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"Homem é a fonte menos confiável para aprender sobre sexo", diz médica

Jen Gunter, em seu Ted Talk: você vai confiar logo em um homem? - Reprodução/ iStock
Jen Gunter, em seu Ted Talk: você vai confiar logo em um homem? Imagem: Reprodução/ iStock

Fernanda Ezabella

Colaboração para Universa de Palm Springs, Califórnia

17/12/2019 04h00

A médica Jen Gunter é tão onipresente na internet que ganhou o apelido de "a ginecologista residente do Twitter". Não à toa, resolveu escrever uma bíblia, ou melhor, um livro com textos didáticos para combater os mitos e espalhar conhecimento sobre a saúde da mulher.

O livro "A Bíblia da Vagina" (ainda sem editora, deve ser lançado no Brasil em 2020) dá uma aula de anatomia sobre vagina e vulva, explica que ponto G não existe, nem mesmo toxinas vaginais que precisam ser purificadas. Fala sobre vacina de HPV, a função dos pelos, a origem misteriosa do hímen e alimentação (o que você come não muda o cheiro da vulva, nem açúcar causa infecção).

"A maioria das mulheres que se relacionam com homens aprende sobre sexo com a fonte menos confiável de todas, um homem!", disse a médica a Universa, nos bastidores do TED Women, evento que aconteceu em Palm Springs, sul da Califórnia

"Não temos têm informações anatômicas confiáveis porque é vergonhoso falar sobre. É a cultura da vergonha. E fatos são libertadores."

Gunter, que cresceu no Canadá e hoje mora nos EUA, tem um blog, um programa de TV e uma coluna no "New York Times". Sua fama online aumentou quando ela começou a bater de frente com a atriz Gwyneth Paltrow e seu site Goop, que vendem bizarrices sem nenhuma validade médica, como ovos de jade e banhos de vapor, ambos para "purificar a vagina".

"Tanta gente já ouviu tanta mentira. Há tanto lixo sendo vendido online", disse a ginecologista. "Escrevo muito sobre saúde da mulher e toda vez as pessoas ficam surpresas: 'Como é que eu não sabia disso?'"

Diarreia Menstrual

Em sua palestra no TED Women, a ginecologista focou em menstruação e usou sua história pessoal para mostrar o impacto da cultura da vergonha.

Quando adolescente, tinha cólicas devastadoras, sangramento intenso e intestino solto, uma combinação que chamou de "diarreia menstrual". Ao procurar ajuda, ficou ainda mais perdida.

"Minha mãe não sabia nada, apenas que menstruação era algo sujo e vergonhoso e que eu não deveria falar sobre isso", disse. "Perguntava para minhas amigas, e elas falavam em eufemismos. Quando finalmente fui ao médico pedir ajuda, ele me recomendou comer fígado!"

Hoje, Gunter sabe que 28% das mulheres sofrem com "diarreia menstrual". E ainda hoje, quando tuíta sobre o assunto, recebe mensagem de alguém dizendo: "Achava que eu era a única!"

Falar sobre menstruação, segundo Gunter, virou tabu por causa de sociedades patriarcais que investem em oprimir mulheres. "Não é por causa do sangue. Se fosse, as mulheres alcançariam um status social maior quando entrassem na menopausa", disse, fazendo a plateia rir.

Bruxaria?

Desde o começo dos tempos, muitas culturas achavam que a mulher menstruada pudesse estragar a plantação ou azedar o leite. E quando as religiões chegaram, os mitos da pureza apenas pioraram as coisas, diz a médica.

"A medicina também não ajudou muito", afirmou, explicando que nos anos 1920 e 1930 havia um conceito de que as mulheres desenvolviam uma toxina relacionada à menstruação. "É o que acontece quando não existe diversidade. Não tinha uma mulher para levantar a mão e dizer: 'Isso não acontece. Como pode um embrião se desenvolver num lugar tóxico?'"

Para combater problemas menstruais, listou alguns procedimentos, como estimulação elétrica que pode ser usada de maneira discreta debaixo das roupas, contraceptivos hormonais e remédios que, além de reduzir dor e diarreia, diminuem o fluxo de sangue entre 30 e 40 por cento.

Mas nem todo medicamento funciona para todas, e há ainda mecanismos de dor que não foram estudados. "Só vamos descobrir o tratamento para eles se falarmos sobre", disse.

"A única bruxaria aqui é de quem consegue convencer metade da população de que a única máquina biológica capaz de perpetuar a espécie é de alguma forma suja ou tóxica", disse. "Não dá mais. E o único jeito de quebrar essa maldição é conhecimento."

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