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Após aluno apoiar, professora passa a se identificar como trans na escola

A professora de inglês Yanna Rhaniffi - Arquivo Pessoal
A professora de inglês Yanna Rhaniffi Imagem: Arquivo Pessoal

13/12/2019 04h00

A mãe da professora de inglês Yanna Rhaniffi, 32, ainda a chama de Paulo. Para Yanna, isso não chega a ser um problema, porque as duas só têm uma a outra, se amam e se apoiam mutuamente. Já os alunos a chamam de Yanna e nem lembram mais que um dia ela já foi Paulo.

A professora nasceu e vive em São Luís, no Maranhão, e conta que ter uma orientação sexual ou identidade de gênero dentro de qualquer letra da sigla LGBT ainda é um tabu na região. Ela sentiu isso na pele duas vezes, pois já foi identificada como homem gay e hoje é uma mulher trans.

Yanna conta que sempre quis usar itens considerados femininos, como roupas, maquiagem e unhas pintadas. Ela achou que seria suficiente se começasse a se montar e realizar apresentações como drag queen, mas o desejo só cresceu.

"Os shows, na verdade, retratavam como eu queria me apresentar para a sociedade, e foram uma grande libertação para mim. Demorei até eu me entender e me assumir trans e, com certeza, ser drag na noite me fez ter coragem para vestir o que eu queria, sem medo de sofrer preconceito no trabalho e na vida", diz.

Quando Yanna saiu do ensino médio não sabia exatamente que rumo tomar. Na escola gostava de inglês e por isso entrou em uma universidade de Letras. Perto de concluir o curso, ela teve contato com uma das piores experiências da sua vida.

A professora de inglês Yanna Rhaniffi - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Yanna com a mãe
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu tinha que fazer estágio em escolas regulares, ministrando aulas. Sofri preconceito de funcionários, alunos e pais. Muitos chegavam a afirmar que eu poderia influenciar os filhos a serem gays", relembra.

Com a conclusão do curso, as negativas continuaram. "Tentei emprego nas empresas que exigiam fluência em inglês, em escolas, em todos os lugares. Muitos alegavam que não tinham como me contratar pela falta de experiência, mas no fundo, a gente sabe que não é por isso. Era pela minha orientação sexual, que era bem aparente para um 'menino gay'."

"Se você pudesse ter outro nome, qual seria?"

Em 2011, Yanna foi contratada pela Minds Idiomas, uma rede de franquias que tem escolas em diversas cidades do país. Em abril deste ano, se assumiu como mulher trans no trabalho.

"Sempre me apresentava como Paulo, apesar de não me comportar como a sociedade espera que um ser do sexo masculino se comporte. Um aluno adolescente, de 17 anos, ao término da aula, me falou: 'É complicado te chamar por esse nome. Não tem a ver com você. Se você pudesse ter outro nome, qual seria?' Naquele momento percebi que não fazia mais sentido esconder que o meu verdadeiro nome, com o qual me identifico, é Yanna", relembra.

A professora dá aulas para diversas turmas e tem alunos a partir de 5 anos até maiores de 60. De acordo com ela, todos entenderam a transição de Paulo para Yanna e não houve, até o momento, episódios de discriminação por parte de outros professores e pais.

Nova vida, novo crachá

Antes de tomar a decisão, Yanna conversou com a coordenadora pedagógica das escolas e foi acolhida. Nas turmas seguintes, ela já passou a se apresentar como teacher Yanna.

A professora pediu à empresa um crachá novo, e conta que ainda não fez a transição hormonal por falta de tempo. "O que mais quero mesmo é me tornar supervisora na empresa em até cinco anos. Quem sabe me tornar a primeira trans a ministrar aulas em universidade em São Luís", planeja.

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