PUBLICIDADE

Topo

Desempregada, artesã trocou Pará por SP e hoje fatura até R$ 50 mil por mês

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Claudia Dias

Colaboração para Universa

16/12/2019 04h00Atualizada em 14/02/2020 12h42

Quando Louise Andrade embarcou no ônibus em Belém para a viagem de mais de três dias rumo a São Paulo, carregava na bagagem poucos pertences e muitos sonhos. Desempregada, queria conquistar uma vida melhor na "cidade das oportunidades". O preço que estava pagando era alto: deixava na capital do Pará o filho, prestes a completar 3 anos, sob os cuidados da mãe, de uma avó e uma tia.

Doze anos depois, a vida de Louise hoje é bastante diferente da que levava no norte do país. Em São Paulo, conseguiu não só se reerguer financeiramente, como também casou, foi mãe mais uma vez, se reinventou profissionalmente e hoje fatura até R$ 50 mil por mês com seus trabalhos como artesã e em cursos que promove, nos quais ensina outras pessoas a empreenderem no artesanato.

Nascida em 1984, Louise tinha 23 anos quando viu que não havia condições nem futuro para ela e o filho em Belém. Solteira, recém-saída de um relacionamento, ela se mantinha com as vendas informais de lingerie. Tinha pouco dinheiro no bolso quando pegou os quase 3 mil km de distância e se estabelecer numa república feminina. Pagaria o primeiro mês de hospedagem com algumas vendas a serem recebidas.

"Foi difícil mas, apesar do sofrimento de deixar meu filho no Pará, foi a decisão mais assertiva para conseguir um emprego. Eu não teria como cuidar dele e prospectar uma boa oportunidade", relembra.

Fome e frio em São Paulo

Antes de engravidar, Louise cursava Produção de Eventos. À época, já planejava se mudar para São Paulo quando terminasse os estudos. Entretanto, com a gravidez, o projeto pessoal foi adiado. Vieram o desemprego e o fim do relacionamento. Quando o filho cresceu um pouquinho, achou que era hora de retomar a ideia inicial.

Louise tinha familiares na capital paulista, o que lhe trazia certo conforto emocional e esperança que não passaria dificuldades, mas não foi bem isso que aconteceu. Como as clientes não pagaram as dívidas, precisou aceitar a ajuda de um amigo. Foi ele quem a buscou na rodoviária e inteirou o dinheiro para a mensalidade da república.

Louise não tinha roupas adequadas para o frio paulista. Além disso, em pouco tempo, suas economias minguaram. "Com os 'bicos' que conseguia, ganhava em torno de R$ 50 por dia, o que não era suficiente para viver sozinha em São Paulo", relata.

Ao mesmo tempo, a boa performance na divulgação de um empreendimento imobiliário lhe rendeu a primeira oportunidade de um trabalho fixo: foi convidada a entrar para o time de vendas, como corretora de imóveis. Louise abraçou a chance, mas só concretizou a primeira venda (e, consequentemente, recebeu a primeira comissão), depois de cinco meses.

A partir daí, as negociações se tornaram frequentes. Louise conseguiu pagar as dívidas que havia acumulado desde que trocou de capitais, alugou um espaço só para ela e conseguiu trazer o filho, já com quase 6 anos, para São Paulo.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Nova família e nova profissão

Foi na empresa em que trabalhava como corretora que Louise conheceu o atual marido. Com dois anos de relacionamento, eles decidiram aumentar a família. Nessa hora, a paraense vislumbrou a nova profissão. "Foi na minha segunda gestação que quis mudar para ficar perto dos meus filhos. Surgiu a vontade de fazer artesanato", diz ela, que não tinha qualquer experiência na área.

Os primeiros trabalhos, aliás, foram as peças que produziu para seu chá de bebê e as lembrancinhas de maternidade. Vizinhos e amigos gostaram do que viram e fizeram as primeiras encomendas. Aos poucos, o leque de serviços aumentava. Louise passou a confeccionar itens para decoração de mesas de festas, especializando-se em papelaria e itens personalizados. À época, o filho mais velho e até o marido ajudavam na produção.

Ela decidiu dar um novo passo, agregando a cartonagem ao portfólio. Autodidata, passou por um processo lento de aceitação, até chegar ao ponto de ter tantas encomendas que precisou contratar uma funcionária. Certa vez, o pedido foi tão grande que precisou contar com a ajuda de sete freelancers. "Ou eu fazia isso ou negava a encomenda. A partir daí, me senti mais segura e sabia que poderia ir muito mais além", afirma.

A artesã estava confiante em delegar funções, algo que, até então, achava que somente ela seria capaz de fazer. "Esse é um ponto-chave para qualquer empreendedor que deseja escalar mais", reconhece. Em julho de 2018, percebeu que era hora de ter o próprio ateliê, já que até então tocava todo o negócio de dentro do próprio apartamento.

Compartilhar o conhecimento

No seu processo de aprimoramento profissional, Louise se matriculou em um curso de marketing digital. No primeiro momento, a intenção era se comunicar melhor com as clientes, mas já durante as aulas percebeu a oportunidade de ensinar aos outros o que ela sabia. Ainda viu nas plataformas virtuais uma boa alternativa.

Seu primeiro curso online foi para 50 pessoas. Atendendo a pedidos, logo na sequência, em 2016, organizou uma masterclass de artesanato com 25 alunas em um hotel paulista. De lá para cá, os eventos especiais passaram a ser organizados em várias partes do país, em torno de cinco vezes ao ano. Já as aulas online têm inscrições abertas mensalmente. Hoje, as turmas virtuais, exclusivamente de cartonagem, chegam a ter 500 matriculados.

Paralelamente, Louise segue desenvolve produtos para eventos pessoais e corporativos e realiza mentorias para grupos presenciais ou online, orientando outros artesãos a empreenderem como ela. A atuação em diferentes braços permite um faturamento que gira em torno de R$ 30 mil a R$ 50 mil por mês, variando conforme a quantidade de encomendas e cursos. Para ajudá-la nas demandas, Louise tem duas assistentes fixas.

Foram 7 anos desde o tempo em que trabalhava no cantinho de casa até conquistar seu próprio ateliê. "A persistência é a alma de qualquer negócio", conta. Para ela, "o sucesso está além da fronteira em que a maioria das pessoas desiste" - no caso de Louise, as muitas e diferentes fronteiras que ela precisou cruzar entre Pará e São Paulo.

Mapa da mina