos, arrumar minha casa, fazer comida", planeja.

Geziane recebe uma pensão de um salário mínimo. Com esse dinheiro, ela preciso pagar aluguel e luz, sustentar os dois filhos e fazer as compras da casa.

Ela espera conseguir um trabalho que possa ser exercido com uso das próteses. Enquanto o emprego não vem, Geziane também conta com doações de pessoas que se comovem com sua história de superação.

"Quando eu tiver a prótese, pretendo arrumar alguma coisa para me sustentar e ajudar meus filhos. Depois de tudo isso, as pessoas me perguntam como eu não tive depressão. Foi Deus que me deixou em pé para seguir em frente na minha vida", afirma.

Agressor foi condenado a 16 anos de prisão: "Foi pouco"

Geziane sofreu tentativa de assassinato depois que o ex-marido, o operador de máquinas Jair da Costa, 32, chegou em casa. Ela conseguiu correr para a rua. O ex-marido a perseguiu e continuou com as agressões físicas, sendo contido por vizinhos. O homem foi agredido e imobilizado até a chegada da Polícia Militar.

Ela relata que o crime foi premeditado, já que ele não aceitava o fim do relacionamento de um ano e cinco meses -tempo durante o qual ela teve que conviver com ameaças e agressões.

"Foi meu ex-marido que fez isso. Me cortou todinha de facão. Tive ferimentos na perna, braços, rosto e cabeça. Tenho mais de mil pontos no corpo. Quando ele tentou cortar o meu pescoço, coloquei meu braço na frente para me defender. Se não fizesse isso, estaria morta", diz.

Jair da Costa ficou preso de forma preventiva até 12 de julho de 2019, quando foi condenado pela Justiça de Mato Grosso e passou a cumprir pena de 16 anos por tentativa de feminicídio. Para Geziane, a condenação "amenizou" a dor, mas considera que a pena poderia ser maior. "Dezesseis anos de prisão não trarão minhas mãos de volta. Eu achei foi pouco."

Violência contra a mulher