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Mães e filhos

Bela Adormecida nordestina e outras histórias infantis contra o bullying

Janine Rodrigues transformou clássicos infantis em condutores para debater bullying - Divulgação
Janine Rodrigues transformou clássicos infantis em condutores para debater bullying Imagem: Divulgação

Roseane Santos

Colaboração para Universa

25/12/2019 04h00

Quem chegou à idade adulta hoje, não conheceu na infância uma Bela Adormecida nordestina ou imaginou a lenda de uma menina que era humilhada pelos colegas por ter marcas de catapora no rosto. Dificilmente se vê personagens assim nos contos tradicionais da literatura infantil. Só que uma escritora resolveu não só dar voz a eles, como os transformou em condutores para debater com crianças temas como o bullying, o racismo e a diversidade.

Com seis livros publicados, Janine Rodrigues, 37 anos, fundadora da editora Piraporiando, sempre gostou de escrever. "Criava histórias e contava para amigos da minha idade. Nasci em Cardoso Moreira, interior do Rio de Janeiro. Eu tive uma infância livre, aquela de brincar muito, subir em árvores. Não tinha o desejo de me tornar logo adulta, como muitas meninas tem. Cresci e me graduei na área sócio-ambiental e logo fui trabalhar em uma multinacional, mas nunca deixei de participar de projetos relacionados à Educação", conta.

Ao publicar seu primeiro livro, 'No Reino da Pirapora', em 2013, ela passou a receber convites para atividades nas escolas. " Ele tratava de um tema delicado, que chamou atenção de alguns educadores. Era a história de uma menina que tinha marcas de catapora e virou chacota. Depois com a morte da avó, ela assumiu o comando do seu reino e resolveu se vingar de todos. A obra tratava do bullying, não só na visão de quem sofre, mas também de quem o pratica", explicou.

Janine Rodrigues - Divulgação - Divulgação
Em "No Reino da Pirapora" uma menina tinha marcas de catapora e virou chacota
Imagem: Divulgação

Com o passar do tempo, essas ações nos colégios se intensificaram. "Passei a conversar mais com alunos e professores, me empolguei muito e achei que era possível discutir bullying, anti-racismo e a diversidade dentro do ambiente escolar. Abordar esses temas na infância é muito importante para não se criar um adulto preconceituoso", diz.

Com eventos promovidos pelas instituições de ensino, ela começou a vender muito mais livros e assim surgiu a ideia de empreender. Em 2015, fundou a Piraporiando estruturando os projetos de arte-educação, passando a também editar seus próprios livros para ter mais autonomia na produção e distribuição. "Amava meu trabalho na área de meio ambiente, viajava muito, tinha profissionais maravilhosos do meu lado, mas a literatura era meu sonho. Gostava de ler em voz alta também. Escrevi minhas primeiras histórias aos 10 anos de idade", recorda.

Os livros de Janine têm uma abordagem que vai além de um conto de fadas. Seu lançamento mais recente, 'Onde está o Boris?', além de trazer situações divertidas e curiosas sobre um gato que todos acham ter sumido, também aborda o manterrupting (quando um homem interrompe constantemente uma mulher, de maneira desnecessária, não permitindo que ela consiga concluir sua frase) ainda na infância.

Já 'Nuang - Caminhos da liberdade' ressalta a cultura afro-brasileira, através do olhar de uma criança. A publicação recebeu a chancela da Fundação Cultural Palmares. Segundo a instituição, este trabalho provoca reflexões importantes sobre a história afro-brasileira e contribuem para cumprimento da Lei nº 10.639/2003, que estabelece diretrizes e bases da educação nacional para o ensino das culturas africanas e afro-brasileira.

Janine Rodrigues - Divulgação - Divulgação
A obra "Nuang – Caminhos da liberdade" ressalta a cultura afro-brasileira, através do olhar de uma criança
Imagem: Divulgação

"Duas Bonecas Azuis" foi o impulso que faltava para ela se dedicar exclusivamente a levar a sua mensagem para dentro das escolas. "O livro contava do medo de uma menina, que viu duas bonecas no escuro e depois mudou de opinião sobre elas, quando pode vê-las durante o dia. Queria mostrar que a visão muda de acordo com a luz que está sobre ela. Era o debate sobre preconceito. A vontade de fazer um projeto que falasse direto com as crianças sobre esses temas foi aumentando e resolvi largar o meu emprego como gerente e me dedicar somente a isso, unindo a literatura à educação.

Em 2015, ela abriu o projeto 'Trilha Literária', que aposta na brincadeira, na coletividade, na escuta e na interatividade. Alinhado à BNCC — Base Nacional Comum Curricular, aos pilares da UNESCO para a educação e no afeto, elemento prioritário no trabalho da Piraporiando, a Trilha é composta pela obra literária, por um livro de atividades, plataforma online interativa e uma proposta que interage com brincadeiras. É realizado um treinamento com os professores para que eles executem atividades nas escolas, fazendo uso da metodologia da editora e com acompanhamento.

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"Duas Bonecas Azuis" fala do medo de uma menina, que viu duas bonecas no escuro e depois mudou de opinião sobre elas
Imagem: Divulgação

Reconhecimento

Mesmo com um tempo pequeno de fundação, a Piraporiando já colhe bons frutos. Ela foi eleita uma das startups que estão mudando a educação no país, segundo levantamento inédito do Liga Insights EdTechs que estuda o mundo das edtechs (empresas que usam a tecnologia educacional e tecnologias da informação para apoiar os processos de ensino e aprendizagem).

A pesquisa analisou 12.213 startups e consultou profissionais, especialistas e empreendedores no setor para chegar a esse ranking. A editora foi destaque na categoria "Educação Inclusiva", que premia conjunto de startups que desenvolvem soluções capazes de auxiliar na frente de inclusão no ensino, usando a tecnologia para abrir frentes e na aplicação das adaptações necessárias.

Além de escrever obras literárias, Janine realizou aproximadamente 88 projetos em escolas e centros culturais do Brasil, e já atua em países como Colômbia, Argentina e Chile. "Tudo surgiu a partir de uma necessidade e vontade de impactar mais crianças. Muito tem se falado sobre as habilidades sócio-emocionais e acreditamos que elas são essenciais no desenvolvimento das crianças. Mas também precisa acontecer na prática, com uma linguagem natural e não só bonita. Não é algo para se fazer por estar na moda. Não existe educação sem afeto.", finaliza.

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