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Na política há 30 anos, prefeita ainda ouve: "Você consegue resolver isso?"

Teresa Surita, prefeita de Boa Vista - Claudia Ferreira/Divulgação
Teresa Surita, prefeita de Boa Vista Imagem: Claudia Ferreira/Divulgação

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

16/12/2019 04h00

Paulista de São Manuel, a turismóloga Teresa Surita (MDB), 62 anos, ocupa pela quinta vez a prefeitura de Boa Vista (RR). Em 2012 e 2016, foi a única mulher eleita para comandar uma prefeitura de capital no Brasil. No ano passado, duas mulheres eleitas como vice, Cinthia Ribeiro (Palmas) e Socorro Neri (Rio Branco), assumiram prefeituras de capitais após as renúncias dos titulares.

"Acredito que regredimos agora com a eleição do Bolsonaro. Existe uma avaliação de que a mulher não deve ocupar tanto espaço", diz, sobre o resultado dos últimos pleitos.

O pior momento vivido por ela, segundo conta, aconteceu em 2018, quando foi agredida verbalmente pelo presidente da Assembleia Legislativa de Roraima, o deputado Jalser Renier (SD). Durante uma entrevista a uma rádio, Renier chamou a prefeita de vaca, puta e pilantra. No último dia 26 de novembro, o parlamentar foi condenado a pagar R$ 40 mil de indenização à prefeita por danos morais. Ele recorre da decisão.

"Com certeza, ele não faria isso se fosse com um homem", diz.

Teresa chegou a Boa Vista em 1987 para acompanhar o ex-marido Romero Jucá, ex-senador e ex-governador de Roraima, que, nos últimos anos, teve o nome envolvido em casos de corrupção.

Além de prefeita, Teresa também foi deputada federal por Roraima (1990-92). Segundo ela, o ex-marido, de quem está separada há dez anos, não tem qualquer relação com o seu sucesso nas urnas.

"Seria muito fácil continuar como Teresa Jucá, mas fui buscar o meu nome de novo e construí a minha história separada da dele", diz a prefeita.

Irmã do apresentador Emilio Surita, do programa "Pânico", Teresa é mãe de duas filhas, a veterinária Luciana e a nutricionista Ana Paula, que não quiseram seguir os passos dos pais. "Nem aconselho", diz.

Como avalia a falta de representatividade feminina no comando dos executivos das capitais?

Falar de política hoje é bem complexo. No executivo, havia mais mulheres ocupando cargos antigamente do que de um tempo para cá. Acredito que regredimos agora com a eleição do presidente Bolsonaro. Existe uma avaliação de que a mulher não deve ocupar tanto espaço. É a minha sensação. O fato de a gente ser mulher faz com que tenhamos de provar a nossa capacidade duas vezes e, em alguns casos, até três. No que diz respeito a mim, eu gosto e me identifico com o que faço. Não é um sacrifício.

Acredita que a onda conservadora das últimas eleições influenciou nesta representatividade?

Essa onda conservadora atinge a questão do feminino. As pessoas estão muito extremas. A política ainda é muito machista. O que percebo é que algumas mulheres acabam se colocando mais agressivamente e de forma mais dura para poder falar em uma reunião. É a forma do Brasil de fazer política. No Congresso, você não tem muita chance de ocupar as mesmas comissões e assumir as mesmas presidências. Parece que os homens já são vistos para os cargos.

Como lida com o machismo na política?

Uma coisa é a minha relação com a população, que o machismo não afeta pelo resultado que entrego. Agora, no meio político, tenho muita dificuldade, sim. É algo que vem desde o primeiro mandato até aqui, mesmo tendo uma trajetória há muito tempo. Existe esse preconceito, não podemos negar. Acho que, daqui a algumas décadas, [as diferenças entre homens e mulheres na política] poderá se igualar, mas hoje ainda temos essa dificuldade.

No ano passado, durante uma entrevista a uma rádio, o deputado Jalser Renier a chamou de vaca e outros xingamentos. Acredita que o ataque do deputado foi influenciado pelo fato de a senhora ser mulher?

Nada justifica aquele tipo de atitude e, com certeza, ele não faria isso se fosse com um homem. Só tinha mulher no estúdio, com exceção do apresentador e do meu assessor. Foi algo sem explicação. Trato como o pior enfrentamento da minha vida.

Como se sentiu ao receber a notícia de que o presidente da Assembleia terá que lhe pagar uma indenização?

Acho que isso não apaga o que aconteceu. Nem sei se vou receber a indenização. Essa condenação significa mais o fato de a Justiça mostrar que ele está errado do que o de apagar a agressão da nossa memória. Aquilo faz com que a gente mude. Quando alguém fala mais alto, você já fica assustada, é algo comum a quem realmente sofre violência. Com ele, não quero nenhum tipo de aproximação. Não dá para conversar.

Acredita que ainda existe um incômodo dos homens quando veem mulheres em cargos antes ocupados majoritariamente por homens? Se sim, como isso se manifesta?

Há uma parcela com esse comportamento. É muito comum as pessoas, em algumas situações, me dizerem: "Você, como mulher, consegue resolver isso?" Claro que consigo, mas sempre existe essa dúvida.

Muitas das mulheres que enveredam pela carreira política são mulheres ou filhas de políticos e, para alguns, estariam nos cargos não por mérito, mas por esse apadrinhamento. Já sofreu preconceito por ter entrado na política por intermédio do seu ex-marido?

Seria muito fácil continuar como Teresa Jucá, mas fui buscar o meu nome de novo e construí a minha história separada da dele. O Romero casou e tem a família dele. Eu também. Temos uma relação, mas nada familiar ou pessoal, e sim de trabalho.

Acho que o fato de a imprensa sempre olhar a mulher pelo olhar da relação com o parceiro, marido ou pai já diminui a capacidade dela. Quando se fala do Romero, ninguém coloca "ex-esposo da prefeita Teresa". Mas, quando falam de mim, mesmo dez anos depois de separada, as pessoas ainda me colocam como "ex-esposa de Romero". Por que isso? Isso não me atrapalha. É só uma marca. Não digo é que ruim ou boa, mas minha capacidade está no que faço hoje ou no que passei há 20 anos?

No começo do ano, a senhora pediu apoio ao governo federal para ajudar os refugiados venezuelanos que atravessam a fronteira em Roraima. Como vem lidando com a questão atualmente? Há alguma ação especial voltada às mulheres refugiadas?

A questão migratória está difícil porque, até hoje, entram centenas de pessoas por dia. Dessas, 30% são mulheres. Cerca de 17% das pessoas de Boa Vista hoje são da Venezuela. Aprendemos a lidar com isso com nosso orçamento, com a realidade que a gente encontrou e com a ajuda de entidades humanitárias. Do governo federal, ainda não tive apoio. Não divulgamos nossas ações para evitar xenofobia, porém sempre buscamos integrar as mulheres às políticas existentes.

Como é a relação com seu irmão, Emílio Surita?

Ele é mais novo que eu. Cada um seguiu o seu caminho profissional. Ele foi para o ramo da comunicação e eu para o da política. Nos vemos muito pouco porque moramos em extremos. É uma relação de irmão. Quando ele tinha o programa Pânico, várias vezes eu comentei alguns quadros. Ele tem a visão política dele e me coloca algumas questões com as quais às vezes não concordo. Cada um tem sua visão bem independente e temos uma boa relação.

Ao longo dos mandatos, a senhora já foi condenada por improbidade administrativa por três vezes, em 2014, 2016 e 2019 [a prefeita atualmente recorre dos processos]. Como se defende das acusações?

Estou no quinto mandato e são condenações absolutamente explicáveis, tanto que ainda estou aqui e não perdi o cargo. Recorro ao que tenho direito.

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