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Vulva e seio de crochê: elas trabalham para naturalizar corpo feminino

Peso de porta no formato de seio, da marca Crochota - Divulgação/Crochota
Peso de porta no formato de seio, da marca Crochota Imagem: Divulgação/Crochota

Nathália Geraldo

De Universa

12/12/2019 04h00

Segurar a porta com um peitinho feito de crochê ou deixar sobre a cama uma almofada de algodão com o formato de um útero, "para relembrar a força feminina, já que somos capazes de tudo, inclusive de gerar uma vida", como descreve a etiqueta do produto. Quem diria que partes do corpo feminino, ora hiperssexualizadas, ora cercadas de tabus e vergonhas, virariam peças de decoração?

Pelo menos duas marcas, que têm à frente mulheres feministas, estão transformando o desenho do corpo da mulher em utensílios para casa como forma de naturalizá-lo. A ideia é desfazer a noção de que vulva, seio, clitóris e mamilos estão sempre ligados à sexualidade.

O clitóris artesanal é um dos produtos de destaque da empresa Aos 30 Casa & Crochet, de Renata Cristina Arndt da Anunciação e Ane Oliveira Silva. A peça é vendida por R$ 50 na versão separada. A que se encaixa na vulva, uma modalidade bastante didática para quem não sabe onde fica o clitóris, sai por R$ 80.

Almofadas de útero

Almofada no formato de útero é usada para mostrar o corpo feminino de jeito didático - Divulgação/Aos 30 Casa & Crochet
Almofada no formato de útero é usada para mostrar o corpo feminino de jeito didático
Imagem: Divulgação/Aos 30 Casa & Crochet

O primeiro desenho que elas transformaram em almofada foi de um coração; não o que se desenha quando se está apaixonado, mas o do órgão muscular. São duas opções: de algodão e de veludo, em vários tamanhos. Foi em contato com coletivos de mulheres e parteiras, entretanto, que Renata e Ane passaram a fazer as almofadas de úteros (R$ 60), de algodão e com estampa digital.

Daí, foi um pulo para a produção do clitóris, um dos produtos que mais gera curiosidade entre o público das feiras e exposições em que a dupla participa, apesar de os corações continuarem sendo os mais vendidos.

"Nunca ninguém nos questionou de forma crítica, mas rola um interesse. Como se perguntassem: 'para que isso serve?'. O clitóris é o que motiva mais reações: as mulheres olham e sabem o que é. Quando estão com um parceiro, brincam dizendo que é isso que eles têm que achar no corpo delas", diz Renata que, além de vender para o público geral, recebe encomendas de sexólogas, médicas e terapeutas corporais que gostam de expor os órgãos femininos nos consultórios, de forma didática.

Na Aos 30, o clitóris grande é vendido por R$ 50 - Divulgação/Aos 30 Casa e Crochet
Na Aos 30, o clitóris grande é vendido por R$ 50
Imagem: Divulgação/Aos 30 Casa e Crochet

A vulva —parte externa e visível dos órgãos genitais da mulher— tem um formato mais lúdico, explica a empreendedora, e é feita por encomenda. Isso porque é mais difícil confeccionar o enchimento do tecido no formato certinho. "A costura é feita na máquina, mas o enchimento e o arame são colocados manualmente."

No Instagram da Aos 30, a dupla também divulga produtos como o quadro de mamas (R$ 70), em que as peças em formato de seios ficam penduradas em uma placa de madeira. Renata e Ane, inclusive, confeccionam o item personalizado para mulheres que passaram por mastectomia (cirurgia de remoção da mama, usada, geralmente, como tratamento para o câncer de mama). Um lado da peça, assim, tem apenas o desenho de uma cicatriz.

Quadro com mama mastectomizada é vendido pelas empreendedoras por R$ 70 - Divulgação/Aos 30 Casa & Crochet
Quadro com mama mastectomizada é vendido pelas empreendedoras por R$ 70
Imagem: Divulgação/Aos 30 Casa & Crochet

"Nós queremos naturalizar essas partes e levar os formatos do corpo feminino para além do erotismo. Tanto que muita gente se emocionou quando viu a peça da mastectomia. É, por fim, demonstrar que cada corpo é diferente mesmo", explica Renata. E que todo corpo merece ser representado.

Mamilos de todas as cores, seios de todos os tamanhos

Os seios sempre foram uma parte extremamente erotizada da anatomia feminina. Romper com a obrigação de tê-los empinados e redondinhos —sem manchas, pelos, estrias ou qualquer outra característica natural que possam ter — no entanto, faz parte da vida de muitas mulheres, como a publicitária Maynara Ribeiro.

Imãs e chaveiros da Crochota podem ser personalizados e custam R$ 25 - Divulgação/Crochota
Imãs e chaveiros da Crochota podem ser personalizados e custam R$ 25
Imagem: Divulgação/Crochota

Criadora da marca Crochota, que junta as palavras crochê e xoxota, ela faz peças de crochê no formato de peitinhos com variações em todos os detalhes possíveis de serem personalizados: cor da mama, dos mamilos e da aréola, marcas na pele, tamanho, diferenças entre as mamas, piercing ou gota de leite.

Uma das preocupações de Maynara é dar conta da diversidade de corpos e reproduzir valores feministas em cada chaveiro, imã (R$ 25 cada um) ou item de decoração em formato de peitinho. Por isso, em sua pesquisa inicial, a empreendedora foi até a rua 25 de Março, centro popular de compras em São Paulo, para comprar lã em diferentes cores. Para as peças, a artista usa a técnica amigurumi, costumeiramente aplicada para a confecção de bichinhos de crochê.

"A gente sabe que o mamilo clarinho e o seio claro não são o corpo universal. Eu queria que mais mulheres, especialmente as meninas pretas, que são pouco retratadas, se identificassem com os produtos", diz. "Falar de mamilos livres e do fim da objetificação é importante, mas precisamos falar de todos os corpos, não só do padrão."

Por isso, a empreendedora estimula que a cliente olhe para si mesma e veja a cor do seu seio, se tem cicatriz ou não e qual é o tamanho da sua aréola, antes de fazer a encomenda.

A Crochota, explica Maynara, quer valorizar os corpos femininos, e também os de pessoas trans ou sem gênero. E incomodar. "Nas redes sociais, já recebi até comentário de homem que diz que ter esses objetos em formato de seio é desnecessário. É só um peitinho, mas ele incomoda tanto!'

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