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Iniciativa apoia refugiadas venezuelanas que enfrentam dura rotina no país

Imigrantes venezuelanas em aula de artesanato  - Filipe Abreu/Divulgação
Imigrantes venezuelanas em aula de artesanato Imagem: Filipe Abreu/Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

17/12/2019 04h00

São muitos os desafios do imigrante venezuelano ao deixar seu país e chegar ao Brasil, onde precisa lidar com o desemprego, preconceitos e falta de acesso a direitos básicos, como segurança, saúde e educação. Para as mulheres venezuelanas, a situação é ainda mais complicada, já que muitas se encontram vulneráveis, com problemas de saúde, com um familiar doente ou em risco de exploração sexual.

Briggitte Jimenez, 49 anos, sabe o que é isso. Como outros venezuelanos, ela imigrou para Boa Vista, capital de Roraima, em fevereiro deste ano, fugida da crise de seu país de origem e em busca de ajuda para salvar o filho de 17 anos, que tem câncer e que teve o tratamento interrompido devido ao colapso do programa de saúde público da Venezuela.

Sem saída, Briggitte deixou para trás o restante da família e veio com o filho para o Brasil. Aqui, para sua surpresa, descobriu que a situação não era das mais favoráveis. "Os venezuelanos partem com a esperança de que, ao chegar aqui, tudo será fornecido, mas não é bem assim."

Ajuda para sair do buraco

Sozinha e com o filho muito doente, Briggitte não podia procurar trabalho. Sem ter para onde ir e sem saber o que fazer, acabou se juntando a outras venezuelanas que acampavam em frente a uma igreja. Foi nessa situação que ela e as demais imigrantes receberam assistência da ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas que, desde 2018, mantém um escritório em Boa Vista para promover ajuda humanitária e ações voltadas às mulheres e à igualdade de gênero.

"Foi a primeira ajuda que recebi. Perceberam meu estado e me ajudaram a sair do buraco", conta a venezuelana, que se diz muito mais forte, apesar de não ter conseguido salvar o filho. O rapaz morreu pouco depois de ela ter encontrado apoio.

Em parceria com a Defensoria Pública, a Universidade Federal de Roraima, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e o Médicos Sem Fronteiras, entre outras organizações, a ONU Mulheres busca impactar a vida de centenas de venezuelanas que imigraram para o Brasil.

"No início dos trabalhos, essas mulheres nos diziam que sentiam que eram ouvidas pela primeira vez desde que chegaram ao país", diz Fernanda Givisiez, coordenadora de apoio psicossocial da ONU Mulheres.

Conduzidas para espaços de acolhimento seguros, montados dentro de abrigos temporários e administrados pelo Acnur com apoio de ONGs, as venezuelanas então são encaminhadas para serviços públicos, recebem tratamento psicológico gratuito, aconselhamento jurídico e ajuda financeira de emergência.

Também têm a oportunidade de participar de workshops de educação financeira e oficinas sobre temas como resolução de conflitos, qualificação profissional, empreendedorismo, aulas profissionalizantes e diálogos com homens sobre não violência e responsabilidades compartilhadas.

Depois, podem aproveitar o conhecimento adquirido para se unir e desenvolver projetos que garantam sua autonomia financeira.

Com o apoio de parceiros, a ONU Mulheres promove ainda campanhas de conscientização de funcionárias públicas brasileiras para que compreendam a rotina dura enfrentada pelas venezuelanas. "Infelizmente, percebemos que a discriminação e a xenofobia são crescentes", diz Tamara Jurberg, gerente de Projetos de Ação Humanitária da ONU Mulheres. "Por isso, é preciso trabalhar não apenas com imigrantes e refugiadas, mas com a população em geral para facilitar o processo de inclusão dessas mulheres aqui ou em qualquer parte do Brasil."

Choque de realidade

Na periferia de Boa Vista, os resultados da ação já começam a aparecer. No bairro de Pintolândia, em um abrigo para o acolhimento de índios venezuelanos das etnias warao e e'ñepá, as mulheres mais experientes têm se reunido para instruir as mais novas na fabricação de peças artesanais que não só ajudam a preservar suas identidades como garantem a sustentabilidade da comunidade.

A fim de que exemplos como esse se disseminem e ajudem a fortalecer ainda mais a integração entre as venezuelanas, também são incentivados dentro dos abrigos rodas de conversa, dinâmicas coletivas e atendimentos com grupos de apoio.

Entre os principais assuntos abordados nesses encontros está a questão dos direitos no Brasil, como os dos imigrantes e os das mulheres. Mas também ocorrem trocas de histórias pessoais, de desafios e planos e expectativas para o futuro.

Para que essas as venezuelanas consigam compreender a realidade do país e se comunicar, são propostas iniciativas culturais e disponibilizadas voluntárias fluentes em espanhol. Em julho deste ano, por exemplo, dezenas de imigrantes, entre elas mulheres trans, puderam conferir uma exposição guiada sobre a cultura brasileira.

Na ocasião, as espectadoras ficaram chocadas ao descobrir que, diferentemente da Venezuela, no Brasil os negros ainda são alvo de racismo, conta Tamara Jurberg. "Nos identificamos como humanos, não só pela cor da pele ou pela nacionalidade, mas também com uma história de sofrimento das massas" diz a imigrante venezuelana Doryit Starlin. "Temos muito mais em comum do que pensamos."

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