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Política e fake news à mesa: dá pra ter ceia de Natal em família sem treta?

AaronAmat/Getty Images/iStockphoto
Imagem: AaronAmat/Getty Images/iStockphoto

Nathália Geraldo

De Universa

22/12/2019 04h00

As combinações pelo grupo do WhatsApp de quem vai levar o quê para a ceia de Natal até que funcionaram. Mas agora se aproxima a hora de todos os familiares sentarem à mesa para celebrar a data cristã. Você então diz "Oi, tia" para quem compartilhou fake news sobre desastres ambientais, política e vida de famosos o ano inteiro nas redes sociais. E aí, esses temas surgem no meio da refeição.

Dá para passar um Natal sem tretas neste ano? "Essa é uma época muito temida por psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, porque a questão familiar é cheia de conflitos de geração e de opinião. Há desencontros", explica o psicanalista e professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker. "Natal é tempo de alta reatividade".

A seguir, ele dá orientações para quem quer marcar presença na reunião dos parentes que pensam de forma diferente sem perder a serenidade. Em paralelo, avalia Dunker, vale se desconectar um pouco das redes sociais, para arrefecer os ânimos das tretas de internet.

Brigas na mesa do Natal: como evitar?

Além de ser uma data cristã — que inspira sentimentos de perdão, coletividade, para quem segue os preceitos religiosos — o Natal pode ser um período de reflexão, por estar perto do fim do ano.

Acontece que quem não se viu (mas se "bicou") durante 2019 pode ter que se encontrar na noite natalina. São duas possibilidades: se abrir mutuamente para reconciliações ou, entre as entradas e a sobremesa, gerar um clima "altamente explosivo", como explica o psicanalista Christian Dunker.

"As pessoas podem estar mais reativas, mas também podem retomar algumas conversas para reconciliação. Isso porque há um clima menos tenso nas famílias, pelo arrefecimento da questão eleitoral; por outro lado, neste ano, as pessoas já fizeram reflexões trazidas pelas ações do Governo Bolsonaro — que, como Governo, sempre promete mais do que entrega".

Quem bateu esquece, quem apanhou lembra

Dunker lembra, no entanto, que as discussões que se arrastaram até agora entre os brasileiros — especialmente relacionadas ao panorama político do País — tendem a ficar "guardadas em outro espaço do coração" por quem se sentiu ultrajado. "Já aquele que bateu, esquece, atribui a atitude à exaltação do momento".

Sentado à mesa: o que fazer?

Se você quiser manter a conversa, será preciso seguir algumas estratégias, avalia psicanalista - SolStock/Getty Images/iStockphoto
Se você quiser manter a conversa, será preciso seguir algumas estratégias, avalia psicanalista
Imagem: SolStock/Getty Images/iStockphoto

Mesmo que seja muito difícil falar com seu tio, primos, avós...E mesmo que os papos não assumam a polarização "direita x esquerda", pontua Dunker, a mesa natalina sempre foi vista como um palco de concorrência de narrativas. Por isso, é comum que rolem troca de leituras [de mundo] e confronto de repertórios.

"O que muda, agora, é que as fontes de informações oficiais estão sobre suspeita. Antes, a gente tinha dúvida em uma questão, consultava a enciclopédia ou um jornal e entendia". Neste momento, Dunker avalia que até mesmo o que é fato se torna ponto de dúvida. E aí, os argumentos ganham mais força do que os dados.

Três passos podem ajudar a não se desesperar frente a essa situação:

1) Preste atenção ao seu humor

"Quando perder a leveza e a disposição para a conversa, a suspenda. Saia da sala. Conheça seus limites. Não pense que você aguenta ouvir qualquer coisa; inclusive, é para isso que existem os profissionais da escuta [psicólogos, por exemplo]", diz o psicanalista.

2) Procure aliados, mesmo os que não seriam naturais

"Não fique sozinho, procure seus parceiros. Pode ser uma criança que não tem com quem brincar ou puxando uma conversa com quem fica ali na frente do forno esperando o peru assar", comenta o psicanalista. "São pessoas que não seriam aliados espontâneos, mas tudo bem".

3) Não tente antecipar o que o interlocutor vai dizer (e não se coloque no lugar que ele o colocar)

"Coloque-se numa atitude de dúvida, incerteza. E não responda do lugar que você é colocado. Se a pessoa espera que você grite, 'rosne', não responda assim. Já se ela espera uma postura paciente, responda com inquietude". As respostas, é claro, devem respeitas a forma de comunicação que se estabelece entre os membros da família e seu próprio conforto dentro da conversa.

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